Por Coelho Neto (1898)
O grosso da companha repousava. Áquella hora, no castello da popa, junto dos retábulos illuminados, dois homens conversavam baixinho como se receiassem que a brilsa lhes levasse as palavras e o assumpto de que tratavam, com empenhado interesse, era essa India absconsa.
Um d'elles, que era o piloto indiano dizia :
— N'este tempo de inverno raros são os navios que se arriscam a fazer a travessia, com os ventos antipathicos que fazem crescer o marouço. Os que se dão ao commercio da especiaria aguardam os mezes do estio e, com as aguas pacificas com os ventos de monção, facilmente vencem o grande golfo onde não ha um porto a que se arribe em caso de tormenta.
O Gama, que era o interlocutor do indio, não respondeu estendendo a vista perscrutadora pelo céu e pelo mar, demorando-a depois n'um dos retábulos onde a meiga Senhora de Belém sorria com Jesus nos braços. Naquella oração muda o nauta poz toda a sua grande fé e, reconfortado, certo de que, contra elle que alli ia protegido pela Rainha dos céus e Clara Estrella dos mares nada poderiam as ondas aborrascadas nem os ventos marulheiros, quedou-se emquanto o piloto, consultando os astros, ia traçando o rumo n'aquelle mudo e vastissimo páramo de céus d’aguas.
E navegavam sem risco demorando-se, ás vezes, em curtas calmarias, ouvindo o embate da vaga e o rangido monotono das vergas, com as velas colhidas mas, ao primeiro sopro, desferravam-nas, e, aproveitando-o, seguiam scindindo aquelle mar virgem que a maruja olhava supersticiosamente e com medo esperando, a todo o instante, uma surpreza fatal.
Foi para a tarde de um dia azul e frio que os ventos desabridos começaram a uivar com furia — o mar, encarneirado, picavase a mais e mais e uma nuvem, densa e negra, levantando-se no horizonte e enchendo-se foi assoalhando o espaço impellida violentamente pelo vendaval.
A maruja, com o coração minguado, corria á faina manobrando com a pressa que urgia pois o piloto annunciara tormenta. Já o Gama, como que revestindo uma armadura, retomara a sua severidade e os grumetes, lançando olhares timidos ao alto, balbuciavaín rezas procurando as suas nominas debaixo das grossas camisas, junto ao coração.
O céu escurecia como forrado de chumbo e o mar grosso, espumoso, ampollava-se rugindo. A nau de Paulo da Gama que ia á frente arfava e a proa, espadanando as aguas que se oppunham á sua marcha ligeira, subia e mergulhava; e a de Nicoláo Coelho, abalroada pelos vagalhões, bailava como um batel ligeiro, sobre aquellas fortíssimas aguas encrespadas.
Subitamente grossos pingos de chuva bateram no convez como balas, esparrimando-se. Corriam os homens ás aberturas fechando escotilhas e canhoneiras, recolhiam as roupas que arejavam nas driças, cobriam a artilheria com as capas breadas e, os mais devotos, lembrando-se da primeira tormenta que haviam soffrido, cuidavam de segurar fortemente os retabulos para que o mar não os ultrajasse.
Longinquos e profundos trovões rolavam e, de espaço a espaço, o fogo do céu zebrava as nuvens com estrepito, perdendo-se no mar; o vento esfriava esfusiando e a chuva que caío, a principio, com a ameaça de um diluvio, estiou como se as aguas se fossem ajuntando para um assalto decisivo ás naus que iam desabaladamente pelo oceano com a precipitação de perseguidas que fugissem.
Negro, não mais plumbeo, o céu como nue abaixava abafando e as nuvens pejadas passavam tão perto que, a um salto dos navios, o tope dos mastros parecia poder tocal-as.
Se o espectaculo era medonho maior era o panico da maruja que n'elle não via um phenomeno da natureza mas o annuncio de um assombro tragico no qual entrava, como protagonista, o mysterio maligno.
Eram as phalanges infernaes que alli se iam encontrar n'um sinistro e pávido sabbat e, cada uma daquellas vagas orgulhosas, parecia rolar cavalgada por um tritão de horrivel catadura e odio inexoravel ; cada uma daquellas nuvens que lá por cima navegavam em breve, desventradas, despejariam legiões satanicas e todo o largo oceano, transformado n'um inferno que os relampagos já começavam a accender, atroava —Não era a voz profunda da vaga e do vento, eram o bramido bravio e os sibillantes guinchos das cohortes abrepticias, era o estrupido das patas dos capros nas aguas, eram as cornadas dos basiliscos nos penedos, eram os estalos das alas eneas da ave Phenix, eram os uivos sensuaes das sereias e mais o lancinante guaiar das almas penitentes que soffriam, desde tempos immemoriaes, nos abysmos, vindo á tona com as tempestades, acossadas pelos demos glaucos.
Alguns juravam ter entrevisto egypans disformes esvoaçando acima dos mastros outros ficavam com os dedos hirtos apontando o mar porque diziam ter avistado horridas figuras, nadando, com os membrudos corpos hispidos de cerdas, com barbatanas em vez de braços, dentes enormes, recurvados e um olho unico, redondo, enorme no meio da fronte, reluzindo como um fogareu.
(continua...)
Baixar texto completo (.txt)COELHO NETO, Henrique. A descoberta da Índia. Rio de Janeiro: Laemmert, 1898. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=43340 . Acesso em: 30 abr. 2026.