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#Sermões#Retórica

Sermão da Quarta-Feira de Cinza

Por Padre Antônio Vieira (1672)

Se eu dissera a Lutero e Calvino, que eram homens, claro está que haviam de entender que falava em sentido verdadeiro, porque ainda que foram dois monstros tão irracionais, eram compostos de alma e corpo. Mas se eu lhes dissera que eram duas serpentes venenosas, que eram dois lobos do rebanho de Cristo, que eram duas pestes do mundo e da Igreja, também haviam de entender que falava em sentido metafórico. Pois a mesma diferença vai do texto de Cristo a esses textos mal interpretados que eles alegam contra a verdade do Sacramento. Chama S. Paulo a Cristo pedra, porque assim como da pedra do deserto, de que ele falava, brotou a fonte perene de que bebia o povo de Deus, assim de Cristo manaram, e manam as fontes da graça, de que se alimenta o povo cristão. Chama o Batista a Cristo cordeiro, porque assim como na lei antiga se sacrificavam cordeiros para aplacar a Deus ofendido, assim Cristo, figurado neles, se sacrificou na cruz pelos pecados do mundo. E chama-se finalmente o mesmo Cristo vide, porque assim como a vara cortada ou separada da vide não pode dar fruto, assim os que se separam de Cristo e de sua Igreja, como os hereges, não podem fazer obra boa nem meritória. Deste modo é Cristo pedra, é cordeiro, é vide, mas não por realidade, senão por semelhança, e não em sentido verdadeiro, senão no metafórico. Porém, quando o mesmo Senhor fala de seu corpo e de seu sangue como o corpo e sangue de sua sagrada humanidade, era verdadeiro corpo e verdadeiro sangue, e não metafórico, também o sentido em que fala não pode ser metafórico, senão verdadeiro. E se não, respondam estes dois heresiarcas e digam-me se o corpo de Cristo que foi imolado na cruz e o sangue que foi derramado no Calvário era verdadeiro corpo e verdadeiro sangue de Cristo? Ambos eles confessam que sim, pois esse mesmo corpo, que foi imolado na cruz, éo que nos deu Cristo a comer na hóstia, e por isso disse: Hoc est corpus meum, quod pro vobis tradetur24. E esse mesmo sangue, que foi derramado no Cal vário, é o que nos deu a beber no cálix, e por isso disse: Hic est calix sanguinis mei, Qui pro vobis, effundentur25. Emudeça logo o herege, tape a boca ímpia e blasfema, e creia, e confesse com as mãos atadas a verdade daquele vere: Vere est cibus, vere est potus.

V

Quarto inimigo: o filósofo. O filósofo usa contra a Eucaristia argumentos tirados da natureza, e com a mesma natureza, mestra da fé, replica o autor. I objeção: as substâncias das coisas são imutáveis? Resposta: na nutrição do corpo humano os alimentos se transformam em substância de carne e sangue em menos de oito horas: o que a natureza faz devagar Deus faz depressa, e nisto é que está o milagre. II objeção: o todo é maior que a parte e a parte menor que o todo, logo Cristo não pode estar todo em uma parte da hóstia. Prova em contrário: o espelho quebrado. Comparação de Davi. III objeção: o entendimento julga pelos sentidos. Mas se a vista se engana nas obras da natureza, como o arco-íris, como não se enganar nas que são sobre a natureza?

(continua...)

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