Por Raul Pompéia (1882)
— Sr. dr. delegado — disse o chefe de polícia, voltando-se para um dos delegados presentes —, queira levar este homem para a detenção.
— Sr. doutor, mando vir o carro celular...
— É inútil! É inútil! — interveio o duque com a sua vozinha fina. — Nada de escândalos aqui em casa... Qualquer carro serve... Garanto-lhes que o preso não tentará fugir... Ele sabe que, se quiser fugir deita tudo a perder... pode levá-lo em qualquer veículo...
— A vontade do sr. duque será feita — respondeu o delegado, curvando-se como um homem polido e como um lacaio.
Encaminhou-se para Manuel de Pavia:
— Está preso! — disse, pousando-lhe a mão no ombro.
Vendo-se preso, o íntimo do duque de Bragantina não reagiu. Não lhe passara sem reparo o modo singular por que o duque pedira sua prisão. Refletiu que não estava de todo perdido, como se supusera um momento.
— Das duas, uma — pensou ele. — Ou o duque, apesar de todas as basófias, tem medo da minha língua, ou pretende entrar em negociações comigo, certo como está de que sou eu o ladrão do tesouro. Em qualquer dos casos, estou muito bem. Deixemos a coisa correr... Demais, as delícias que lhe reserva a minha conquista da Conceição, hão de fazer-lhe pensar em mim... Não há perigo... A menos que o Inácio ou o outro faça alguma asneira comprometedora.
O duque se afastara de todos que o haviam rodeado quando entrou na sala, e conversara em voz baixa com o chefe de polícia.
Manuel de Pavia, em tom de súplica, pediu ao delegado que perguntasse ao duque se permitia que ele fosse despedir-se da família.
O delegado perguntou. O duque voltou-se para Pavia, fitou-o longamente com um olhar cheio de desafios, e disse:
— Vá...
E falando ao delegado:
— Não o perca de vista. As despedidas hão de ser feitas em sua presença, embora dando-se ao preso a liberdade de dizer o que quiser.
O delegado e Pavia retiraram-se do palácio.
Em frente à escadaria já não havia a multidão que aí estivera a dar de língua a propósito do roubo. Pouco e pouco, cada um se fora para sua casa ou para seu trabalho, jurando consigo mesmo que o ladrão das jóias era um criado qualquer do palácio, talvez mesmo aquele que havia dado com o roubo e tanta bulha fizera com a descoberta.
A maliciosa mocetona gorda, que não dera crédito à famosa explicação da corda, deixara todos irem, e ficara perto de uma das colunas do edifício a conversar com um lacaio que vivia namorando-a. Queria ver que valor tinha um palpite que lhe viera à toa.
— Neste negócio — dissera ela — anda alguém um poucochinho maior do que um criado. Tenho para mim que toda essa baralhada vai acabar em muito segredo ou em muita porcaria...
O lacaio, encantado pela voz do seu ídolo, nem pensou nas palavras pronunciadas.
Logo que a mocetona viu sair Manuel de Pavia acompanhado de um delegado, não quis fazer a menor indagação; gingou grosseiramente com os ombros e disse entusiasmada ao seu idólatra:
— Então?!... bem eu dizia, bem eu dizia!...
O lacaio, derretido com aquele arrebatamento, revirou uns olhos idiotas, de namorado...
CAPÍTULO XI
O chefe de polícia deu ao duque informações de tudo quanto sabia, inclusive a descoberta de um formão e um macete forrado de pano, pertencentes a uns operários, que trabalhavam pelas proximidades da quinta. Os operários, não achando as ferramentas, e ouvindo falar de um arrombamento no palácio, vieram ter com o mordomo do duque. Antes mesmo que tivessem contado o furto de que haviam sido vítimas, apareceu um criado e apresentou o formão e o macete, declarando que os havia apanhado no parque, exatamente abaixo das janelas amanhecidas abertas.
Soube assim o senhor de Bragantina a desagradável surpresa de Inácio, encontrando três janelas abertas no salão do armário e o armário arrombado; as providências do mordomo, o susto do particular e a sua prostração subseqüente, a chamada do marquês d’Etu, a fúria do príncipe dos cortiços, a chamada do dr. Louro Trigueiro, as indagações a que procedera na qualidade de chefe de polícia...
Soube mais: que dessas indagações o chefe de polícia concluíra a existência de quatro culpados, aos quais não interrogara, por não querer adiantar-se muito na diligência, sem primeiro entender-se com o duque.
— Andou muito bem — aflautinou o fidalgo —, seria uma imprudência de sua parte adiantar-se muito em um negócio que só a mim diz respeito...
— Perdão — ousou contestar o chefe de polícia —, a V.Exa. e à lei...
— Ora!... a lei, alei... Está-me agora o senhor com a lei, como certo sujeitinho que eu conheço, com a honra... Quer saber o que é a lei? Dux prudens imperat, disse não sei que escritor latino, creio que Anabasis; o capitão prudente manda; também já vi um político traduzir: O poder é o poder... Pois isto é que é a lei... Quem pode, alisa-lhe a barriga... Cá para nós; a lei nunca me preocupou... Não me fale muito, nessa senhora...
O chefe de polícia, abafando uns pequenos protestos das suas recordações da artinha, deu uma risadinha amável de quem sabe viver, e concordou tacitamente.
(continua...)
Baixar texto completo (.txt)POMPÉIA, Raul. As joias da coroa. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=17439 . Acesso em: 6 abr. 2026.