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#Romances#Literatura Brasileira

Recordações do Escrivão Isaías Caminha

Por Lima Barreto (1909)

O inspetor procurou acalmá-la; a outra, muito popularmente, pôs-se a chorar explicando que não furtara os ovos, que não os comera, mas que guardara unicamente o primeiro, temendo que fosse “mandinga”, “coisa-feita”, e que, depois, com a continuação, não os restituíra com vergonha, mas que o faria logo que chegasse a casa. Acalmadas e repreendidas, foram-se e a delegacia em breve regressou à sua atmosfera enervante. A ela e ao meu abalo moral, juntavam-se a tonalidade amareleça da tarde e o ambiente de forja para me dar um mal-estar nunca sentido. Esperava o delegado, procurando devanear, sonhar, analisar-me, mas era em vão: a inteligência não me obedecia. Havia em mim um grande vazio mental, e a imagem que me vinha aos olhos era a da pobre mulher a imprecar, sem nenhuma grandeza, contra o destino implacável, dentro daquela feia e triste sala. De repente a treva fez-se mais espessa. Na sala da delegacia acenderam as luzes, ao tempo que um relâmpago veio iluminá-la instantaneamente. Ouviu-se um estalido agudo, um ronco de trovão e, estremecendo, sentimos nós todos que um raio caíra nas proximidades. A chuva começou a cair fracamente, sem a violência que o rigor do céu ameaçava, quando a poderosa autoridade entrou. Passava das seis horas; a opressão da atmosfera diminuíra muito e o calor abrandara razoavelmente.

Chegou e eu esperei ainda. Afinal, fui levado à sua presença. Ao lado, em uma mesa mais baixa, lá estava o Capitão Viveiros, o tal escrivão, muito solene, com a pena atrás da orelha, o seu olhar cúpido e a sua papada farta. O delegado pareceu-me um medíocre bacharel, uma vulgaridade com desejos de chegar a altas posições; no entanto, havia na sua fisionomia uma assustadora irradiação de poder e de força. Talvez se sentisse tão ungido da graça especial de mandar, que na rua, ao ver tanta gente mover-se livremente, havia de considerar que o fazia porque ele deixava. Interrogou-me de mau humor, impaciente, distraído, às sacudidelas. Repisava uma mesma pergunta; repetia as minhas respostas. A sua impaciência levava-o a perder tempo. Não dava grande atenção ao interrogatório; olhava com insistência a rua, os bondes que passavam com cortinas arriadas. Num dado momento, como querendo levar a coisa ao cabo, perguntou pela terceira vez:

— Qual é a sua profissão?

— Estudante.

— Estudante?!

— Sim, senhor, estudante, repeti com firmeza.

— Qual estudante, qual nada!

A sua surpresa deixara-me atônito. Que havia nisso de extraordinário, de impossível? Se havia tanta gente besta e bronca que o era, por que não o podia ser eu? Donde lhe vinha a admiração duvidosa? Quis-lhe dar uma resposta mas as interrogações a mim mesmo me enleavam. Ele por sua vez, tomou o meu embaraço como prova de que mentia.

Com ar escarninho perguntou:

— Então você é estudante?

Dessa vez tinha-o compreendido, cheio de ódio, cheio de um santo ódio que nunca mais vi chegar em mim. Era mais uma variante daquelas tolas humilhações que eu já sofrera; era o sentimento geral da minha inferioridade, decretada a priori, que eu adivinhei na sua pergunta. E afirmei então com a voz transtornada.

— Sou, sim, senhor!

— Pois então diga-me de quem é este verso: — “estava mudo e só na rocha de granito”?

— Não sei, não senhor; não leio versos habitualmente...

— Mas um estudante sempre os conhece, fez ele com falsa bonomia. É de admirar que o senhor não conheça... Sabe de quem é este outro: — “é o triunfo imortal da carne e da beleza”?

— Não sei absolutamente, e é inútil perguntar-mo, pois nunca li poetas.

— Mas o senhor, um estudante, não saber de quem são estes versos! Admira!

— Que tem uma coisa com outra, “seu” doutor? fiz eu sem poder reprimir um sorriso.

— Está rindo se, “seu” malcriado! fez ele mudando repentinamente de tom. Muita coisa! É que você não é estudante nem nada; não passa de um “malandro” muito grande!

— Perdão! O senhor não me pode insultar...

— Qual o quê! continuou o delegado no auge da cólera. Não há patife, tratante, malandro por aí, que não se diga estudante...

Eu começava a exaltar-me também, a sentir-me ofendido injusfamente, agredido sem causa e sem motivo; contive-me, no entanto.

— Mas eu sou, asseguro-lhe...

— Qual o quê! Pensa que me embrulha... você o que é, é um gatuno, sabe?

Por aí, houve em mim o que um autor russo chamou a convulsão da personalidade. Todo eu me agitei, todo eu me indignei. Senti num segundo todas as injustiças que vinha sofrendo; revoltei-me contra todos os sofrimentos que vinha suportando. Injustiças, sofrimentos, humilhações, misérias, juntaram-se dentro de mim, subiram à tona da minha consciência, passaram pelos meus olhos e então expectorei as sílabas:

— Imbecil!

— Que diz! perguntou ele com autoridade.

— Que você é um imbecil, ouviu?

Não me disse mais nada; não se lembrou mesmo de determinar que o escrivão lavrasse auto de flagrante. Ergueu-se cheio de fúria, esperei-o pronto para jogar os sopapos; mas o terrível delegado ia unicamente à porta para ordenar que me metessem no xadrez.

(continua...)

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