Letras+ | Letródromo | Letropédia | LiRA | PALCO | UnDF



Compartilhar Reportar
#Crônicas#Literatura Brasileira

A Descoberta da Índia

Por Coelho Neto (1898)

Alguns attribuiam ao piloto indio todos aquelles males julgando-o pactuado com o demonio para perdel-os a todos; outros afirmavam que era o proprio demonio que conseguira illudir o capitão mettendo-se a bordo e persignavam-se quando o viam apparecer á luz livida d'um relampago no castello da nau firme, os olhos ao longe; ao mesmo tempo, porém duvidavam d'esses pensamentos vendo-o tão sereno entre os retábulos de Deus e da Virgem.

Apezar do terror o Gama, com o seu imperio, conseguia manter a gente nos seus postos e o piloto governava a nau que se debatia aos encontrões dos escarcéos formidaveis. Já as vozes não eram attendidas, não por desobediencia senão porque ninguem as ouvia eos mestres andavam de grupo em grupo ordenando — aqui para que ferrassem um resto de panno que ia solto batendo d'encontro á verga, alli acudindo a um batel que se desprendera do seu apparelho despejando no mar a palamenta, mais adiante prendendo uma bombarda que se soltara do reparo e, indo e vindo, os homens em serviço estabeleciam a confusão encontrando-se aos esbarros, escorregando, caindo d'encontro aos mastros.

Sempre firme, inabalavel, affrontando o horror o Gama, no seu posto do commando, ordenava, sem commover-se com aquelle inspirado assalto em tão vasto e desprotegido golfo, tão forte era n'elle a certeza de que havia de alcançar a terra da India a qual, para incitar o ardor nos que a buscavam, encarecia-se oppondo borrascas e baixios como empeços para experimentar o animo dos que a deviam vencer e dominar.

Justamente como nas balladas do tempo as lindas princezas encantadas que dormiam em selvas absconditas, dentro de paços de crystal e de ouro, com as aias dormindo em torno do seu leito e tambem adormecidos o arvoredo, os passaros, os regatos, apenas vigilante o monstro que a guardava desconforme, com o corpo forrado de escamas de aço, os olhos fulminantes accendidos, as garras promptas, o arpéo da cauda agúdo, os dentes afiados e ainda, para horror maior, respirando um hlito putrido e de chammas que lhe saia roncando das fauces encardidas. O seu monstro alli estava — era o oceano.

N'um momento, porém, estalando um raio que illuminou todo o mar os da nau, lançando os olhos em torno e não avistando os outros navios, julgaram-se perdidos. Houve um instante de assombro mudo mas, um assomado, n'aquelle desespero de morte, bradou : «Queremos voltar ! » e outro ajuntou, arrancando uma das malaguetas para armar-se: «Para Portugal!»

«Para Portugal!» clamaram todos em revolta, mal se podendo ter firmes; ainda assim, aos solavancos, tomando cada qual o que lhe vinha ás mãos, foram avançando para o castello.

O vento rompeu n'uma assuada, o mar cuspia-lhes a sua baba e, para que vissem bem o horror em que estavam, relampagos luziam. Eram, por certo, os demonios que ordenavam aquellas zombarias. « Para Portugal!»

Uma das vergas estalou e fendida ficou pendurada pelos cabos batendo violentamente d'encontro ao mastro; já a agua rolava dum bordo a outro bordo e fragorosamente os vagalhões batiam no costado da nau.

«Para Portugal! Para Portugal! Queremos voltar ! Este é o mar intransmontravel! Este é o mar assombrado ... Para o reino com a nau! Para o reino! Ao leme!»

Quizeram os mestres contel-os com brandura mas foram repellidos com violencia e, porque n'elles o terror começava a suffocar a energia, foram na coda d'aquelle bando infeliz de homens encharcados, feridos, descalços, com os cabellos e as barbas gottejantes, as vestes em retalhos, unidos n'uma solidariedade de desgraça. Iam alli os mestres promptos para se bandear para o vencedor: dizendo-se pacificadores se o capitão conseguisse supplantar os revoltosos ou adherindo á revolta se os homens não se submettessem; e a maruja avançava desequilibrada, rugindo. O Gama, porém, vendo o tumulto e como varios marinheiros mais audazes subiam ao castello de gatinhas, cravando as unhas nos degráos humidos da escada ou agarrando-se aos maineis, impoz-se sobranceiro e, com um gesto altivo e dominador, repellio-os, fazendo descer aos trancos um que já ia com a mão ensanguentada nos ultimos degráos, a faca atravessada nos dentes.

Baixando ao convez, pondo-se soberbamente entre elles, com os cabellos empastados, sob a chuva que jorrava impetuosa, á luz intermittente dos relampagos, mostrando aos rebeldes os montes de grilhetas e estendendo o braço, com a cabeça energicamente levantada, emquanto a borrasca estrondava, apontou o fundo tenebroso do horizonte, bradando :

— O rumo é este!

E, como no bando que se apertava um ainda ousasse dizer, não mais em tom altivo, mas humilde, a pedir: «Queremos voltar...» o Gama passou os olhos severos por todos e, sem dizer palavra, chegando-se a uma das bordas, agarrou as cartas que levava e os astrolabios e atirou-os ao mar que depressa os engulio alijando assim a esperança de uma vergonhosa volta, fechando a porta por onde se queriam escapar covardemente os timidos, dando um unico remedio áquella desventura — o seguirem por diante.

(continua...)

« Primeiro‹ Anterior...2021222324Próximo ›Último »
Baixar texto completo (.txt)

← Voltar← AnteriorPróximo →