Por Raul Pompéia (1888)
Levava as aparições às aulas, surpreendendo professores e discípulos. Por meio deste processo de vigilância de inopinados, mantinha no estabelecimento por toda a parte o risco perpétuo do flagrante como uma atmosfera de susto. Fazia mais com isso que a espionagem de todos os bedéis. Chegava o capricho a ponto de deixar algumas janelas ou portas como votadas a fechamento para sempre, com o fim único de um belo dia abri-las bruscamente sobre qualquer maquinação clandestina da vadiagem. Sorria então no intimo, do efeito pavoroso das armadilhas, e cofiava os majestosos bigodes brancos de marechal, pausadamente, como lambe o jaguar ao focinho a pregustação de um repasto de sangue.
Nos momentos de ira e de exaltações eloqüentes é que sabia fazer-se em verdade divino. Era mais que uma revelação temerosa do Olimpo; era como se Júpiter mandasse Mercúrio catar à terra os raios já disparados e os unisse ao estoque inavaliável dos arsenais do Etna, para soltar tudo, de uma só vez, de uma só cólera, num só trovão, aniquilando a natureza sob a bombarda onipotente.
Mas não somente parodiava ele os furores olímpicos Aquela alma dúctil de artista sabia decair até à blandícia, até à lágrima a propósito.
Júpiter guardava para a oportunidade a carícia de edredom, o gesto flexuoso do soberano cisne. Expandia-se às vezes sobre o Ateneu em rompimento de amor paterno, tão derramado, tão jeitosamente sincero, que não tínhamos remédio senão replicar no mesmo tom, por um madrigal de enternecimento de filhos.
E admirávamos.
A hora solene do meio-dia Aristarco aproveitava para distribuir uma merenda de conselhos, depois do canto e antes de outra de fatias, incomparavelmente mais bem recebida. Muitas vezes não eram só conselhos. Também reprimendas em massa por culpas coletivas, arrecadações de cigarros, ou pequenos processos sumários em que se averiguava a autoria de delitos importantes, como encher de papel picado uma sala, cuspir às paredes, molhar a privada, e mesmo muito mais graves, como num episódio do Franco, que se prende ao período beato das minhas reminiscências.
Assistia o Mestre com atenção do costume à reza cantada, fazendo girar nos dedos uma medalha do relógio sobre o colete, na abertura do fraque. Ao final, depois de um intervalo preparatório, aperitivo de emoções, tomou a palavra num tom solene de revelação e referiu, com toda a grandeza de que era suscetível, a hipótese, reclamando a indignação vingadora do Ateneu.
Franco, no domingo da véspera, aproveitando a largura da vigilância no dia vago, fora vadiar ao jardim. E para tomar água de um poço aí existente, cuja bomba não funcionava em regra, deliberou, imaginem! umedecer a bucha aspiradora com um líquido que Moisés seria capaz de obter no árido deserto, sem milagre mesmo e sem Horeb. Agora considerem que o referido poço fornecia água para a lavagem dos pratos.
Um murmúrio de horror elevou-se das alas de estudantes.
“Adianta-te, Franco”, mandou Aristarco.
Com a insensibilidade pétrea que o encouraçava para as humilhações, saiu Franco do lugar e de cabeça baixa, como um cão, foi parar no centro da sala. Ali esteve por alguns segundos, exposto, no meio do enorme quadrado de alunos. Os olhares caiam-lhe em cima, como os projéteis de um fuzilamento.
O que mais indignava, era pensar que se havia comido em pratos lavados depois da profanação irremediável da linfa. Passado este efeito, com que contava para a punição moral, o diretor concluiu o libelo. Ficássemos tranqüilos, estavam puros os lábios. Franco tinha sido surpreendido por um copeiro que o prendera, e fora a bomba incontinente declarada — interdita.
Muita gente duvidou da oportunidade da interdição. Limpavam com asco a língua no lenço, esfregavam a boca até esfolar.
“O porco!” bramia Aristarco. “O grandíssimo porco!” repetia como um deus fora de si. Em redor todos apoiavam a energia da corrigenda. Resolveu-se, porém, deixar com vida o criminoso.
Aristarco marcou apenas dez páginas de castigo escrito à noite, e passar de joelhos as horas de recreio, a começar da presente.
Formulado o veredicto, Franco caiu de rótulas no soalho com estampido, como se repentinamente se lhe houvesse estalado às pernas uma mola.
“Ai não! aqui, tratante! “ gritou o diretor, indicando a porta do salão. Cantavase a oração do meio-dia, como sabem, na casa das recreações em dia de chuva, que alargava três boas portas para o pátio central. Aristarco estava perto da do meio.
De joelhos neste ponto, Franco, ao pelourinho: diante das chufas dos maus e da alegria livre de todos. Como esta porta era caminho dos rapazes até as bandejas onde se elevavam as pilhas sedutoras da merenda, ficava ainda o condenado com um reforçozinho de pena. Passando por ele, os mais enfurecidos deram empurrões, beliscaram-lhe os braços, injuriaram-no. Franco respondia a meia voz, por uma palavrinha porca, repetida rapidamente, e cuspia-lhes, sujando a todos com o arremesso dos únicos recursos da sua posição.
(continua...)
Baixar texto completo (.txt)POMPÉIA, Raul. O Ateneu. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=17440 . Acesso em: 6 abr. 2026.