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#Romances#Literatura Brasileira

A Conquista

Por Coelho Neto (1890)

— Olha mamãe! — disse ela assustada e Ruy Vaz precipitou-se, escada abaixo, o caminho do Cranium. Mas da cena capital foi herói Toledo, o casmurro. Os companheiros haviam saído, era quase noite, ele estava só no mirante quando Vidinha, debruçada à janela, disse: — Que tristeza, meu Deus!

— Como? — inquiriu o misantropo.

— Que tem o senhor que anda tão triste?

— Nada, sou assim mesmo.

— Qual? Não creio: o senhor tem alguma coisa que não quer dizer à gente.

Paixão, com certeza...

— Eu? Não tenho tempo para essas coisas, Dona Vidinha. — Faço idéia...! Os mais sonsos são os piores.

Houve um silêncio e Toledo já não se lembrava de Vidinha quando ouviu:

— Boa noite!

Respondeu como em sobressalto:

— Boa noite, Dona Vidinha

E ela, em voz trêmula e surda, ajuntou:

— Sonhe comigo... e desapareceu. O anatomista ficou atordoado, assombrado como se, lá da altura, a lua, muda e branca, lhe houvesse perguntado pela família.

Foi num dia borrascoso de aguaceiro e vento, dia insípido de tédio, que Ruy Vaz contou, com requintes de vanglória, o seu encontro com a menina dando-se pelo preferido, mas Anselmo referiu o episódio da escada e Toledo narrou a cena teatral do mirante. Os três, pasmados, romperam a rir.

Toledo, porém, disse com lástima e sabedoria: "Que era uma doente..." Ruy Vaz declarou: que era um caso. A pequena atirava-se a todos para apanhar um, indiferentemente. Não havia amor, senão astúcia e interesse. Toledo entendia que o melhor era darem a perceber que a estimavam, sem intenção, para que se desvanecessem as idéias absurdas que ela afagava com prejuízo do futuro, porque estava talhada para ser a esposa fiel do amanuense. Mas Anselmo, com os olhos fuzilantes, protestou enérgico:

— Isso não! Pois a pequena presta-nos tão alto serviço intelectual e havemos de desprezá-la? Isso nunca! Vidinha é um excitante e um alvo. O coração precisa de um ponto de mira, meus amigos. Os marinheiros guiam-se pelas estrelas, os poetas não podem trabalhar sem um ideal qualquer. Vidinha presta-se magnificamente.

Toledo ponderou com gravidade:

— Tomem cuidado! Essa menina é um perigo.

— Qual perigo! E, sem darem atenção aos conselhos do macambúzio, Ruy Vaz e Anselmo continuaram a cultivar a flor de alambre dirigindo-lhe frases incandescentes e ela a mandar-lhes flores, anéis de cabelo, marcadores de livros e, quando saíam, avisada pela negrinha, subia em visita curiosa ao segundo andar, corria os quartos, arranjava as mesas e, uma noite, ao deitar-se, Anselmo descobriu debaixo do seu travesseiro um lenço perfumado a Kananga que a menina ali havia escondido, para atordoá-lo, sem dúvida. O estudante dormiu com o trapo apertado ao coração e teve sonhos deliciosos.

Ruy Vaz, ouvindo os estrondos e suspiros do companheiro, começava a recear quando um incidente providencial fez com que o estudante evitasse o abismo que o atraía com lenços perfumados e cantares langorosos à janela da sala de jantar.

CAPÍTULO IV

Anselmo, que havia concluído a opereta, obteve do Heller, graças à apresentação de Ruy Vaz, um domingo para a leitura. Com o manuscrito debaixo do braço, o coração em grande alvoroço à idéia de um ruidoso sucesso que, de golpe, lhe atirasse o nome para a glória, entrou no jardim do Sant'Ana.

O empresário teve uma grande e enfadada surpresa ao como se vê-lo se não contasse com aquele sacrifício, mas dissimulando, ofereceu-lhe um banco no tablado, pedindo um instante para dar certas ordens. Anselmo sentou-se orgulhoso, certo de que o Heller fora reunir a companhia para a audição dos três atos da sua opereta que tinha o misterioso título de A Profecia. Mas o empresário tornou, instantes depois, resignado e só, e, tomando um dos bancos, sentou-se, dizendo em voz aveludada e com um sorriso de mártir:

— Podemos começar. Anselmo, ainda esperançado, lançou um olhar comprido para o fundo do teatro, através da platéia deserta e lúgubre, mas o palco estava vazio e escuro, em arcabouço, com os bastidores encostados em pilhas, uma grande concha, rutilante de malacacheta, tirada por dois cisnes e uma velha árvore que, na mágica, então preferida do público, esgalhava-se dando passagem à fada Primavera, uma artista italiana, grossa de corpo que, todas as noites, era delirantemente aclamada por um grupo de admiradores. Não havia viva alma. Resolveu-se a principiar a leitura. Desenrolou o manuscrito e o Heller, vendo a primeira página, fez uma observação lisonjeira:

— Bela letra! — sua?

— Sim, senhor. O empresário, arregalando os olhos, acenou com a cabeça admirativamente. Em verdade a caligrafia era magnífica: o título dos atos em caracteres góticos, a descrição dos cenários e as rubricas em fino cursivo à tinta carmim, e toda a escrita uniforme, sem uma emenda, sem uma rasura, limpa e igual. Anselmo começou e, logo às primeiras frases, o Heller, abichornado pela temperatura tépida da hora sonolenta, cerrou os olhos. A cabeça ia-lhe descaindo lentamente; ele, porém, logo a afirmava, olhando quebrantado, com a mão à boca para esconder os bocejos.

(continua...)

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