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#Contos#Literatura Brasileira

As joias da Coroa

Por Raul Pompéia (1882)

Conceição reparou que nunca estivera tão alegre a nora de Januário. Orgulhava-se generosamente de ter causado tanto prazer.

— Já não chora mais? — perguntou, sorrindo, à doente.

— Agora estou ficando boa... — respondeu Emília, que, depois do abraço, ficara segurando a mão da moça.

Conceição deu uma risadinha graciosa e acariciadora:

— Ah! Está ficando boa com o meu abraço?...

— Foi um santo remédio! — disse sorrindo a doente.

Na verdade era sensível o bem que aquela expansão de amizade fizera a Emília. A voz tornou-se-lhe mais forte e mais clara, um fortalecimento geral percorreu-lhe os músculos.

Quando a mulher de Januário entrou com o caldo no quarto, achou Emília sentada na cama.

— Já está boa, Dindinha! — gritou-lhe Conceição.

— Sim, senhora! Isto sim! — disse a velha com um carinho fingido. — Beba este caldo e saia a passear, que daqui a pouco está boazinha que nem eu...

Emília tomou o caldo e, meia hora depois, estava fora da cama, a andar pela casa, um pouco fraca ainda, porém, sentindo-se mais disposta.

Todos julgaram na boa e Emília mesmo sentiu-se sem a opressão do peito, que tanto a atormentara durante a noite. Tirou da cama o filho e foi à cozinha ajudar a velha sogra, que, por uma grande generosidade, tomara a si a parte mais pesada do serviço daquele dia.

Não fora só Emília que havia passado mal a noite. Januário apenas pôde conciliar o sono pela madrugada. Levara a pensar na agressão inesperada da nora.

Lembrou-se das palavras fatídicas de Manuel de Pavia, quando dissera que tinha medo das mulheres tristes. Depois começou a esgravatar nos recantos do seu velho cérebro uma razão para o procedimento da nora.

De fato. Emília não mostrava grande amor à Conceição. Ao menos ele nunca a vira fazer-lhe agrados... Emília não gostava que Conceição a chamasse de mãe, e, afinal de contas, a rapariga não passava de uma enjeitada, trazida para casa pela generosidade de seu filho...

A que vinha a raiva daquela jararaca triste, por um negócio que não lhe dizia respeito?...

Dava que pensar...

E Januário pensou toda a noite; e a madrugada veio surpreendê-lo a pensar ainda...

Por isso acordou-se muito tarde.

Quando abriu os olhos e lembrou-se do acontecimento da véspera, julgou que tivesse sido vítima de um pesadelo. Depois de levantar-se, vendo na gaveta o dinheiro recebido de Pavia certificou-se de que foram muito reais os trambolhões que lhe dera a nora.

Ao sair de sua alcova mastigava nas desdentadas gengivas um plano de vingança: mandar incontinenti a rapariguinha à casa do Pavia...

— Hoje vosmecê levantou-se muito cedo, meu garoto — disse-lhe a mulher em tom de chacota. — São horas de almoço....

CAPÍTULO X

Entretanto no palácio, recolheram-se os duques aos seus aposentos...

Num espaçoso salão que abre as janelas para a escadaria do edifício ficaram o marquês d’Etu, o chefe de polícia, o dr. Jassey e todos os que haviam chegado com o fidalgo de Santo Cristo.

Ao retirar-se, o duque de Bragantina, com certa desatenção ostentosa, atirara-lhes uma única palavra:

— Esperem...

O marquês de d’Etu fez uma interessante careta de desgosto, como achando a pílula amarga.

O dr. Louro Trigueiro sentiu o rosto crescer de despeito e olhou com uma expressão idiota de enfiado para os que o cercavam. Aquela palavrinha magra, de entonação feminina, com um som desafinado de requinta, causou-lhe cólica. Torceuse o amor-próprio do chefe de polícia, torceu-se a avareza do príncipe dos cortiços.

— É assim que este homem trata os negócios graves... — murmurou insofridamente o dr. Trigueiro, dirigindo-se ao marquês.

— Que quer?! É poderoso!... — responde este, batendo o pé com impaciência.

O dr. Jassey e os outros adivinharam as frases dos despeitados e trocaram entre si uns sorrisos cruéis.

O marquês devorou-os com o olhar.

Muito tempo esperaram, reunidos, dizendo pequenas palavras, mascando, surdamente, impaciências. Quando acharam demais, dispersaram-se pelo salão e cada um foi para a sua janela contemplar o parque em falta de outra distração.

Os pássaros recreavam-se ao belo sol da manhã, pulando de galho em galho na ramagem dos pés de magnólia, dando gritos miúdos e batendo céleres as pequenas asas pardas; os beija-flores passavam como agulhas cintilantes, riscando no ar um trilho de faíscas coloridas, ou pairavam imóveis violando lubricamente o nectário das rosas.

E a gente da sala bocejava, menos o marquês, que se desesperava em silêncio, fungando significativamente, e o dr. Louro, que, descansando os cotovelos num peitoril, olhava abstrato, engolfado na estupidez da mais bovina resignação às agruras do seu cargo.

Entretanto, a chamado do sr. duque de Bragantina, um homem viera ao palácio pela entrada dos fundos. Barafustara familiarmente até os íntimos aposentos do duque e fora encontrá-lo no seu gabinete.

Merece especial descrição esse compartimento do palácio.

(continua...)

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