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#Romances#Literatura Brasileira

O Ateneu

Por Raul Pompéia (1888)

Eu não olhava para o altar. Li estava rica, no trono iluminado, sobre três ordens de palmas, a imagem da Senhora da Conceição imaculada, alteando à fronte a coroa de prata, onde engastavam pedraria os reflexos das luzes. A minha contrição, o meu canto pertenciam a Santa Rosália, ao querido cartão singelo que eu trazia dentro da blusa de brim, que comprimia ao peito com a mão, exacerbando o êxtase da fé pelo magnetismo do santo contato.

O mês de maio foi a culminação do período anagógico de crença. Coincidiu com essa época levarem-no ao leito os incômodos de meu pai, impedindo-lhe as visitas do costume ao Ateneu. Eu pensava nos seus sofrimentos, e era isto mais um tema para as variações do misticismo.

A neblina de melancolia, baixada sobre o colégio da altura da cordilheira, repercussão da tristeza verde das matas, pesava-me aos ombros como a loba de um seminarista, como o voto de um frade; eu passeava na circunscrição do recreio como num claustro, olhando as paredes, brancas como túmulos caiados, limitando as preocupações do espírito à minha humilhação diante de Deus, sem olhar para cima, na modéstia curvada dos brutos — anulando-me a mim mesmo na angústia do pensamento religioso, como no saco de pano bicudo, preto, do farricoco.

O céu, que a imaginação buscara dantes, como os cânticos buscam os zimbórios, cala agora sobre mim como um solidéu de bronze.

Triste e feliz.

Ninguém sabia dos sonhos e atribuíam à excentricidade o meu amor à solidão e ao sossego.

Durante o hino do anjo da guarda, no recreio abrigado, ao meio-dia, os estudantes, afogueados e transpirando ainda dos folguedos, paletós empapuçados sobre a cinta de couro, cabelos revoltos, não tomavam o rito a sério, e era a dureza dos vigilantes que os constrangia ao respeito daqueles dez minutos de religião. Só o Ribas e eu... e se não diminuíam as aflições da terra e os nossos apertos, não é que o não pedíssemos ao Anjo...

Cantávamos a primeira estrofe (o Ribas marcava o diapasão) e as seguintes, ate à última, que acabavam todas por uma longa nota esfuziada em foguete, cantávamos com um esforço de adoração que bem compensaria, em caso de balanço, a leviandade irreverente de todos os colegas.

O diapasão do Ribas era uma deliciosa nota, tratada a pastilhas, guardada a cachenê nos dias frios, furto sem dúvida ao tesouro de gorjeios de algum sabiá descuidado. Aristarco adorava esta nota. Às vezes, na aula de música chamava o Ribas e pedia-lhe aquela, aquela... a do hino...

Ribas candidamente, por agradar ao diretor, punha de fora a mimosa nota, como uma balinha de parto, cor de âmbar, na ponta da língua. Ao meio-dia era o momento. Ribas volvia os olhos e deixava partir, primeiro que todos, o preciso som. O colégio entoava depois, e as vozes iam todas, as nossas, em perseguição da primeira. Baldado esforço; que a do Ribas recolhia-se aos coros celestiais, festejada na cordialidade fraternal dos harmônicos, ao passo que as nossas, desenganadas, voltavam da investida num retrocesso icário, desmembradas, desengonçadas, espaços a baixo como um bando de garças tontas. A distancia, o conjunto podia passar por um cântico.

Uma hora de oração que aborrecia era a da noite, antes do recolher.

O movimento do dia sobrecarregava-nos com uma reação irresistível de fadiga. O sono chumbava-nos as pestanas como linhas de tarrafa. O harmônio da capela, dedilhado pelo Sampaio, hoje médico parteiro, e aplicado a extrair vagidos como outrora extraía os acordes — produzia vagarosamente roncos de soneira da sesta de um tigre, fungados sonoros da digestão dormida de um abade. Alguns meninos cantavam cabeceando, desmaiando a voz em vastos bocejos. Nas primeiras linhas, dos pequenos, estavam muitos de olhos fechados, bem longe dos cuidados da prece. Eu gozava o prazer da mortificação, sustendo-me fervoroso durante a reza noturna.

Para isso, levava no bolso um punhado de pedrinhas, com que formava no soalho um genuflexório despertador, fitando arregaladamente os olhos, ardidos de sono, na lingüeta tiritante do fogo das velas...

Aludi várias vezes ao revestimento exterior de divindade com que se apresentava habitualmente Aristarco.

Era um manto transparente, da natureza daquele tecido leve de brisas trancadas de Gautier, manto sobrenatural que Aristarco passava aos ombros, revelando do estofo nada mais que o predicado de majestade, geralmente estranho à indústria pouco abstrata dos tecelões e à trama concreta das lançadeiras.

Ninguém conseguiria tocar com o dedo a misteriosa púrpura. Sentia-se, porém, o influxo da realeza impalpável.

Assim é que um simples olhar do diretor imobilizava o colégio fulminantemente, como se levasse no brilho ameaças de todo um despotismo cruento.

O diretor manobrava este talento de império com a perícia do corredor sobre o pur sang sensível.

A sala geral do estudo tinha inúmeras portas. Aristarco fazia aparições, de súbito, a qualquer das portas, nos momentos em que menos se podia contar com ele.

(continua...)

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