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#Romances#Literatura Brasileira

A Conquista

Por Coelho Neto (1890)

De tempos a tempos o Duarte mandava um garrafão de vinho e ia também bebê-lo. Os jantares tinham, então, a grandiosidade de banquetes, trocavam-se brindes. Lins ia ao mirante com um copo cheio e bebia ao astro noturno e à maravilha das constelações; nas noites taciturnas, sem lua, bebia a S. Sebastião, o padroeiro da cidade ou a alguma mulher formosa e, mesmo uma noite, como enchesse o copo oito vezes, bebeu aos seus credores.

O trabalho progredia. Ruy Vaz acumulava observações para um romance de análise, estudo sutil de mulher; Toledo estudava os ossos do crânio e Anselmo terminava uma opereta quando se declarou a epidemia do amor.

Vidinha, graciosa e bela, parecia ter esquecido o amanuense e arrancava do peito recravados suspiros andando pela casa triste, com o croché entre os dedos, penteada, engomada, de meias e, à noitinha, debruçada à janela da sala de jantar, à hora em que, do mirante, os rapazes contemplavam os astros, cantava com muito sentimento:

Quando eu morrer não chorem minha morte...

O Lins achava-a encantadora com aqueles ares melancólicos de Ariadne esquecida, falando de morte; e pensava em desposá-la.

É digna de um artista de raça. É mulher para ter um templo feito com alexandrinos imperecíveis. Mulher nervosa, mulher ardente... só mesmo para um artista como eu. Sinto-me capaz de a fazer feliz. E travavam-se duetos estranhos no escuro: Vidinha embaixo, debruçada à janela, a suspirar: Quando eu morrer não chorem minha morte...

e o poeta do mirante, com o comprido robe de chambre de rastos, a recitar Camões:

— Se me vem tanta glória só de olhar-te

É pena desigual deixar de ver-te; Se presumo com obras merecer-te

Grão pago de um engano é desejar-te...

Mas Vidinha, logo que ouvia o poeta, retirava-se atirando bem alto, para que ele ouvisse, uma frase de ferino desprezo:

— Diabo do capenga não se enxerga! Não era ele então o preferido? Quem seria pois? Anselmo? Ruy Vaz? O sombrio Toledo? Duarte? Mistério! Os rapazes interrogavam Leonor, davam-lhe gorjetas procurando subornar a negrinha para que denunciasse o segredo que trazia contristada a formosa morena. A negrinha entesourava as moedas e respondia sempre com inflexível teimosia: "Não sei... Não

sei..."

O amor fervia em todos os corações. Lins, desprezado, mas não desiludido, agarrava-se ao velho prolóquio: "Quem desdenha quer comprar..." e dava tratos à Musa escrevendo copiosas e alambicadas líricas nas quais cantava a criatura indiferente que o torturava. Uma manhã, à "hora de Diógenes", descia Anselmo para o Cranium, que era o sítio tenebroso do banheiro, com a toalha ao ombro, o castiçal e o sabonete quando, na escada, encontrou Vidinha. Trocaram um olhar afogueado e as faces da menina coloriram-se, indício infalível de que o coração se lhe havia sobressaltado.

— Bom dia, Vidinha.

— Bom dia, respondeu ela de olhos baixos, agarrada ao corrimão.

— Estás zangada comigo? — perguntou baixinho o estudante.

— Zangada com o senhor! Por quê? Hom'essa... Olharam-se e iam, talvez, sair os grandes segredos do coração da donzela quando uma voz estrondou no alto da escada:

— Passa pra cima, descarada! E o senhor fique sabendo que eu não quero cenas aqui em minha casa. Os senhores pensam uma coisa e ela é outra.

Vidinha, assomada, respondeu:

— Não me amole! — e enfarruscou, alisando o corrimão.

Anselmo, melindrado, repeliu a insinuação.

— Que pensa a senhora de mim?! Julga que eu estava aqui a dizer galanteios à sua filha? Está enganada. Eu perguntava simplesmente se a Gazeta já havia chegado. Não é verdade, Vidinha?

— É, sim.

— Eu sei! Os senhores são bons, mas a mim é que não embaçam. Eu bem sei como o diabo as arma. Anda pra cima, Vidinha.

— Não vou!

— Sem vergonha! Ficaram as duas discutindo e o estudante desceu indignado, mas convencido de que era o venturoso. Na manhã seguinte, porém, Ruy Vaz subia do Cranium quando encontrou a menina. Dona Ana estava à porta comprando verduras e sorte que o romancista pôde dilatar o encontro.

— Adeus, belezinha. Ia fazer-lhe uma carícia no rosto, mas Vidinha repeliu energicamente a mão atrevida.

— Eu não gosto de lambanças, sabe?

— Que é isto? Então é assim que se trata o queridinho?

— Queridinho quê, seu bobo!

— Ah! Não sou eu o queridinho? Então por que anda você mexer comigo?

— Mexendo com o senhor? Eu! O senhor está sonhando... — Ah! Estou sonhando? Pois sim.

A menina fez um momo e disse abandonadamente:

— Eu dos senhores só quero o descanso.

— Má! — atirou-lhe em face o romancista.

— Mau é o senhor.

— Eu? Por quê?

— Não sei... — Diga!

Ela encarou-o sorrindo e, com um meneio gracioso da cabeça, em voz expressiva e mole:

— O senhor é tolo! Nossa Senhora!... É melhor que tire fiapo do bigode, que até parece um cabelo branco.

Ruy Vaz apresentou a face, muito terno:

— Tira, meu anjo. Eu não vejo... E Vidinha, com um muxoxo, foi com dois dedos delicadamente, tirou o fiapo e mostrou-o ao romancista; e ele, trêmulo:

— Então eu sou mau?

— É, sim... Mas os tamancos de Dona Ana abalaram a casa.

(continua...)

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