Por Lima Barreto (1922)
Raro era sair, porque a mulher punha todo o esforço em que ele o não fizesse. Mandava buscar parati, comprava-lhe os jornais de sua estimação, a fim de que ele permanecesse em casa. As mais das vezes, ele obedecia; mas, em algumas raras, recalcitrava, saia, com quinhentos réis em cobre, na algibeira, bebia aqui, ali, dormia debaixo das árvores das estradas e ruas pouco freqüentadas, e, mesmo, quando o delírio alcoólico o tornava forte, despia-se todo e gritava heroicamente numa doentia e vaidosa manifestação de personalidade:
— Eu sou Leonardo Flores.
O povo sabia vagamente que ele tinha celebridade. Chamava-o — o poeta. No começo, caçoava com ele, mas ao saber de sua reputação, deram em cercá-lo de uma piedosa curiosidade.
— Um homem desses acabar assim — que castigo! — dizia um.
— É "cosa" feita! Foi inveja da "inteligença" dele! — dizia uma preta velha. — Gentes da nossa "cô" não pode "tê inteligença"! Chega logo os "marvado" e lá vai reza e "fetiço", "pá perdê" o homem — rematava a preta velha.
Aparecia um circunstante mais prático na sua piedade, vestia novamente o poeta e levava-o para a casa.
Era justamente a ele, Leonardo Flores, que o doutor Meneses procurava, quando, naquela manhã de dia santo e não feriado, entrou na venda de "Seu" Nascimento, mancando, devido à inchação das pernas, e com as suas barbas brancas, abundantes, mas não cerradas, aparadas e tratadas à imitação do nosso último Imperador.
O doutor Meneses galgou a soleira da porta com esforço; parou um instante, logo que se viu no interior da venda, pôs as mãos nas cadeiras e respirou com força. Após os cumprimentos, perguntou:
— O Flores não tem aparecido?
— Há muito tempo que não vem aqui — fez o "Seu" Nascimento do interior do balcão.
— Fui à casa dele, e disse-me a mulher que havia saído... Preciso tanto dele...
Ao dizer isto, sentava-se no tamborete que o caixeiro lhe abrira e o pusera onde ele estava, o dentista.
Descansou mais um pouco, sorveu mais uma forte dose de ar e, dirigindo-se ao Alípio, perguntou:
— Como vai você, Alípio?
Só estavam na venda Alípio e o velho Valentim, este em pé, encostado ao umbral de uma porta lateral; e aquele, sentado, lendo um jornal.
Alípio respondeu:
— Vou bem; não tão bem como o senhor, que anda agora em companhia de
"almofadinhas" artistas.
— Como? — fez espantado o dentista particular.
— É o que dizem. Corre aqui que o senhor está toda a noite com o mestrevioleiro Cassi e vários companheiros, num botequim do Engenho Novo.
— É verdade. São todos rapazes decentes, que...
— Então, o Cassi, este é de colete?
— Dizem — interveio "Seu" Nascimento — que esse rapaz...
— É um bandido — acudiu Alípio. — Ele merecia mais do que cadeia; merecia ser queimado vivo. Tem desgraçado mais de dez moças e não sei quantas senhoras casadas.
— Isto é calúnia! — protestou Meneses. — Fala-se muito por aí...
— Que o quê! Os processos têm corrido, os jornais têm publicado, e ele arranja meios e modos, para livrar-se das penalidades e lançar na desgraça moças e senhoras — confirmou Alípio.
— Como ele consegue isso? — indagou "Seu" Nascimento.
— No começo, com a proteção do pai. Ao fim do segundo ou terceiro caso que veio a público, o pai não lhe falou mais e nunca mais se interessou pela sua liberdade. Sucederam-se outros, e, graças à intervenção da mãe junto a um irmão, médico do Exército, ele pôde arranjar rábulas sem escrúpulos, que, pelos meios mais nojentos, conseguiram retirá-lo das grades da detenção. Caluniava as vítimas com justificações em que eram testemunhas Timbó, Arnaldo e outros tais. Contoume a Vicência — o senhor não a conhece, "Seu" Nascimento? — perguntou Alípio.
— Quem é? — perguntou por sua vez o taberneiro.
— É aquela crioula velha que vem aqui, às vezes, fazer compras, para a casa do Maior Carvalho. Ela foi empregada na casa do pai de Cassi muito tempo. Um dia — ela não sabe bem por quê — o pai expulsou-o de casa. A mãe mandou-o para a casa do irmão em Guaratiba. Lá, ele fez ou pretendeu fazer uma das suas, mas o tio não esteve pelos autos; despachou-o para a irmã. A muito custo, a mãe conseguiu que ficasse num porão dos fundos, que mal tem a altura dele, Nesse "socavão" é que ele mora e come. Nunca sobe nas dependências superiores da casa, com medo do pai. Se, por acaso, este tiver notícia dessa sua ousadia, põe-no definitivamente na rua.
— Que diz a isso, doutor Meneses? — chasqueou Nascimento.
— Não sei, porque pouco me preocupo com a vida dos outros — tergiversou Meneses.
— Não é da vida dos outros — fez impetuosamente Alípio — ; é com a vida de um pirata como Cassi, que não respeita família, nem amizades, nem a miséria, nem a pobreza, para fazer das suas porcarias. É por isso que eu...
"Seu" Nascimento interveio suasoriamente e pediu calma. Era um homem alto, claro, um tanto obeso, tipo do antigo agricultor patriarcal, das nossas velhas fazendas. Ele assim disse:
— Não é necessário indignar-se, Alípio, fique calmo. O monstro não tem mais protetores, como você já disse.
(continua...)
Baixar texto completo (.txt)BARRETO, Lima. Clara dos Anjos. Brasília, DF: Ministério da Educação, Domínio Público. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=16815 . Acesso em: 29 abr. 2026.