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#Romances#Literatura Brasileira

O Ateneu

Por Raul Pompéia (1888)

Era boa a priminha. Mais velha do que eu três anos, carinhosa, maternal comigo. Brincava pouco, velava pelos irmãos, pela ordem da casa, como uma senhora. Tinha os olhos grandes, grandes, que pareciam crescer ainda quando fitavam, negros, animados de um movimento suave de nuvem sobre céu macio; o semblante claro, branco, puro, de marmórea pureza, coando uma transparência de sangue a cada face. Raro falava; desconhecia a agitação, ignorava a impaciência. Sabia talvez que ia morrer. Ao vê-la passar, sem rumor, como os espectros femininos do sonhador americano — leve na terra como o rogar da veste de um anjo, sentia-se com aperto de coração que não pertencia ao mundo aquela criança: buscava, errante na vida, buscava apenas o repouso da forma, sob a campa, em sitio calmo, de muito sol, onde chorassem as rosas pela manhã — e a liberdade etérea do sentimento.

Um dia, não sei se do pranto que tinha nos olhos, vi animar-se o rosto à pequenina gravura. Eu pensava na prima; descobri na imagem uma identidade comovente de traços fisionômicos com a pequenina morta. Guardei então, como um retrato, Santa Rosália?

Com a evolução de misticismo era natural completar-se a consagração da estampa, canonizada triunfalmente no concilio ecumênico dos meus mais íntimos votos.

Era a sala geral do estudo, à beira do pátio central, uma peça incomensurável, muito mais extensa do que larga. De uma das extremidades, quem não tivesse extraordinária vista custaria a reconhecer outra pessoa na extremidade oposta. A um lado, encarreiravam-se quatro ordens de carteiras de pau envernizado e os bancos. À parede, em frente, perfilavam-se grandes armários de portas numeradas, correspondentes a compartimentos fundos; depósito de livros. Livros é o que menos se guardava em muitos compartimentos. O dono pregava um cadeado à portinha e formava um interior à vontade. Uns, os futuros sportmen, criavam ratinhos, cuidadosamente desdentados a tesoura, que se atrelavam a pequenos carros de papelão; outros, os políticos futuros, criavam cameleões e lagartixas, declarando-se-lhes precoce a propensão pelo viver de rastos e pela cambiante das peles; outros, entomologistas, enchiam de casulos dormentes a estante e vinham espiar a eflorescência das borboletas; os colecionadores, Ladislaus Netos um dia, fingiam museus mineralógicos, museus botânicos, onde abundavam as delicadas rendas secas de filamentos das folhas descarnadas; outros davam-se à zoologia e tinham caveiras de passarinhos, ovos vazados, cobras em cachaça. Um destes últimos sofreu uma decepção. Guardava preciosamente o crânio de não sei que fenomenal quadrúpede encontrado em escavações de uma horta, quando verificouse que era uma carcaça de galinha!

Eu tive a idéia de armar em capela o compartimento do meu número. Havia compartimentos enfeitados de cromos e desenhos: o meu seria um bosque de flores, e eu acharia uma lâmpada minúscula para conservar li dentro acesa. Ao fundo, em dourado passe-partout alojaria Santa Rosália, a padroeira.

O projeto caiu pela dificuldade das flores. Pagando a um criado, mal conseguia um bogari, um botão qualquer por dia. Tive de acomodar a gravura na gaveta do móvel que possuíamos ao dormitório, perto da cama, para as escovas e os pentes.

E todos os dias, sobre o papel, testemunho de assídua veneração, depositava uma flor, mantendo na gaveta o clima tépido dos meus fervores, simbolizados num tributo de perfume.

Quando, no dia primeiro, sorriram as rosas místicas de maio, saudei-as enternecido do alto das janelas do salão azul, como as mensageiras do amor de Maria.

Iam começar os hinos pela manhã no oratório do Ateneu. Abençoados momentos de contrição e ternura, em que à disposição venturosa do corpo, depois do banho, vivia um pouco o recolhimento da poesia cristã, no magnífico salão, guardando ainda, como os vapores matinais das escarpas, as ultimas sombras da noite por entre os crespos do estuque.

O sol vinha também à capela e colava de fora a fronte às vidraças, brando ainda do despertar recente, fresco da toilette da aurora, com medo de entrar, corado da vergonha de não rezar, pobre astro ateu. Pelas janelas abertas, esgalhavam-se para dentro frondosas ramas de jasmineiro, como uma invasão de floresta; e os jasmins da véspera, cansados, debulhavam-se conchinhas de nácar pelo soalho, mortos, expirando no ambiente a alma livre do aroma.

Nós, ajoelhados, ressentidos da influência moral do cenário, orávamos sinceramente. Não havia muito mal a colher nos corações daquela mocidade, naquele instante, repousando na trégua da oração das miseriazinhas da hora comum.

(continua...)

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