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#Romances#Literatura Brasileira

Numa e a Ninfa

Por Lima Barreto (1911)

Se uma viúva, tem que casar a filha e meios não lhe sobram, só um recurso há: acertar no “bicho”, na dezena e centena, com o auxílio do jornal bem informado. Os redatores desses jornais vivem assediados de cartas, pedindo palpites nas dezenas e centenas; e, nestas cartas, os missivistas, em geral do sexo feminino, confessam as suas misérias e necessidades, mais íntimas, segredos do coração.

O primeiro cuidado da mulher de Lucrécio e da irmã era comprar o jornal e, muitas vezes, sem dinheiro para jogar, compravam por prazer e devoção.

A mulher de Lucrécio, Ângela, era mulata como ele, mas franzina, um pouco mais clara, feia, avelhantada precocemente e docemente triste; a irmã era forte, mas pesada de corpo, um rosto curto e nariz grosso e uns olhos empapuçados. Era casada, mas do marido não tinha notícias e perdera os filhos em pequena idade.

Lucrécio, depois de banhar-se, pediu à mulher que lhe desse de almoçar; queria sair cedo.

— Já está pronto o que há — disse ela.

Ele acabou de vestir-se e sentou-se logo à mesa do almoço. O filho voltou com o jornal; e, um instante, Lucrécio olhou a criança com o olhar mais preocupado.

— A benção, papai?

— Deus te abençoe, meu filho.

O pai viu ainda os olhos luminosos da criança, carbunculando nas escleróticas muito brancas e pensou de si para si: que vai ser dele? Lembrou-se de dar-lhe dinheiro para os sapatos com que fosse à escola, mas estava atrasado na casa. A desordem de sua vida; antigamente... Que vai ser dele? Bem, arranjaria um emprego, fa-lo-ia estudar, e havia de tomar caminho. Que vai ser dele? E logo lhe veio o ceticismo desesperado dos imprevidentes, dos apaixonados e dos que erraram; há de ser, como os outros, como eu e muita gente. É sina!

A mulher foi pondo os pratos na mesa e Lucrécio se foi preparando para comer.

— Não fizeste arroz, Ângela?

— Não. Para quê?

— Quero arroz — fez com azedume Lucrécio.

Havia entre os dois essa necessidade de rixa e parece que cada um deles queria por esse meio manifestar ao outro as desilusões que se trouxeram reciprocamente. Às vezes, era o marido a provocá-la; em outras, a mulher; entretanto eles viviam unidos, trocando heróicas dedicações.

— Se você quer — disse-lhe a mulher — é mandar buscar. — Por que você não mandou?

A irmã continuava a lavar no tanque e Lúcio, o filho de Barba-de-Bode, assistia encolhido a um canto a discussão entre os pais. Tinha as mãos entre as pernas e olhava um e outro quase ao mesmo tempo.

— Não mandei... Por que você não se levanta mais cedo e diz o que quer? Não adivinho!

À vista da insistência da mulher, Lucrécio fez-se calmo, pensou um pouco e disse ao filho:

— Lúcio, vai lá à venda e diz ao “seu” Antunes que mande um quilo de arroz. Ângela — ajuntou — dá o caderno.

O pequeno ficou enleado e, embora se houvesse erguido, não moveu o pé; a mulher fez que não ouvia.

Barba-de-Bode insistiu com fúria:

— Você não vai rapaz? Não está ouvindo?

A mãe interveio:

— Sente-se aí!

— Como? — fez o pai.

— Então você não sabe que o Antunes não nos fia mais?

— Por quê?

— Ora, por quê? Porque você não lhe paga e não estou para o pequeno estar ouvindo desaforos!

Lucrécio ergue-se, com os olhos fora das órbitas, rilhando os dentes e expectorou:

— Aquele... Ele me paga!

E dirigiu-se para o corredor; a mulher interveio:

— Que vai você fazer, Lucrécio? Você deve... — Deixe-me! — disse ele.

A mulher insistiu:

— Não vá lá... Você tem um filho, homem de Deus!

Desvencilhou-se da mulher; ela, porém, ainda o deteve na sala de visitas, quase chorando.

— Não vá lá, Lucrécio! Não vá!

— Deixe-me! Deixe-me! Vocês não sabem o que é ser mulato! Ora bolas!

Por aí a porta do quarto que dava para a sala de visitas foi aberta e apareceu o hóspede:

— Que é isso, Lucrécio?

— Não é nada, doutor. Não é nada!

Sentou-se a uma cadeira, pôs-se um instante com a cabeça inclinada segura entre as mãos que se apoiavam nos joelhos; e, ao fim de algum tempo, perguntou à mulher que estava de pé em frente dele, braços cruzados:

— Quantos meses devemos de casa? — Três.

Pediu a conta da venda, considerou bem e disse para o filho, tirando o dinheiro do bolso:

— Vá pagar esse judeu, Lúcio! Doutor — fez para o hóspede, logo em seguida — vamos almoçar.

O doutor Gregory Petrovich Bogoloff era russo e tinha vindo para o Brasil como imigrante. Lucrécio conhecera-o na rua, num botequim; bebera com ele e, sabedor de que não tinha pouso, cedera-lhe um dos dois quartos de sua casa. Nesse tempo, o russo andava doente e tinha abandonado o núcleo colonial onde se estabelecera.

Com as melhores disposições para o trabalho honesto, imigrou, foi para uma colônia, derrubou o mato do lote que lhe deram, construiu uma palhoça; e, aos poucos, uma casa de madeira ao jeito das “isbas” russas.

A colônia era ocupada por famílias russas e polacas, e enquanto os seus trabalhos de instalação não se acabaram, Bogoloff não travou relações valiosas.

(continua...)

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