Por Raul Pompéia (1881)
A história é a mesma, desde a conquista de Roma, desde aquele. passado heróico em que o pomo da discórdia confundiu. os deuses na disputa dos homens, até às loucuras cavalheirescas dos cruzados, até às campanhas mais recentes cm nome das crenças, até às revoluções modernas do igualitarismo, assopradas pela tuba enfática das proclamações.
Os ideais variam, o engano permanece. Os mesmos desatinos em nome de princípios diversos.
Primeiro foram as concepções da arte consubstanciadas com as crenças religiosas; em seguida uma época de transição, o divórcio dos ideais, delimitados o campo da arte propriamente dita e os domínios da religião; finalmente, a religião vencida e o ideal artístico em triunfo.
O princípio, os poemas eram os livros sagrados; a estrofe era o veículo da prece. Filhas da mesma disposição espiritual contemplativa, as duas irmãs separam-se. De parte a parte, exaltam-se, independentes, por muitos séculos, os entusiasmos artísticos e os entusiasmos religiosos. Os deuses são meros pretextos para os artistas; as estátuas são meros ídolos para os crentes. Dante escreve a Comédia, o leitor piedoso a diviniza. Surgem as rebeldias líterofilosóficas e preparam a última fase que recalcou para o escuro a rareada legião dos crentes e glorificou os artistas. Ganhou predomínio a ilusão literária. A retórica foi a alma dos últimos conflitos históricos. Armou-se o gesto de Mirabeau com o sabre de Bonaparte.
Em nossos dias a frase declina. O livre exame requintou-se em desalento; não sei que sombrio niilismo preocupa o enlevo das contemplações humanas. Dir-se-ia que vai naufragar o instinto artístico no mar das trevas; que a transmigração do ideal baixou progressivamente, da concepção enganosa das teogonias até à religião dos desesperos. Confunde-se a necessidade brutal da existência, ananckhe, com a prostração desanimada das fantasias. Desabam os santuários; a imaginação morre aos pés do industrialismo ovante.
Indústria é a grande palavra - capital e servidão, tirania e esbulho. Só a indústria marchou em progresso ao rodar do tempo, a indústria, que é o egoísmo, o individualismo, contra a solidariedade, que é poema; o fatalismo da força maior triunfante, o fato positivo, indiferente à moralidade e à estética; a economia política da iniquidade, avessa à pragmática do belo e do justo, feições similares da mesma idéia inane.
Às vezes, sucedeu ser tão viva a exacerbação da fantasia concorrente que a evolução da força das cousas mostrou ressentir-se. É o caso da caudal encrespada à superfície pela viração em contrário: no fundo a correnteza é a mesma regular e invencível. Também Maquiavel ensina, o mestre sem piedade das duras lições, "que vemos em triunfo os profetas armados e acabando desgraçadamente os propagandistas inermes . E refere o exemplo de Savonarola. É que os profetas armados triunfam pelas armas, não pelas profecias. Não vence o justo; convence o ferro. A justiça é ideal; a força é fato.
Na época presente, entretanto, chegamos à dissolução. A fórmula da luta pela vida deu carta branca a todos os abusos; definitivamente poder é poder. Desapareceu mesmo a hipótese dos profetas armados. Os inermes embucham, quando não fazem, para que não sucumbam, da profecia um mercado.
Ao passo que a emulação dos tiranos e a rebeldia crescente dos oprimidos, sem fé, sem esperança, vai espalhando na atmosfera da civilização o pavor negro de uma expectativa, como não conheceu jamais a história dos povos.
II
Aos grandes ciclos do Ideal corresponderam paralelamente, nos domínios do Fato, três espécies de atividade psicológica. Época das religiões; época das filosofias; época das constituições e dos códigos. Delírios sucessivos da mesma febre.
Destas crises, a mais duradoura e a mais grave foi a primeira; período agudo: as Cruzadas, os mais belos dias do desvario beato da humanidade; personagem típica - S. Luís. A segunda complicou-se por muito tempo com a primeira até acentuar-se; período agudo: reforma e guerras de religião; tipo - Lutero. A terceira perdura em manifestações fugitivas até aos nossos dias: período agudo: Revolução Francesa; personificação - Danton.
Hoje que, o ideal expira, entramos por uma idade nova, rumo trágico do futuro à luz de um astro misterioso, em noite de desolação. Os últimos sonhadores, olhar fixo no relógio parado das ilusões, vão desesperando da quarta hora de Justiça de Proudhon.
Estudando sem preconceito a sociedade moderna e a filiação histórica das datas, verifica-se que, excetuando o esforço dos tiranos e conquistadores, que recortaram à ponta de espada as linhas geográficas do mapa-múndi e sedimentaram as camadas sociais, segundo a mecânica do egoísmo - todas as grandes lutas dos homens nada mais foram que a gênese ensangüentada de mil vocábulos: nulas variantes fônicas das expressões: Deus, Verdade, Liberdade, trilogia sinistra da eterna ignorância.
(continua...)
Baixar texto completo (.txt)POMPÉIA, Raul. 14 de julho na roça. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=7632 . Acesso em: 6 abr. 2026.