Por Raul Pompéia (1880)
— Bem, com os meus inimigos apareceu ultimamente um devotado defensor da minha causa e esse defensor, quando, na picada, salvou a Branca e a Rosalina, matou um negro, que eu não vi..., mas quem era possível que ele fosse?... Mais um fato a justificar as minhas desconfianças. Entretanto... ante-ontem o golpe do meu protetor não abateu um negro... mas um branco.
"Fiquei nadando em um mar de dúvidas. Senti o meu espírito se revoltar. Que culpa pretendiam fazer-me expiar? Quem eram os infames que me perseguiam? Tive a idéia de ir procurá-los. O aviso, de que vos falei hoje, me decidiu... eu partir e... tenho agora a solução da questão.
"Vós me perguntastes se eu não os conhecia. Conheço-os, são aqueles perversos que escaparam das mãos da polícia, há pouco mais de dous anos, e outros que a eles se uniram pelo interesse único que pode ligar dous bandos de salteadores... São uns miseráveis! Uns miseráveis, que, vós o sabeis, têm intenção de roubar-me, assassinar-nos a mim e a Branca e de..."
O padre Jorge, tapando com os dedos a boca do amigo, não o deixou acabar. Rosalina estava perto.
Alguns segundos de silêncio seguiram-se às últimas palavras de Eustáquio. Depois o padre Jorge, inclinando a cabeça para o peito, recaiu nas suas meditações.
— Tudo, tudo, disse então Eustáquio, suspirando, tudo se esclarece, exceto o mistério que encobre o meu protetor!...
O padre Jorge, com a cabeça caída, olhou para o amigo por dos óculos, e um sorriso expressivo correu-lhe pelo rosto.
Eustáquio, que não arredara os olhos do sacerdote, exclamou:
— Padre Jorge, vós conheceis!... Dizei-me quem é por favor!... Quem é esse ente misterioso que me tem protegido com tanto desinteresse. Debalde procuro na minha memória alguma cousa... Uma boa ação, que me houvesse granjeado o merecimento de uma dedicação como a que ele tem testemunhado...
Nessa ocasião Branca e Rosalina saíam da alcova abraçadas. O padre Jorge, indicando a menina, disse:
— Estás vendo aquela criança?... Deus não esquece os atos de caridade.
— Explicai-vos, disse Eustáquio. Rosalina... A que aludis?... Eu amparei-a, mas...
— Deus o viu... É por ela que alguém te protege. — Padre Jorge, não sei quem...
Branca e Rosalina se tinham aproximado. Eustáquio atraiu a si a menina, passou-lhe carinhosamente a mão pelos lindos cabelos negros e beijou-lhe a fronte. Rosalina sorrindo voltou o rosto com ademanes de pombinho. Depois, ouvindo Eustáquio falar, ergueu para ele os olhos redondos que lhe brilhavam no moreno fugitivo do semblante.
— Por ventura, dizia ele, seu pai...
— Meu pai?! gritou ela de repente. Está vivo! oh!... então tenho dous pais para amar!...
— Coitadinha murmurou o padre Jorge, vendo a alegria que se apossara de Rosalina.
— Eustáquio, continuou ele, tu desejas saber quem 6 que te tem defendido...
vou dizer-to; porém hás de prometer-me uma cousa: não procurar o teu defensor e esperar paciente que ele de modo próprio se apresente.
— Prometo!
— Tenho a tua palavra... Vou falar...
Eustáquio, Branca e Rosalina chegaram-se para o padre e esperaram com ansiosa curiosidade que ele falasse.
— Na noute de 13 deste mês, começou ele, o calor que fazia não me deixava conciliar o sono. Eu levantei-me pelas onze horas e saí da casa. em busca de ar fresco. Pus-me a vagar pelas vizinhanças da minha morada. Alguns minutos depois ouvi um rumor estranho. Àquela hora a noute estrelada ainda carecia de lua, mas não estava escura. Eu vi um vulto passar correndo a alguns passos de distância do lugar onde eu estava. Quem seria? Acabava ele de entrar na povoação, ou ia sair dela?
"Com a curiosidade despertada, eu encaminhei-me rápido para a viela onde vira o vulto desaparecer. Avistei-o ainda andando depressa e voltando repetidas vezes a cabeça. Ele deu com a minha presença, pois que, afrouxando os passos, saudou-me:
"— Boa noute, senhor padre.
"Eu conheci-lhe a voz.
"— Boa noute, meu filho, respondi.
"E, admirado de ver o menino a tais horas fora de casa, continuei:
— Está passeando... Não é?
— Estou, como o senhor, disse-me ele.
"A explicação dada não era muito aceitável. Eu porém não pedi-lhe outras e, depois de vê-lo entrar na sua habitação, voltei para a minha...
"Disse que o tal vulto era um menino. Era-o de fato... Um rapazinho louro, que está em S. João do Príncipe pouco mais há de dous anos... O filho de um naturalista francês, que lá o deixou quando passou pela povoação e que agora percorre o norte desta província, à cata de plantas desconhecidas ou raras, dando expansão ao seu gênio, que ele mesmo chama aventuroso."
— Otávio Dugarbon! gritaram uníssonos Eustáquio. sua mulher e Rosalina. — Sim, Otávio Dugarbon, confirmou o padre Jorge. Era ele.
"No dia seguinte, pelas seis horas da manhã, eu o vi de novo. Chamei-o. Ele veio à minha casa. Beijou-me respeitosamente a mão e me interrogou com os olhos. — Você quer saber, disse-lhe eu, depois que nos assentamos, porque o chamei. Não é?" — Sim senhor, respondeu ele.
(continua...)
Baixar texto completo (.txt)POMPÉIA, Raul. Uma tragédia no Amazonas. Rio de Janeiro: Typ. Cosmopolita, 1880. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=17442 . Acesso em: 6 abr. 2026.