Por Raul Pompéia (1880)
No seu acampamento, o chefe da quadrilha exultava de contentamento, vendo que os seus enviados não voltavam. Para ficar convencido do bom êxito da primeira parte da sua malvada empresa, resolveu deixar o ataque para a tarde.
Ao meio-dia reuniu os cinco pretos e, com a áspera secura que lhe era habitual e o tom feroz de que usava quando queria impor obediência, lhes disse:
— Cumpram cegamente o que eu mandar fazer.
E, dirigindo-se particularmente a um deles, acrescentou:
— José não te esqueças da minha pequenita.
O bandido não repetiu aos negros a promessa que lhe fizera relativamente aos lucros da operação que iam tentar, mas apenas algumas ameaças, e, seguido por eles, encaminhou-se para a habitação de Eustáquio.
Em caminho, aquele a cujos cuidados o chefe confiara a sua pequenita, com repugnante alegria, segredou aos companheiros:
— Até que afinal chegou o dia da vingança!
— De que nos vamos vingar, meu filho? perguntou-lhe um negro já velho.
O filho respondeu-lhe com um arregaçamento desdenhoso dos beiços.
Quando avistaram as paliçadas da habitação que buscavam, os malfeitores se ocultaram no mato e esperaram...
CAPÍTULO XIII
QUEM PERSEGUE. QUEM DEFENDE
A manhã estava triste. O sol empanado subia do nascente, clareando a paisagem com uns raios tímidos atirados de vez em quando por entre as nuvens que voavam, ora rasgadas em estreitas fitas, ora distendidas em amplos lençóis. Por sobre os píncaros arredondados das montanhas resvalavam massas de nevoeiro até se deixarem cair lento a lento pelas quebradas. Por toda a parte reinava o silêncio. Somente depois de longos intervalos ouvia-se o gemer da floresta açoutada por um golpe passageiro de vento, ou grito repetido de alguma ave perdida no mato.
Triste como a manhã, muda como a paisagem estava a morada de
Eustáquio. Por cima dela pairava alguma cousa de sinistro.
Em torno da habitação, Ruperto e os engajados permaneciam firmes nos seus postos. Os espanhóis disfarçados trocavam de tempos a tempos gestos suspeitos, que aos seus companheiros incautos passavam desapercebidos.
Na sala principal via-se o esposo de Branca. Dormitava sobre um sofá. As fadigas da véspera haviam-no acabrunhado. Ao seu lado via-se o padre Jorge. Recostado, com a cabeça pendida para trás, o sacerdote fitava um ponto do teto, onde via redemoinhando o turbilhão das sombras criadas pelo seu meditar. Na alcova do fundo achavam-se Branca e Rosalina. A jovem, debruçada sobre a cabeceira do berço do filhinho, contemplava com amor a criança adormecida, cujo bafejo tépido vinha-lhe até o rosto. Rosalina, com a cabeça descansada sobre o ombro de Branca, olhava distraidamente para as roseiras. Através da vidraça, os arbustos mostravam-lhe algumas belas flores, que um último chuveiro deixara aljofaradas de diamantinas gotas...
As horas corriam, cousa alguma, porém, indicava aproximação de inimigos...
Eustáquio foi o primeiro que se moveu. Ergueu-se do lugar que ocupava e aproximou-se de uma janela. Olhou por cima da paliçada para a montanha e depois, voltando-se para o padre Jorge, disse:
— Parece-me que os meus inimigos adivinharam que me preparei para recebê-los... Estão se demorando tanto... Teriam eles mudado de resolução?
O padre não deu resposta, mas, fazendo um movimento como quem é bruscamente despertado, endireitou-se e por sua vez falou:
— Eustáquio, nunca me disseste quem são os indivíduos que te perseguem há tanto tempo... Porventura não os conheces?
— É verdade... porque não os conhecia, agora porém... — Ouvi-me.
"Como bem vos lembrais, quando eu ainda era subdelegado, uma escrava trouxe ao meu conhecimento a notícia de um crime horroroso... aqueles assassinatos..."
O padre Jorge abaixou a cabeça mostrando que sabia a que fato se referira o amigo.
— Os criminosos eram sete negros, prosseguiu Eustáquio. Eu os prendi, porém os tratantes se evadiram.
"Então teve princípio uma cruel perseguição contra mim, e Branca, que pouco sabia das minhas ocupações de subdelegado, mostrou-se receosa de uma correria de índios. Eu, porém, lembrei-me logo dos negros evadidos; contudo, não acreditando que os quilombolas tivessem motivos para me odiar, embora eu houvesse usado de violência para prendê-los, participei dos receios de Branca. O tempo veio mostrar que eram infundadas as nossas apreensões, e ficamos crentes de que éramos perseguidos por algum desses velhacos que não amam muito a polícia zelosa.
"Estava eu, pois, quase convencido de que os negros fugidos não eram os meus perseguidores, quando, depois do assassinato de um dos policiais que me serviam, deparei com um cadáver que pareceu-me ser de um dos tais negros. As minhas primitivas suspeitas renasceram; mas, eu, incerto ainda, guardei-as comigo... Depois daqueles doas anos...
— Sim, completou o padre Jorge, daqueles dous anos de sossego.
— Os meus inimigos, prosseguiu o marido de Branca, se manifestaram de novo. Há menos de três semanas, Branca e Rosalina... e ante-ontem esta menina pela segunda vez...
— Eu sei...
(continua...)
Baixar texto completo (.txt)POMPÉIA, Raul. Uma tragédia no Amazonas. Rio de Janeiro: Typ. Cosmopolita, 1880. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=17442 . Acesso em: 6 abr. 2026.