Letras+ | Letródromo | Letropédia | LiRA | PALCO | UnDF



Compartilhar Reportar
#Contos#Literatura Brasileira

14 de Julho na roça

Por Raul Pompéia (1881)

O piano era um memorável tacho, de não sei que fabricante, diabólico. Produzia sons novos, inauditos, fenomenais, que davam idéia de fabuloso armazém de ferros velhos em revolução, harmonias assombrosas, não sonhadas por Wagner. Por um efeito incrível de contágio, parece que a enfermidade dos donos se comunicara ao piano. Eu era capaz de jurar que aquele piano estava tísico, tão perfeitamente ético como o magro vizinho. Havia notas tossidas, havia escalas escarradas... Ninguém imagina!

Deste monte de horrores, o pianista tinha a habilidade de extrair a sua música, a tal peça eterna e desesperadora.

Era um prodígio desafinado de doçuras, enxame de moscas sonoras zumbindo na clave de fá sobre pieguices requebradas e sentidas da clave de sol, como sobre compotas. Via-se na música da filha, o gênio do pai. Estava presente todo o alfenim da magra sentimentalidade dos vates da antiga escola. Era uma melodia a pingar melado; a enjoar de doçura.

O poeta adorava essa música. Alimentava o seu estro na beterraba e na cana daquele açúcar. Fecundada por essa inspiração de confeitaria, o referido estro dava à luz estrofes idiliais, onde o leite e o mel corriam pelos regatos e as cordilheiras eram legítimos pães de açúcar alinhados como na Serra dos Órgãos.

Estas obras-primas de lirismo lacrimejante e apaixonado apareciam, como sonâmbulas, a bracejar desvairadas, pelas colunas ineditoriais das folhas.

Não se calcula o sacrifício que se impunha o trovador para exalar em público, por glória de seu nome, os suspiros de sua alma a seis vinténs a linha.

Um belo dia o piano calou-se. Mau agouro! E o poeta não saía à rua...

Quando já a vizinhança se dava parabéns, pelo feliz desaparecimento do tal piano e da tal música, eis que de novo ressurge a melodia!

Desta vez, custava-se a ouvir. As janelas fechadas da casinha do poeta cobriam a música com o abafador de uma espessa surdina.

Nunca me pareceram tão profundamente irritantes aqueles sons. Possuíam, então, uma ternura estranha, pungente, revoltante! As notas não cantavam mais nem suspiravam - estertoravam. Era como uma série arquejante de derradeiros suspiros, ao longe. Uma agonia longínqua e interminável.

Fazia raiva aquilo! Terrível conspiração daquela pianista com aquele piano, daquela música com aquelas vidraças descidas... para me darem cabo dos nervos naquele dia!

Felizmente, a agonia acabou. A música subiu, num crescendo de círio expirante e morreu de chofre, como se lhe houvessem faltado as cordas do piano. ..................................................................

No dia seguinte, me explicaram o significativo da casa fechada e do reaparecimento da música. Adoecera e morrera o poeta lírico. Adivinhando a morte, mandara a filha ao piano tocar a melodia querida.

E adormecera o grande sono, ninado por aquela música, a dulçurosa irmã do seu estro.

Lirismo e tísica, escreveu o médico na certidão de óbito.

Raul Pompéia

CAVALEIROS ANDANTES

Ao meu amigo J. Capistrano de Abreu

I

Pode ser que o dia histórico de amanhã, desfeitas às brisas da madrugada a noite de tempestade que se anuncia no oriente do futuro, acamada em firme cristalização de paz toda essa fervura vulcânica de aspirações infrenes que estremecem no subsolo do edifício social do nosso tempo, destruída a linha das fronteiras, após o desmembramento dos impérios, como se destruíram os castelos do feudalismo; reorganizando-se a humanidade sobre uma topografia nova. graças à justiça civil da dinamite, graças ao direito internacional dos canhões; pode ser que traga o dia de amanhã da evolução o advento feliz das esperanças realizadas, dos que crêem na Providência latente dos fatos.

Até ao presente século, serenamente julgando, triste tem sido a jornada dos homens através da vida. O oásis da eleição e do venturoso privilégio para alguns; para a multidão indistinta, o amplíssimo deserto, a marcha forçada do trabalho e do sofrimento, ao sol inclemente de um céu sem eco para os clamores, sem misericórdia para as lamentações.

A par dos fatos, como por uma errata de idealismo, desenvolveram-se as formas da meditação. Teogonias, religiões, filosofias, propagandas morais, reformas humanitárias, a hipocrisia dos comícios e as sínteses francamente artísticas da literatura; criou-se um mundo imaginário, buscou-se ao azul do infinito, na metamorfose dócil das nuvens, os aspectos consoladores que faltam à realidade rasteira. Surgiram os Heróis, os Deuses baixaram à terra, para contrastar a pureza. olímpica de sua essência com a grosseria humana das vulgaridades.

Extasiados na contemplação que nos arreda da natureza crua das cousas, pobres mortais, entregamo-nos facilmente à história do ideal. Vazadas no molde dos sonhos, as concepçôes visionárias encarnam-se; sentimos a ilusão, gozamo-la, sofremo-la, palpamos a sombra, amamos, adoramos a miragem interior do nosso delírio, desequilibrado o critério da opinião, doudos que estejamos da anagogia do instinto artístico das almas.

(continua...)

« Primeiro‹ Anterior...2122232425...Próximo ›Último »
Baixar texto completo (.txt)

← Voltar← AnteriorPróximo →