Por Coelho Neto (1890)
— Não te metas com essa mulher, é o diabo. É um escândalo de saias: faz rolos, tem ataques, suicida-se uma vez por mês, um horror! Arranjaste uma complicação, vais ver. Essa mulher vem desorganizar a nossa vida. Estamos aqui tão bem, trabalhando tranqüilamente e vai-se tudo por água abaixo. Já estou a vê-la revolvendo papéis, folheando livros, espalhando notas ou esperneando ali no tapete descomposta, com os tais ataques. Não penses que há despeito da minha parte, falo assim porque conheço a fundo essa ventoinha. Acho melhor que não a tragas para cá.
— Mas se ela quer vir..
— Quer vir! Ora! Quer vir! Mas para onde, se dormimos no mesmo quarto?
— Por isso não: eu falo ao Toledo.
— Pois sim, hás de ver o resultado. É até capaz de fazer-nos perder esta casa, onde estamos tão bem. É assim! Quando começo a pôr ordem na vida... zás! E foi-se para a janela resmungando.
O Toledo cedeu o quarto sem a mínima objeção; apenas retirou da parede os retratos do pai e da mãe e pôs uma vela nova no castiçal. O estudante conseguiu, com alguma lamúria, arrancar dez mil réis ao misantropo para as grandes despesas da ceia.
O dia parecia a Anselmo infindável e, impaciente, às sete e meia da tarde, com quinze mil réis no bolso e a alma radiante, caminhou trauteando a "Canção de Fortúnio" em direção ao Deroche para fazer hora.
Lins lá estava chuchurreando chopes e ouvindo as bravatas de um alentado barbaças que era paginador num jornal. O homem narrava, roxo e inflado, suando, um feito de mocidade. Andava uma noite em serenata, com outros, lá para as bandas da Cidade Nova, quando dois policiais, por birra, lhes tomaram o passo proibindo, com descomposta linguagem, o zangarreio e o descante. Com boas palavras tentaram persuadi-los de que não eram vadios, mas homens pacíficos, de trabalho, que se divertiam ao luar da noite morna, mas os polícias, julgando, pelas falas mansas, que eram poaias, insistiram na proibição e, sem mais aquela, foram desembainhando os rifles. Ele então, em furor de louco, atirou as manoplas à barriga dos intangidos soldados, suspendeu os dois e muito tempo, no ar, esteve a bater um contra o outro até que os sentiu moles; encostou-os, então, a um muro e foi-se pacatamente, fumando. Soube, mais tarde, que os dois policiais, recolhidos de manhã, com as caras amassadas e rubras como dois grandes tomates, estiveram entre a vida e a morte durante um mês, no hospital, bradando, no delírio da febre, contra um gigante, alto como uma torre e armado de cavaquinho, que os esmagava. O gigante era ele. A voz trovejante do paginador, saindo dentre as barbas densas, era soturna e temerosa como a de um oráculo vindo de versuda brenha em escachôos, ecoando. Lins ouvia-o entre assombrado e descrente e pedia mais chopes.
Quando Anselmo entrou o poeta apresentou-o ao paginador que possuía o nome beato de Santos e o colosso, tomando na prensa da destra a mão fraca do estudante, para dar demonstração da sua força, apertou-a. Anselmo, porém, não se deu por sentido, posto que se lhe enchessem os olhos de água.
O Deroche estava quase deserto; além do poeta e do gigante só dois alemães, cachimbando e cervejando, calados como autômatos, recomeçavam partidas de dominó. Anselmo lançava, de instante a instante, os olhos ao relógio moroso. Como lhe pareciam lentas aquelas horas! Que noite vagarosa! Lins não podia acompanhá-lo, ia escrever uma crônica para um jornal de província. Já o caixeiro lhe havia posto diante dos olhos, entre os copos vazios, o tinteiro e um caderno de papel. Anselmo foi-se. A rua do Ouvidor, sem movimento, tinha o aspecto desolado de viela abandonada. As ruas do Rio de Janeiro, como as de Paris, segundo Balzac, têm qualidades e vícios humanos: há ruas estróinas e há ruas pacatas, ruas ativas e ruas negligentes, ruas devassas e ruas honestas, umas cujos nomes andam constantemente em notas policiais, outras que são citadas nas descrições elegantes.
A rua do Senhor dos Passos é imoral e imunda, a sua linguagem é torpe, o seu vestuário indecoroso, as suas maneiras insólitas, o seu cheiro nauseabundo, é uma rua que se enfeita com alecrim e arruda e embebeda-se com cachaça, tem hábitos vis de xadrez e de tasca. Por mais que se arreie vê-se-lhe sempre a imundície e a pústula; por mais que se esfregue sente-se-lhe sempre o fortum.
A rua Sete de Setembro é uma delambida rameira que estropia a língua do país e escandaliza a moral; o seu colo tem placas, os seus lábios mostram a devastação fagedênica, o seu hálito envenena. Tais ruas são como essas flores noctilucas que só desabotoam à noite e expandem o seu aroma; durante o dia caladas, entorpecidas modorram em flácido e derreado abandono, bocejando.
A rua da Conceição é desconfiada, como que tem sempre o olhar à espreita, a navalha à mão, o pé ligeiro pronto para saltar e fugir. Não fala — murmura, cochicha, em gíria arrevesada. E maltrapilha e zambra, arrasta andrajos e oscila.
(continua...)
Baixar texto completo (.txt)POMPÉIA, Raul. A conquista. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=16594 . Acesso em: 6 abr. 2026.