Por Raul Pompéia (1880)
— Eu tenho desejo de saber o que fazia você, ontem à noute, fora de casa... Diga a verdade... Eu não creio na tal história de passeio com que me quis iludir ontem.
"Otávio abaixou o rosto, que lhe enrubescera e ficou calado, olhando para as mãos.
"Julguei que o houvesse ofendido.
"— Está zangado comigo? perguntei-lhe, suavizando mais a voz. Não está
.... Então fale...
"O menino encarou-me com os olhos úmidos e, extremamente perturbado, murmurou:
"— Não posso...
"É fácil imaginar quão grande era o meu interesse em descobrir o segredo do menino. Não sei que voz íntima me dizia que esse segredo estava por qualquer forma relacionado com os fatos que têm sucedido nesta casa... Aquela obstinação de Otávio em calar-se vinha sobretudo me aguilhoar de modo insuportável a curiosidade. Devo ainda lembrar que o filho do francês, fazendo-se meu amigo logo após a sua chegada em S. João do Príncipe, juntara a essa amizade uma veneração e uma confiança que me enterneciam. Só um motivo fortíssimo o poderia coagir a ocultar-me qualquer cousa.
— Vamos, meu filho. Pedi-lhe. Fale... Porque não me faz este favor.
Otávio fez então um movimento de resolução e falou:
"— Senhor padre, eu não devo ter segredos para com o ....mas um receio me tem impedido de ser inteiramente franco nas conversas...
— O que é que receia, Otávio?
— Senhor padre, eu fiz um juramento, cujo o cumprimento aliás não implica más ações, contudo...
— Receia que eu não o deixe cumprir?!
Otávio guardou silêncio. Neste silêncio adivinhei uma resposta afirmativa e acrescentei:
"— Otávio, os juramentos proferidos em um momento de irreflexão e cujo cumprimento está acima das nossas forcas não obrigam..."
"— Mas o meu juramento... eu posso cumpri-lo!... E, até, já o tenho cumprido em parte."
"— Então o que receia?... De modo nenhum me oporei aos seus atos... pelo contrário! eu os facilitarei como puder..."
"'— Muito lho agradeço, disse-me ele. Vou revelar-lhe tudo..."
O padre Jorge repetiu então o que lhe referira Otávio, isto é, aquilo que os seus ouvintes mais ansiavam por conhecer, para que se certificassem de que não era inexata uma suposição que as palavras do sacerdote já lhes haviam inspirado...
Quando Henrique Dugarbou ao retirar-se de S. João do Príncipe se despedia do filho, viu na mão do menino um pequeno objeto. Era o brinco de coral com que a protegida do Eustáquio mimoseara o seu amiguinho de uma tarde.
— Onde achaste isto, Otávio? perguntou o viajante com estranha vivacidade.
Otávio, não tendo mostrado a seu pai o presente que recebera e acreditando que ia ser censurado, respondeu timidamente:
— Foi a filhinha do subdelegado.
Estas palavras foram trocadas à porta da habitação de um amigo de Henrique Dugarbon, onde tinha de ficar Otávio.
À resposta do menino, a fisionomia do viajante deixou transparecer inexplicável alegria.
Henrique Dugarbon, ficando à sua espera os quatro homens que o deviam acompanhar nas suas viagens, entrou de novo na habitação, puxando Otávio pelo pulso.
Então, achando-se apenas com o menino e o dono da casa, pediu a Otávio o objeto que lhe dera Rosalina. Examinou-o por momentos e depois, possuindo-se de uma tristeza, mais inexplicável do que a alegria que a precedera, falou gravemente a Otávio, que o observava admirado:
— Meu filho, a menina de cujas mãos recebeste este objetozinho não é filha do subdelegado, como disseste... É a filha de um pobre homem que morreu para salvar-me a vida.
— Oh! meu pai...
— É verdade, Otávio... Tens certamente na memória o fato a que me refiro.
"Um dia, íamos atravessando o Amazonas..."
— Oh! bem me lembro!... Uma horrível borrasca se desencadeara... Fomos abalroados por um tronco de árvore que sobrenadava... Caíste fora da embarcação... Era impossível lutar com as ondas... íeis morrer... o mísero lançou-se ao rio!... agarrou-vos... conseguiu repor-vos sobre a embarcação... salvou-vos!... Mas as águas revoltas o envolveram... eu vi uma mão agitar-se por instantes fora d'água... era o adeus supremo do infeliz!... Ele sumiu-se...
Otávio enxugou com as costas da mão uma lágrima que lhe pendia dos
cílios.
— Exatamente, meu filho. Pois esse homem dedicado consagrava-me verdadeiro afeto, e, seis dias antes do fatal desastre que findou a sua existência, ele, adivinhando talvez que tinha de morrer em breve, quis dar-me uma lembrança da sua amizade.
"Sr. Henrique, me disse ele, peço-lhe que aceite este objeto, a que eu dou um apreço imenso, e por isso vô-lo ofereço"...
Henrique Dugarbon meteu dois dedos em um bolso, tirou uma mãozinha de coral inteiramente igual à que lhe entregara Otávio e, apresentando-a ao menino, disse:
— Aqui está o que ele me deu... O bom homem amava este objeto porque lhe recordava uma filha que tinha em S. João do Príncipe, com sua mulher. Essa menina chamava-se Rosalina e a inicial do seu nome estava riscada sobre o fragmento de coral querido do seu pai, que lhe dera um brinco semelhante, tendo também riscado a inicial do nome dele.
(continua...)
Baixar texto completo (.txt)POMPÉIA, Raul. Uma tragédia no Amazonas. Rio de Janeiro: Typ. Cosmopolita, 1880. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=17442 . Acesso em: 6 abr. 2026.