Por Coelho Neto (1924)
Por que há de vir de tão longe, ao presídio onde peno, a lembrança constante do bem que se me foi, como chega ao faro dos felinos cativos a fragrância das florestas? E agora, mais do que nunca, punge-me a saudade, porque os dias são de ventura.
Natal! Tempo do convívio familiar, tempo em que todos se reúnem - os que se acham fora acodem à casa pressurosos e a mesa rodeia-se e amores.
E ele?
Assim como o aroma das brenhas irrita, enfurece os leões cativos, assim essa alegria da vida aumenta o meu desespero.
Fora melhor para as feras que as encerrassem em covis subterrâneos, sem luz de sol, sem ar de silvas, onde tudo fosse negrume, umidade e bafio de sepulcro.
A nós fora melhor que Deus nos apagasse a memória.
Lembrar é como avistar através de grades, sentir o intangível, ouvir sem poder escutar; lembrar é viver no mundo das ilusões, entre espetros e sombras.
Neste tempo suave, todo do bonança, tempo em que os pais se revêem nos filhos e, com a mesma fé, no altar doméstico, comemoram a crença e o amor, o coração vibra mais sensível à ternura.
Todos os lares preparam-se para a comunhão feliz na grande noite de Cristo e, eu... Eu sofro como sofrem os beluinos sentindo na aragem o perfume das selvas que florescem.
Como poderei ter alma para celebrar um natalício, ainda o do próprio Deus, quando só penso na morte e, em vez de berço, o que se me opõe aos olhos é um sepulcro?
O aroma que respiro é de flores funerais; os sinos que tangem hosanas soam-me a finados. O meu Natal é a saudade e, através das grades da jaula em que me agito desesperadamente, vejo o céu, o céu longínquo, o céu infinito... e nada mais!
A MINHA MESA
Sete palmos exatos mede a minha mesa, tantos como um túmulo. Não lhe sabia eu a extensão e nunca atenderia a tal grandeza, para mim maior do que a do mais vasto império, se a não houvesse tomado com o teu corpo.
Não há chão mais fértil do que a tábua desse móvel, solo em que mourejo há trinta e três anos, sem repouso, granjeando a lenha, o pão e o linho e jamais deixou de medrar, ainda que o escopelismo da maldade por vezes tenha procurado abafá-la.
Por mais ásperos que hajam sido os temporais - e quantos me têm passado pela vida - nunca me sucedeu tornar desse abençoado alfobre, que rego com o meu suor, de mãos vazias. Em qualquer dos seus pontos pode ser posto um sacrário por que, em toda ela, não há um milímetro inquinado.
Nunca a pena com que lavro abriu sulco para má semente: cova para protérvias, esconderijo para amealhar suborno. O que dela vem a flux pouco é, mas desse pouco é puro, sem cizânia, e sempre me bastou, e jamais dele me servi com remorso.
Mal amanhece busco-a e ponho-me logo a trabalhar e, assim como o lavrador enche os carros de ceifa, assim vou enchendo páginas com os meus sonhos.
E a imaginação, como as abelhas e as borboletas, que trazem pólen para fecundar as flores, traz, igualmente, para os meus devaneios, imagens e alegorias com que se ornamenta o agro dos meus escritos.
Nessa mesa fundei alicerces e levantei construções: ela é o meu pequeno império, o meu domínio, o meu diversório e o meu celeiro, o meu retiro de paz e o meu horto de oliveiras. Sete palmos! Toda uma vida no espaço que tomou, estendido, um corpo morto: o teu, meu filho! Foi nessa mesa que passaste a tua derradeira noite em nossa companhia, em tua casa, casa de teus pais e de teus irmãos.
Foi nesse campo de trabalho, transformado em essa, que ficaste exposto aos nossos olhos toda uma noite, a última e definitiva, noite subterrânea, impermeável à luz.
Ficaste onde ficam meus livros, na banca em que exerço o meu labor ingrato à qual, em pequenino, vinhas engatinhando e distraias-me com os teus tartareios infantis, que eram como botões das palavras que, pouco a pouco, se te desabrochavam na boca.
Foi nessa mesa que aprendeste a ler com tua mãe e garranchastes, de mão adunca. os primeiros gatafunhos.
E, quanta vez, à noite, enquanto eu trabalhava e ela sorria, contemplando-te de longe, escondida na sombra, tu, com os teus soldadinhos de chumbo, improvisavas batalhas, e o meu tinteiro era fortaleza e eram os meus livros e mais objetos espalhados, baluartes pugnacíssimos contra os quais impelias os teus batalhões de estanho.
E eu, suspendendo o que fazia, entrava no teu brinquedo, mais pueril do que tu, porque tomava a sério os combates e, a golpes de caneta ou espátula, arrasava as hostes que sitiavam um dicionário ou que procuravam escalar o porta-cartas.
E como terminavam as guerras das tuas conquistas? Com os soldados espalhados e os tachos da cabeleira do general no campo da batalha, porque a cabecinha linda, que tantos planos terríveis engendrara, não resistia ao sono e, inclinando-se sobre os bracinhos enrodilhados, ali ficava como a dos anjos rafaelitas, até que a ama, tomando ao colo o herói, que eras tu, deixava a mesa sem o seu gracioso ornato.
(continua...)
Baixar texto completo (.txt)COELHO NETO, Henrique Maximiano. Mano. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=7528 . Acesso em: 7 abr. 2026.