Por Raul Pompéia (1882)
É uma pequena sala de quatro portas, uma em cada parede, das quais duas comunicam com o museu e a biblioteca do duque e as outras com o quarto de dormir e uma sala de espera, por onde se passa para as peças anteriores do edifício.
Tem um aspecto extravagante. As paredes são forradas de papel cor de borra de vinho, semeado de grandes desenhos da mesma cor, porém desmaiada, com uns traços de ouro a esmo. Sobre as portas desdobram-se espessos reposteiros da cor sombria do papel. Há pouca mobília: uma grande mesa de escritório pesada e firme sobre quatro bojudas pernas feitas a torno, uma cadeira de braços girando em parafuso sobre uma sólida tripeça, formada por três garras de leão em feixe, duas outras cadeiras comuns, um armário envidraçado e uma longa espreguiçadeira almofadada de peludos coxins com umas depressões marcadas pelo seu uso freqüente.
Sobre a mesa amontoam-se papéis de várias naturezas, jornais, livros; no meio, está uma escrivaninha de prata, com a coroa e iniciais do duque gravadas num medalhão, algumas canetas deitadas sobre ganchos de descanso e um lápis vermelho entre as canetas.
Em cima das pilhas de papel vê-se uma caveira denegrida pela idade; não tem a maxila inferior e crava a dentuça proeminente no papel sobre que se acha, rindo-se com as cavernas da face como uma estátua irônica da morte.
No meio dos papéis da mesa há um pequeno folheto de capa amarela, de que se pode apenas ler metade do título:
... OS DIVINOS.
Pouco acima da mesa, há diversos papéis suspensos por uma mãozinha dourada: o primeiro que aparece tem este curioso e terrível dístico:
A DESMORALIZAR
Seguido de uma lista de nomes. Inimigos do duque.
Em um dos ângulos do gabinete há dois ganchos. De um deles pende uma enorme coleção de jornais de todos os títulos; do outro ainda uma coleção de jornais, mas ilustrados com caricaturas. O mais visível apresenta a crítica dos episódios de uma viagem, em que o viajante cai muitas vezes da cavalgadura.
A luz do dia entra maciamente pelo vidro fosco de uma clarabóia no meio do teto, e abre um cone de branda claridade por cima de tudo, desde a caveira tétrica, que lembra o pulvis es, até a preguiçosa com os seus coxins deliciosos amassados, como parece em convulsões de gozo.
Fora do alcance da luz mais forte, clareados, apenas pelos reflexos que sobem do chão e pela difusão do dia, circula pelas paredes do gabinete uma fileira de retratos, entre os quais se vê um todo envolvido em crepe finíssimo, através do qual se divisam as lindíssimas feições de uma distinta moça.
Neste aposento, estava constantemente o duque, quando se achava em Santo Cristo.
Gostava do seu gabinete. Ali ficava à vontade. Ninguém penetrava naquele recinto senão o seu particular e um único criado. A própria duquesa havia muitos anos que não visitava o gabinete. Em compensação, algumas fidalgas da intimidade do duque, e consideradas por ele, conseguiam, de vez em quando, espiar o misterioso aposento...
Manuel de Pavia também ali aparecia freqüentemente.
Naquele gabinete, onde o grande duque ocultava os maiores dissabores e os seus prazeres medrosos, afogado em eterno crepúsculo, no meio do qual se passam idílios cheios de sorrisos e beijos, furores, cheios de imprecações e ameaças, ouviam-se muitas vezes diálogos interessantes travados entre o duque de Bragantina e o seu íntimo Manuel de Pavia.
Foi a uma destas entrevistas que compareceu Pavia, chamado pelo duque.
Pavia pediu licença por formalidade, à porta que dava para o museu, e foi entrando.
— Sabe para o que o chamei? — perguntou o duque com uma voz complacente.
— Suponho que sei, sr. duque...
— Deve saber... Lembra-se da sua promessa?
— Perfeitamente... Garanti que hoje começaria e de fato comecei.
— Conseguiu?
— As suas ordens são executadas sempre, sempre, apesar de tudo...
— Adiei a minha ida para Anatópolis, com o fim de vê-la hoje mesmo — disse o duque, sem olhar para Pavia.
— Ela estará em nossa casa para receber...
— Vou visitá-la à noite...
— Quando queira... As portas estão abertas para V. Exa. a qualquer hora...
Manuel de Pavia se tinha conservado de pé, a alguma distância do duque. O fidalgo falava sem virar-se. À última palavra de Pavia, fez girar a cadeira sobre o parafuso e voltou-se de frente para o íntimo.
Pavia, quando se dispunha a pedir licença para retirar-se, viu-o franzir a testa em rugas horizontais. O duque ia fazer alguma pergunta. Pavia esperou, prevendo alguma coisa grave.
O senhor de Bragantina, depois de um instante de reflexão, dirigiu-lhe um olhar atravessado e perguntou de modo irresistivelmente inquisitivo:
— Que história de roubo é essa que tanto barulho tem feito hoje nesta casa?...
— Da burra?
— Creio que não; ali não entra qualquer mão como numa gaveta e...
— Já sei... Não seria do armário, onde as jóias ficam às vezes?
— Naturalmente... Não tenho certeza, porque até a pouco estive em casa e, só quando vinha para aqui, me deram a notícia...
(continua...)
Baixar texto completo (.txt)POMPÉIA, Raul. As joias da coroa. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=17439 . Acesso em: 6 abr. 2026.