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#Romances#Literatura Brasileira

A Conquista

Por Coelho Neto (1890)

Ia começando o segundo ato quando uma atrizinha apareceu muito tesa, em passo miúdo, rebolindo-se, com a sombrinha acolhida entre os braços sob o colo. Fazendo leve cumprimento ao estudante inclinou-se para dizer alguma coisa ao ouvido do empresário que, de olhos altos, ia respondendo: "Sim... Sim... Sim..." Enquanto ela falava Anselmo, que acendera um cigarro, olhava-a e admirava-a. Clara, de olhos garços, pequenos, irônicos, mas de inexcedível vivacidade brejeira, lábios carnudos, cabelos castanhos e colo farto, que ondulava maciamente.

— É uma peça nova? — perguntou lançando um olhar ao manuscrito.

— Sim, disse o Heller.

— Há algum papel para mim? Anselmo afirmou:

— Há a princesa ou, se a senhora preferir, a fada. A atriz inclinou-se sobre o original, que o estudante deixara aberto na mesa, examinou-o, tomou-o nas mãos e, com um sorriso que dava ensejo a que o jovem autor visse duas filas de dentes admiráveis, exclamou enlevada:

— Com efeito! Que letra! Linda letra, heim, Jacinto?

— É verdade, concordou o empresário sonolento.

— Tão certa! Parece impressa. Sim senhor! Esta não precisa ser copiada para o ponto. O senhor escreve sempre assim?

— Sempre; afirmou o estudante.

— É admirável! E ajuntou: Quem tem tão linda letra deve escrever coisas admiráveis. Com licença... Se permite que eu ouça algumas cenas da sua peça... Há muito que começou? Que calor, heim? Em que ato está?

— No segundo.

— O primeiro não é mau, resmungou o Heller: tem vida.

— Vamos lá, disse a atrizinha chegando a cadeira para junto do estudante e, sempre com os olhos nele, risonha, ouvia. Ia Anselmo lendo uma grande e enfática invectiva quando se pôs a gaguejar, perturbado: sentira leve pressão no pé e, instintivamente, lançando um olhar interrogativo à atriz, viu que ela o fitava enternecida, com os olhos semicerrados e lânguidos. Quase ao terminar o segundo ato uma voz bradou do palco estentoricamente:

— Ó Jacinto! O empresário, ajustando o pince-nez, levantou a cabeça:

— Que é?

— Anda cá!

— Com licença. É um momento.

— Pois não. Ficaram os dois e o Heller ia ainda perto quando a atrizinha, em tom ardente e discreto, com a cabecinha inclinada, murmurou:

— Que olhos tem você, menino...! Ele sorriu tímido. Fazem mal à gente, palavra; ajuntou. Olharam-se e ela, sorrindo, tornou mais forte a pressão do pé.

— Você é estudante?

— Sou.

— De Medicina?

— Não: de Direito; estudo em S. Paulo.

— Ah! S. Paulo! — disse ela de olhos em alvo, como se aquele nome lhe trouxesse suaves e saudosas recordações. Inclinou-se sobre a mesa e Anselmo sentiu-lhe o contato dos joelhos. Ela examinou o frontispício do manuscrito e, lendo "Anselmo Ribas..." perguntou:

— É teu nome?

— É...

— Que idade tens?

— Dezoito anos. Encarou-o risonha, mordiscando o beiço e exclamou de novo:

— Mas que olhos! Você deve ser um homem terrível! Quem é a tua amante?

— Minha amante? Não tenho.

— Não tem!? — fez ela com espanto compadecido: Pobrezinho! De repente, sacudindo uma penugem que pousara na lapela do casaco do estudante, perguntou: — Vens logo ao teatro?

— Posso vir.

— Então espera-me depois do espetáculo. Onde moras?

— Na rua Formosa.

— Só?

— Com dois outros rapazes: Ruy Vaz e um estudante de Medicina.

— Ah! Moras com Ruy Vaz?

— Moro.

— Bonito rapaz aquele, heim?

— É... Levantou-se, tomou a sombrinha e, estendendo a mão breve ao estudante, enquanto lhe apertava os dedos, disse:

— Então até logo. Olha, espera-me junto do botequim. Vamos cear e depois... riu derreando a cabeça, piscando os olhos. Até logo; e, erguendo a voz: Jacinto, adeus, hein!

— Adeus! Já à porta, acenou com os dedos um adeus a Anselmo, depois, apontando o balcão do botequim fechado: Ali!

— Sim, disse o estudante.

— Até logo! — e atirou-lhe um beijo. O estudante, surpreendido com esse rápido incidente de amor, mal pôde concluir a leitura. Já não se preocupava com os proventos nem com o sucesso da opereta, pensando apenas no encontro noturno com tão formosa rapariga, mas a idéia da ceia aterrou-o. Como havia de a levar a um hotel se toda a sua fortuna reduzia-se a uma velha nota de cinco mil réis? Não havia de conduzi-la a uma tasca para empanturrá-la de iscas e de vinho verde, nem era gentil levá-la a bonde para casa. Mulheres como aquela estavam habituadas a iguarias finas, a champanhe e não se moviam senão em carruagens macias. Como se havia de arranjar para aparecer decentemente à atriz que ficara magnetizada pelos seus olhos felinos?

O empresário aceitou a peça prometendo montá-la logo que tivesse ensejo e

Anselmo saiu radiante, feliz nas letras, feliz no amor, antegozando as duas delícias — a noite próxima, sonora de beijos, e o êxito de A Profecia... logo que houvesse ensejo. Quando chegou à casa narrou miudamente a aventura. Ruy Vaz, que conhecia a atriz, quis dissuadi-lo.

(continua...)

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