Por Lima Barreto (1909)
O meu conhecimento com o doutor Ivã, se bem que recente, vinha sendo mantido e fortalecido com freqüentes encontros na Rua do Ouvidor. O meu provincianismo e acanhamento davam-se perfeitamente no tumulto que a anima. Nela, eu combinava as minhas necessidades de sociabilidade com o meu temperamento delicado e desconfiado, ao qual uma sociabilidade mais perfeita expunha a ofensas e a indelicadezas dolorosas. Depois, olhava, olhava a fartar: homens, moços e velhos, mulheres, senhoras. Quando acontecia encontrar o jornalista internacional, trocávamos cumprimentos com os chapéus, polidamente, atenciosamente. O gênio comunicativo do russo e o hábito de viajante de adquirir rapidamente relações e camaradas, foram vencendo aos poucos a minha reserva e a desconfiança. Convite como este, já me fora feito várias vezes e eu sempre recusara com delicadeza e dignidade. Entretanto no hotel, logo ao sentar-me, tive ímpetos de confessar os meus desgostos ao jornalista; o meu orgulho irracional fez-me calar...
Por esse tempo, passos fortes na escada vieram perturbar os meus pensamentos. Todos nos viramos para a porta de entrada. Pela sala adentro entrou aquele senhor de cartola e calças brancas que me disseram senador, num bonde de Barcas. Tirou a cartola com repugnância, enquanto o inspetor levantava-se respeitosamente.
— Vossa Excelência?!
— Boa tarde, Barros não está?
— Não, senhor. Saiu e só voltará para a audiência das seis horas.
— Que diabo! fez aborrecido o senador.
— Se Vossa Excelência quer alguma coisa urgente, pode procurá-lo agora no Pascoal... Ele me disse que ia para lá...
O alto dignitário da nação fez menção de retirar-se e o inspetor já se tinha sentado, quando subitamente o senador se voltou dizendo:
— Era coisa urgente... você bem me podia informar se...
Olhou ao redor cautelosamente e depois continuou a falar naturalmente:
— Você bem me podia dizer se o “Nove-Dedos” está preso aqui?
— Aqui, não, senhor senador. Até agora, só temos no xadrez um ébrio...
— Mas... disseram me que tinha feito um roubo... Esse rapaz é um doido!
— Onde foi, Excelência?
— No largo de São Francisco.
— Ahn! Não é aqui conosco; é com a nona.
— Obrigado.
Apertou a mão do rapaz cheio de agradecimento e saiu murmurando de modo que fosse ouvido por todos nós: Aquele doido só me leva a incomodar!
A sala da delegacia voltou novamente ao seu silêncio primitivo. Um soldado veio apresentar-se, trocando rápidas palavras com o inspetor. Um relógio próximo bateu quatro horas. Dos compartimentos do fundo, chegou um personagem ventrudo, meão de altura, de pernas curtas, furta-cor, tendo atravessado no peito um grilhão de ouro, donde pendia uma imensa medalha cravejada de brilhantes. Dirigiu-se ao inspetor:
— Raposo, vou sair: há alguma coisa?
— Nada, Capitão Viveiros.
— E o caso do Jenikalé? Já apareceu o tal “mulatinho”?
Não tenho pejo em confessar hoje que quando me ouvi tratado assim, as lágrimas me vieram aos olhos. Eu saíra do colégio, vivera sempre num ambiente artificial de consideração, de respeito, de atenções comigo; a minha sensibilidade, portanto, estava cultivada e tinha uma delicadeza extrema que se ajuntava ao meu orgulho de inteligente e estudioso, para me dar não sei que exaltada representação de mm mesmo, espécie de homem diferente do que era na realidade, ente superior e digno a quem um epíteto daqueles feria como uma bofetada. Hoje, agora, depois não sei de quantos pontapés destes e outros mais brutais, sou outro, insensível e cínico, mais forte talvez; aos meus olhos, porém, muito diminuído de mim próprio, do meu primitivo ideal, caído dos meus sonhos, sujo, imperfeito, deformado, mutilado e lodoso. Não sei a que me compare, não sei mesmo se poderia ter sido inteiriço até ao fim da vida; mas choro agora, choro hoje quando me lembro que uma palavra desprezível dessas não me torna a fazer chorar. Entretanto, isso tudo é uma questão de semântica: amanhã, dentro de um século, não terá mais significação injuriosa. Essa reflexão, porém, não me confortava naquele tempo, porque sentia na baixeza do tratamento todo o desconhecimento das minhas qualidades, o julgamento anterior da minha personalidade que não queriam ouvir, sentir e examinar. O que mais me feriu, foi que ele partisse de um funcionário, de um representante do governo, da administração que devia ter tão perfeitamente, como eu, a consciência jurídica dos meus direitos ao Brasil e como tal merecia dele um tratamento respeitoso.
As lágrimas secaram-se-me nos olhos, antes que o inspetor me apresentasse ao Escrivão Viveiros. Olhou-me com olhar de entendido. Creio que sondava as minhas algibeiras detidamente, antes de me fazer esta pergunta:
— O senhor é o moço do Hotel Jenikalé?
— Sou um deles.
— Qual é a sua profissão?
— Estudante.
Houve algum espanto na sua fisionomia deslavada. Conteve-se e continuou-me a perguntar:
— Tem documentos?
— Alguns.
— Ah! Pode-se justificar perfeitamente.
— Como?
— Com testemunhas e documentos.
— Se não conheço ninguém aqui no Rio...
— Eu lhe arranjo.
— Aceito e obrigado.
(continua...)
Baixar texto completo (.txt)BARRETO, Lima. Recordações do Escrivão Isaías Caminha. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=1865 . Acesso em: 8 maio 2026.