Por Coelho Neto (1924)
E o corpo juvenil imobilizou-se de todo, adormeceu sereno e fechou-se sobre ele a vida como se unem as águas sobre o náufrago que afunda.
O pranto desatou-se em volta.
Ela só não teve lágrimas: estava como árido deserto, ardendo em sede, na sua infinita e estéril desventura.
A dor imensa que me enchia todo o coração não achava passagem bastante para expandir-se, salvo se o rebentasse.
E assim, enclausurada, mantinha-a naquela aparência de impassibilidade pétrea, igual a que estatelou Maria junto à cruz.
E, todas as noites, é certo reproduzir-se a cena lúgubre. Eu já a espero e mal apago a lâmpada à minha cabeceira, preparo-me para o triste transe que se renova na escuridão, dentro dum halo feral, que outra coisa não e senão saudade, luz que alumia os mortos.
INSTANTE ETERNO
Através dos minutos como em poeira de entrada, os dias giram velozes na vertigem do Tempo. Dealba, fulge o sol; empalidece a tarde; cinza-se o crepúsculo e a noite obumbra-se. Treva, de todo negra ou cravejada de astros.
Eis, de novo. a manhã clara. Sob o dia, reluma; logo, porém. começa a declinar e enubla-se. Anoitece.
E não cessa o movimento: dias sobre noites, noites sobre dias.
Aquele instante, porém, subsiste eterno, o mesmo em que para mim, encerrou-se o ciclo da ventura.
Dias e noite são raios da roda que não pára; o lúgubre momento é fixo, como o eixo em volta do qual o Tempo célere circuita.
Anos que eu viva, séculos que vivesse, ainda que, por desdita, me tornasse eterno, toda a minha existência os meus dias, anos, séculos infindos haviam de girar em torno do minuto trágico em que o vi tombar da juventude no túmulo, como flor talada em pleno viço que caísse num lago e, ferindo as águas nelas abrisse círculos progressivos, até os extremos das margens. Assim também chegará até o fim da minha vida a lembrança do instante em que o perdi de mim em torno do qual os dias passam, passam os meses, hão de passar os anos sem que eu os sinta, porque todo me concentro no momento em que ele caiu para o sempre, eixo de onde partem, abrindo-se infinitamente e, cada vez maiores, as saudades no meu coração, como as enciclias se frisam e dilatam na água ferida em um ponto, pela flor decídua.
NA JAULA
Sentem-na os míseros leões cativos; sentem-na nos eflúvios; sentem-na no aroma que lhes chega com a aragem; sentem-na no cheiro cálido da terra adusta; sentem-na, a era da explosão da seiva, era em que se enfeita e alegra a selva. Sentem-na e fremem de nostalgia. A ânsia de rever os sítios florestais e as dunas do deserto torna-os ferozes. Então, irritados, levantam-se, de ímpeto, na jaula, põem-se a rondá-la iterativamente, chegam aos varões, tentam mordê-los, grifam-nos a unhadas e, não os podendo quebrar, arfam aos rugidos surdos. Como a esperança não os abandona deitam-se junto aos ferros inflexíveis e ali ficam, de olhos fitos no vago, o olfato esperto, arejando nas auras a olência do que não podem alcançar, do que lhes foi tomado para o sempre.
Vêem o que olham? Não! vêem o que sentem.
E o que sentem eles, os míseros leões? Sentem o que lhes acorda na memória - a brenha verde: espessa e sombria aqui; aberta em clareira além, com os voluteios cristalinos da água, os antros obscuros onde branqueia, esparsa, a ossamenta das presas, sentem os companheiros livres: uns, deitados sob ramarias, outros à espreita, nos juncais, à margem dos rios largos; ainda outros, resupinos, brincando com os graciosos cachorrinhos.
E colham tristes, alongam infinitamente o olhar querendo ver além do seu, além da linha do horizonte a selva, as dunas, o que perderam no jamais.
Como alcançá-lo? Como sair daquela prisão alerta em grades que ainda lhes tornam mais triste o cativeiro com a ironia de lhes deixarem ver a liberdade?
Fora melhor, menos cruel, sem dúvida, prenderem-nos em ergástulo, onde não chegasse fisga de sol, onde não penetrasse o acre perfume de silvedo: ergástulo profundo, bem negro de escuridade opaca como a da cegueira; silêncios como a surdez, de onde se não vissem aspectos, nem chegasse rumor de vida e tudo se resolvesse em olvido.
Mas não! Presos em jaula, os leões olham e vêem, respiram o ar balsâmico, ouvem sussurros de árvores e aqueles mesmos ferros, por entre os quais avistam a vida, dela os separam inexoravelmente.
Míseros leões! E é no tempo em que florescem os bosques que o instinto se lhes aguça e mais os atormenta.
Assim, quando tudo é alegria e festa, na era de maior ventura para os livres, é que os leões cativos atroam as noites indo e vindo na jaula em fúria desesperada. Melhor seria que os sepultassem em covas onde remasse escuridão eterna.
A jaula estreita, em que me agito sem sossego, é a minha angústia, agravada a todo o instante por lembranças, agora ainda mais intensas pelo tempo que se vem aproximando, florindo as árvores e desabotoando em alegria os corações felizes.
Sinto-o presente, vejo-o através dos varões da minha jaula, como os leões vêem o deserto e a selva - recordando.
(continua...)
Baixar texto completo (.txt)COELHO NETO, Henrique Maximiano. Mano. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=7528 . Acesso em: 7 abr. 2026.