Por Raul Pompéia (1880)
Quando os bandidos se dispersaram já o crepúsculo ia se mudando em noute.
Depois de engolirem alguma carne mal cozida e ervas quase cruas, enrolaram-se eles em capas e estenderam-se na relva úmida, deixando a postos duas sentinelas. Estas sentinelas eram dons negros, pai e filho, que lançaram fogo a um monte de lenha, algum tanto molhada pela chuva que caíra de dia, e começaram a prestar atenção aos ruídos da noite.
Um vento fresco sibilava através das árvores. Agitando a ramagem fazia cair uma infinidade de pingos d'água que a chuva depositara nas folhas e curvava as chamas que principiavam a abrasar o monte de lenha.
O negro mais velho aproximou-se do fogo e assentou-se. Meio aquecido, pôs-se a dormitar, ao passo que o filho continuava a escutar o barulho da viração noturna.
Passadas duas ou três horas, ouviu este um rumor interrompido... uniforme, como se fora o caminhar receoso de alguma pessoa sobre as folhas molhadas.
Por um momento a sentinela lembrou-se do desconhecido que costumava espiar o acampamento. O barulho, porém, cessou e o negro, nada mais percebendo, acreditou ter ouvido apenas os passos de alguma fera, que a fogueira acabava de afugentar, e esqueceu-se do rumor para se divertir com o cabecear do companheiro que dormia assentado...
Já se avizinhavam as primeiras horas da manhã quando o negro mais moço resolveu acordar seu pai. Seguiu-se então a cena que Eustáquio e os seus homens assistiram do alto da castanheira que nessa ocasião ocupavam.
Como narramos em um dos precedentes capítulos, o estalido da espingarda de um dos paraenses denunciou a presença dos exploradores no acampamento dos bandidos, cujo chefe foi despertado pelo grito da sentinela. Como também ficou narrado, o chefe ordenou que fossem examinadas as circunvizinhanças da clareira e o alto do arvoredo.
Iam os dous negros trepando pelo tronco de uma árvore, mas desceram logo e se precipitaram na clareira, gritando:
— O espião! o espião! Vai fugindo por ali!
Estendiam a mão na direção do povoado de S. João do Príncipe. Tinham ouvido os passos dos exploradores que fugiam.
— Hoje temo-lo seguro! exclamou o chefe.
Em um instante ergueram-se todos os malfeitores, acenderam alguns fachos e com eles lançaram-se na pista do espião assinalado pelas sentinelas, indo a frente o chefe. Conquanto a essa hora a lua em minguante estivesse ainda muito acima do horizonte nenhuma claridade havia na floresta que não fosse a dos últimos tições da fogueira. Logo que as balsas a encobriram, apenas os fachos dos bandidos deixaram-lhes ver o caminho.
A perseguição não durou muito tempo. O chefe conheceu que o suposto espião ia escapar-lhe mais uma vez, refugiando-se na povoação.
— Voltemos, disse ele.
E a quadrilha voltou para o acampamento.
Os quatro espanhóis que estavam incumbidos de oferecer serviços ao padre Jorge receberam do chefe as últimas instruções e, tomando ferramentas de lavoura, partiram apressadamente para o povoado...
Um luar fraco insinuava-se por entre a habitação de S. João do Príncipe e cobria de lívidas tintas o chão das vielas. Os bandidos transpuseram algumas habitações e pararam.
— Ouço vozes, disse então um deles.
— Há gente no largo, afirmou outro. — Precaução! disse um terceiro.
E prosseguiu, abafando a voz, como haviam feito os seus companheiros:
— Passemos adiante como pacíficos lavradores, que se levantaram cedo e vão ao campo.
Os malfeitores continuaram a atravessar o povoado e chegaram ao largo. Aí viram várias pessoas que caminhavam no mesmo sentido que eles.
No meio delas estava o padre Jorge, que eles conheciam. Os espanhóis o cumprimentaram. Em seguida, reconhecendo Eustáquio no meio do grupo, saudaram-no da mesma forma.
Quando iam sair pelo lado oposto da povoação, o padre Jorge os chamou e disse-lhes:
— Meus amigos, bem vejo que sois homens do campo, mas creio que apesar disso sabeis descarregar uma espingarda. Temos necessidade de companheiros valentes para repelir alguns salteadores. Quereis unir-vos a nós?
Os malfeitores disfarçados ficaram mudos e indecisos.
O amigo de Eustáquio viu-os se olharem entre si.
O acaso, tantas vezes favorável aos malvados, vinha de tal modo simplificarlhes a missão que eles estavam estupefactos.
— Se é por medo que hesitais, disse o padre Jorge, nada...
Não senhor, interrompeu com vivacidade um dos bandidos, que conheceu que deviam aproveitar o ensejo. Não hesitamos! Ao contrário, aceitamos com prazer a vossa proposta, pois estamos certos de que a remuneração...
— Será generosa, terminou o padre Jorge.
Estas palavras e um rápido ajuste fecharam negócio e os bandidos acompanharam hipocritamente aqueles que em breve deviam ver-lhes as verdadeiras fisionomias.
O padre Jorge havia reparado no sotaque da voz do indivíduo com quem tratara o engajamento; todavia não teve desconfianças. No povoado às vezes apareciam estrangeiros e muitos deles até se demoravam, tomando parte nos trabalhos de extração da borracha que iam depois vender no Pará.
(continua...)
Baixar texto completo (.txt)POMPÉIA, Raul. Uma tragédia no Amazonas. Rio de Janeiro: Typ. Cosmopolita, 1880. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=17442 . Acesso em: 6 abr. 2026.