Por Euclides da Cunha (1902)
E lá não chegaria, certo, a correção dos poderes constituídos. O atentado era público. Conhecia-o, em Monte Santo, o principal representante do governo, e silenciara. Coonestara-o com a indiferença culposa Desse modo a consciência da impunidade, do mesmo passo fortalecida pelo anonimato da culpa e pela cumplicidade tácita dos únicos que podiam reprimi-la, amalgamou-se a todos os rancores acumulados, e arrojou, armada até aos dentes, em cima da mísera sociedade sertaneja, a multidão criminosa e paga para matar.
Canudos tinha muito apropriadamente, em roda, uma cercadura de montanhas. Era um parêntesis; era um hiato. Era um vácuo. Não existia. Transposto aquele cordão de serras, ninguém mais pecava.
Realizava-se um recuo prodigioso no tempo; um resvalar estonteador por alguns séculos abaixo.
Descidas as vertentes, em que se entalava aquela furna enorme, podia representar-se lá dentro, obscuramente, um drama sanguinolento da idade das cavernas. O cenário era sugestivo. Os atores, de um e de outro lado, negros, caboclos, brancos e amarelos, traziam, intacta, nas faces, a caracterização indelével e multiforme das raças — e só podiam unificar-se sobre a base comum dos instintos inferiores e maus.
A animalidade primitiva, lentamente expungida pela civilização, ressurgiu, inteiriça. Desforrava-se afinal. Encontrou nas mãos, ao invés do machado de diorito e do arpão de osso, a espada e a carabina. Mas a faca relembrava-lhe melhor o antigo punhal de sílex lascado. Vibrou-a. Nada tinha a temer. Nem mesmo o juízo remoto do futuro.
Mas que entre os deslumbramentos do futuro caia, implacável e revolta; sem altitude, porque a deprime o assunto; brutalmente violenta, porque é um grito de protesto; sombria, porque reflete uma nódoa — esta página sem brilhos...
CAPÍTULO III
TITÃS CONTRA MORIBUNDOS
O combate de 24 precipitara o desfecho. À compressão que se realizara ao norte, correspondeu, do mesmo modo vigoroso, outra, a 25, avançando do sul .O cerco constringia-se num apertão de tenaz. Entraram naquele dia em ação, descendo os pendores do Alto do Mário onde acampavam, num colo abrigado à retaguarda da Sete de Setembro, os dois batalhões do Pará e o 37.º de linha. E fizeram-no de moto próprio, alheios a qualquer ordem do comando geral.
Tinham motivos graves para aquele ato.
A derrocada de Canudos figurava-se-lhes iminente.
Da altura em que se abarracavam, no ângulo morto do boléu da vertente, examinavam-no a todo o instante; e viam arrochar-se embaixo a cintura do sítio; e ampliar-se, continuamente maior, a moldura lutuosa dos incêndios; e o povoado cada vez mais reduzido à grande praça deserta sempre, larga clareira onde por igual temiam penetrar os lutadores dos dois campos. Adiante, perto, estimulando-os, atroava o redente artilhado; embaixo, longe, crepitavam os tiroteios incessantes... e eles ali quedavam, inúteis, desdenhados pelas mesmas balas perdidas, que lhes ziniam por cima, muito altas, inofensivas.
De um momento para outro aquilo terminaria; e restar-lhes-ia a volta inglória — espadas virginalmente novas, bandeiras intactas sem o rendado precioso das batalhas. Porque o general-em-chefe não encobria o propósito de não precipitar os acontecimentos num dispêndio inútil de vidas, quando a rendição em poucos dias era inevitável. Este intento, expresso sem rodeios, sobre ser mais prático, era mais humano. Mas implicava o renome guerreiro por se fazer dos que não tinham ainda combatido . Desvairava-lhes a fama. Coagia-os ao constrangimento de receberem, grátis, as coroas antecipadamente bordadas nos Estados nativos pelas mães, pelas esposas ou pelas noivas e pelas irmãs saudosas. E não puderam conter-se.
Desceram ruidosamente as vertentes.
Travaram então um combate que foi uma surpresa, menos para os atacados que para o resto das linhas sitiantes. Desencadeara-se para os lados do Cambaio, secundado pela artilharia do coronel Olímpio da Silveira e, a breve trecho, cresceu com extraordinária intensidade.
Ao que se propalou depois, aqueles heróis impacientes, dirigidos pelos coronéis Sotero de Meneses e Firmino Rego, levavam o objetivo de tomar o arraial. Carregariam até ao rio. Transpô-lo-iam batendo-se sem parar, numa arrancada. Romperiam pela praça vazia. Enfiariam, a marche-marche, numa dispersão de cargas de baionetas, por aqueles becos fora. Varrê-los-iam. Pulariam os entulhos fumegantes, apisoando os matutos atônitos. E iriam tombar — numa explosão de aplausos — sobre a tranqueira do norte, entre as guarnições surpreendidas e pasmas ..
(continua...)
Baixar texto completo (.txt)CUNHA, Euclides da. Os Sertões. 1902. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=16626. Acesso em: 10 jun. 2026.