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#Contos#Literatura Brasileira

As joias da Coroa

Por Raul Pompéia (1882)

— O sr. duque entrega-me à polícia, mas eu entrego-o ao público. Contarei as suas vergonhas... Partilhei-as, conheço-as todas como cúmplice, mas eu não tenho um nome; o sr. duque não se acha no meu caso! Não terei escrúpulos por mim.

Apontarei uma por uma as suas amantes; narrarei as caçadas; darei conta das minhas incumbências; lançarei à rua os mistérios do meu ofício como quem faz um despejo. Cairei na lama, mas terei a satisfação de salpicar com o baque a sua coroa de duque...

Venha a polícia... Hão de acorrentar-me os punhos e os tornozelos, mas ninguém me soldará os lábios! Vossa Excelência aponta-me à polícia, eu aponto-lhe as suas misérias íntimas... Fui comparado ao homem dos esgotos... pois o esgoto não cheira a rosas... eu arranco-lhe a tampa! Contra a justiça que os duques compram a peso de ouro, eu oponho somente uma força: a minha língua!...

Pavia bateu com o dedo numa pontinha de língua que lhe saiu por entre os dentes, ameaçadora como um punhal sangrento:

— O sr. duque faça o que entender — concluiu pesadamente.

Durante a enxurrada de ameaças de Manuel, o duque guardou uma serenidade enigmática, profunda. Tendo-se voltado para a mesa, pusera-se a coçar o bigode, fitando sem atenção as órbitas vazias da caveira, que lhe ficava em frente.

Quando Pavia calou-se, o duque começou, sem mostrar ressentimento, como se as palavras do íntimo não tivessem sido dirigidas a ele:

— Por mais que você fale, Manuel, por mais que se esforce, não poderá dar me uma nova amostra do que você vale. Remexa, revolva e excrete tudo o que tem de asqueroso nessa cabeça e nesse coração, que eu só direi no fim: é exatamente o meu Manuel de Pavia!... Então supõe que quando eu o achei com cara de servir-me, não sabia perfeitamente que você se havia de acreditar poderoso, por conhecer a minha vida secreta?! Não pense, entretanto, que eu o julgo estúpido... É muito canalha para sê-lo... A razão das suas ameaças, eu bem sei, é a esperança que você tinha de amedrontar-me com um escândalo... Isto prova que você não me conhece... Você não sabe que um duque de Bragantina não pode ter medo de um lacaio? Está vendo aquela lista de nomes ali... na parede? São os tolos que se lembram de meter-se no meu caminho... cada um deles conte-se como um homem esmagado. Pois, se eles não têm força para resistir-me... um criado muito reles é que... Olhe, Pavia, no dia em que a minha latrina se revoltar, eu mando meter-lhe o machado nas tábuas...

A calma de esfinge com que o duque falava, fazia um efeito terrível sobre Manuel de Pavia. O íntimo caíra subitamente da sua alucinação ameaçadora. Como que sentia na nuca o peso do calcanhar do duque. Por baixo da tez morena espalhou-se-lhe uma fugitiva palidez de medo.

Pavia, que falara numa postura declamatória, inclinou para o chão a cabeça e curvava-se como se fosse pôr de joelhos. Não achou réplica para as palavras do duque.

— Sabe — concluiu o fidalgo, aproximando das sobrancelhas o couro cabeludo, num ríctus formidável que ele possuía para os momentos de amedrontar —, sabe, Manuel, para que serviram as suas ameaças vis?... Valeram uma denúncia... Verificou-se a minha suspeita... O ladrão das jóias... é você!...

As últimas palavras do duque foram pronunciadas secamente, rapidamente, pesadas como a fórmula de um veredicto, o tom feminino da voz transformou-se-lhe nuns sons enérgicos, agudos, penetrantes.

Pavia reuniu o que lhe restava de coragem, e arriscou:

— Sr. duque, juro...

Não pôde continuar.

O duque levantou-se e cortou-lhe a palavra:

— Siga-me! — disse-lhe.

Pavia considerou-se perdido. Lembrou-se de confessar o crime e pedir perdão, lembrou-se de correr pela porta do museu e saltar de uma janela para fugir da quinta. Mas não era possível. Faltavam certas providências que ele não tomara, por não prever uma tão positiva e inesperada acusação. Demais, uma espécie de magnetismo fatal o impossibilitava de escapar.

— Siga-me! — repetiu fortemente o duque.

Pavia seguiu-o. E os dois saíram pela porta que dava passagem para a frente do palácio.

No seu gabinete privado, entre aquela caveira secular e aquela preguiçosa lasciva; nesse aposento recatado, que era ao mesmo tempo gruta sombria e casta de monge, pelo crânio, e alcova perfumosa e brilhante de harém, pelos coxins; ali, à vista de Sócrates e de Epicuro, o duque de Bragantina criou um tribunal por sua conta e condenou Manuel de Pavia.

Veremos o peso desta condenação.

Depois da sua longa ausência, reapareceu o duque aos que haviam ficado à espera, sem dar-lhes explicação nem pedir desculpas...

— Graças a Deus!... — disse o marquês d’Etu ao ouvido do chefe de polícia, vendo entrar o pai.

Logo em seguida ao duque apareceu Manuel de Pavia.

Todos se espantaram com isso. O que significava a presença daquele indivíduo?

O duque explicou:

— Sr. dr. Louro — disse ele dirigindo-se ao chefe de polícia —, entrego-lhe este homem. Tenho sérios motivos para mandar prendê-lo. O senhor há de conhecê-los em breve. Prenda-o, e cuidemos de verificar quais são os culpados do roubo das jóias.

(continua...)

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