Por Raul Pompéia (1881)
Mas ao artista deve ceder o historiador, para o estudo das tragédias do Ideal no passado. É a missão contemplativa do moderno idealismo. Deus, Verdade, Liberdade, são os três cantos da melancólica epopéia das aspirações humanas, cujos versos de sangue vêm entrelinhando a história, desde às obscuras tradições do Oriente. À luz da arte erige-se o severo monumento das audácias, dos desesperos, Ossa e Pelion sobrepostos em direção ao céu; e a grita desordenada dos entusiasmos e das decepções vibra na abóbada como uma sinfonia profunda. Ao redor da concepção do Belo e do Justo agrupam-se os heróis. Cada século faz galgar um certo número a escadaria, e organiza-se o conjunto peça a peça, avultando com o tempo, harmônico e admirável.
Suprema Bondade foi a mais sublime criação do instinto artístico. O Bem é ao mesmo tempo o belo, o justo, o verdadeiro: Ideal dos ideais. Contra a tirania dos egoísmos, que é o Mal, lavrou este protesto o coração humano.
Conforme os diversos graus de cultura intelectual dos homens variou-se a maneira de conceber a Bondade. Para cada fase do desenvolvimento uma hipótese antropomórfica
- Hércules, Cristo, D. Quixote. Hércules é a bondade heróica e mitológica; Cristo é a bondade medieval e católica; D. Quixote é a bondade moderna idealizada na ironia do livre exame. Três imagens dolorosas, geradas de estranho pessimismo. Hércules tem a púrpura abrasadora de Nessus; o Nazareno tem a Cruz; o cavalheiro de Cervantes tem o carnaval das armaduras e o pelourinho implacável da gargalhada.
III
Hércules enche o passado. Concretiza a alma dispersa das resistências. Vive na Pérsia, no Egito, nas Gálias a tradição herculana, como símbolo da força propícia contra a força adversidade. Hércules é o amparo e a defesa. O chão é rebelde e estéril, - Hércules é o sol que cria a nuvem e a fecundidade. A humanidade está cercada pela conspiração dos monstros, hostilizada pelas forças ocultas da natureza e pelas sugestões da maldade, a iniqüidade devastadora campeia em auge - Hércules faz a justiça de Talião. Monstro de Neméia, hidra de Lema, corcéis de Diomedes, touro de Creta, Anteu, Lacínio, Gerion, Cacus, Buziris, sob qualquer fisionomia que se manifeste a tirania e a violência,. Q herói a chama a combate. Zombou de Juno, que era a cólera celeste, e libertou Prometeu, que era o sofrimento humano. Carregou aos ombros o firmamento, por alívio de Atlas, que era o trabalho forçado, e destruiu a necessidade cosmegônica, abrindo à expansão ampla do oceano a clausura do pedrado Mediterrâneo, erguendo às portas do Atlântico padrões eternos do cometimento - as poderosas colunas.
Missionário do sacrifício, era a lei dos fados que o herói sucumbisse. Armou-se a intriga maldita do amor da esposa com a vingança do centauro e Ele foi vencido, o bom, o forte, o justiceiro, o sempre vencedor - pela traição do Destino. Sofreu como deve sofrer o sol envolvido no esplendor flamejante da própria glória e, como o sol, vestindo a túnica da sua tortura, Hércules fez a jornada do dia, caminho do ocidente, atravessando o teatro das grandes empresas, direito às nuvens sobre o monte, escuras como o pressentimento dos amores de Iola, e foi pedir sossego à morte na fogueira do Oeta, simultaneamente incendiada com a rebentação rubra do crepúsculo.
Cristo é a mitologia nova. Veio aperfeiçoar o mosaísmo no sentido do coração e substituir o ideal fatigado das aras pagãs. A fatalidade fluvial dos fatos reconquistara o primitivo andamento. Haviam renascido os monstros do sangue derramado dos monstros. O egoísmo, filho da Terra como Anteu, ressurgia da última derrota, válido e potente. Era preciso ensaiar de novo a Redenção do Cáucaso. Nasceu, então, o filho de Maria, por graça do Espírito Santo, como outrora o filho de Alcmene por obra de Júpiter. Repetiu-se o sagrado mistério da encarnação do Ideal na humanidade: veio à luz o inimigo da serpente do Gênesis, esmagada como as de Juno.
Mas estava transformado o mundo. Começava a civilizar-se o mal, perdida a feição rudimentar de brutalidade da natureza nascente, vegetando outro, sobre a geologia tranqüila do planeta constituído; entrava até a decair a grandeza romana. O novo campeão, em vez da hercúlea dava teve o ânimo da propaganda e um ramo de oliveira. Paz entre os homens na terra, como a beatitude dos anjos na altura. Guerra ao demônio apenas, com as armas da fé e da graça. Crer e esperar. Guerra ao demônio sensualidade, guerra ao demônio ambição - inimigos da ventura calma do bem. Abaixo os altares do terror e do sangue! Façamos a eucaristia incruenta do amor.
Arranquemos a espada às mãos da velha Justiça, em nome da Justiça nova do perdão. Contra as vaidades, desprezo; contra as tiranias, paciência; contra as injúrias, silêncio: Jesus tacebat. Amor ao homem por amor do Ideal divino.
(continua...)
Baixar texto completo (.txt)POMPÉIA, Raul. 14 de julho na roça. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=7632 . Acesso em: 6 abr. 2026.