Por Padre Antônio Vieira (1672)
E se acaso algum herege se não deixar convencer destes exemplos, por serem do Testamento Velho (que alguns deles negaram, como os maniqueus), no Testamento Novo temos os mesmos, e ainda, se pode ver, mais claros. Nas bodas de Caná de Galiléia, quando o arquitriclino, ou regente da mesa, provou o vinho milagroso, diz o evangelista S. João que gostou a água feita vinho: Gustavit architriclinus aquam vinum factam (Jo. 2,9). Na manhã da ressurreição, quando as Marias entraram no sepulcro, diz o evangelista S. Marcos, que viram um mancebo vestido de branco assentado à parte direita: viderunt juvenem sedentam a dextris, coopertum stola candida (Mc. 16,5). E este mancebo, diz S. Mateus que era um anjo: Angelus enim Domini descendit de caelo, et revolvit lapidem, et sedebat super eum20. Nestes dois casos tem o herege ambos os seus reparos; o vinho milagroso, depois da conversão, era verdadeiro vinho; o anjo que viram as Marias vestido de branco, também era verdadeiro anjo. Pois se o vinho verdadeiramente e na substância era vinho, como lhe chama ainda água o evangelista S. João: Aquam vinum factam? E se o anjo verdadeiramente e na substância era anjo, como lhe chama homem o evangelista S. Marcos: Viderunt juvenem sedentem? Ambos falaram como evangelistas, e ambos com verdade e propriedade natural. S. João chamau água ao vinho, porque ainda que já não era água, senão vinho, tinha sido água: Aquam vinum factam. E S. Marcos chamau ao anjo homem, porque ainda que não era homem, senão anjo, na figura e no trajo parecia homem: Juvenem sedentem, coopertum stola candida. O mesmo acontece na hóstia consagrada, e por isso falou dela Cristo, como os seus evangelistas falaram do vinho milagroso e do anjo disfarçado. Assim como a substância da água se tinha convertido em substância de vinho, e contudo se chama água depois da conversão, não porque fosse ainda água, senão porque o tinha sido, assim o corpo de Cristo no Sacramento se chama pão, não porque seja pão, senão porque o foi. E assim como o anjo na substância era verdadeiro anjo, e contudo se chama homem, porque vinha disfarçado em trajos de homens e parecia homem, assim o corpo de Cristo, debaixo das espécies sacramentais, se chama pão, não porque seja pão, senão porque parece pão: Hic est panis.
Sim. Mas daqui mesmo insta e argumenta o herege, que assim como Cristo chamau pão à hóstia sem ser pão, assim lhe podia chamar seu corpo, sem ser seu corpo. Não podia, diz a razão, e daí mesmo o prova e convence admiravelmente. À hóstia pode-se chamar pão sem ser pão, porque foi pão, e parece pão; mas não se pode chamar corpo de Cristo sem ser corpo de Cristo, porque nem o foi, nem o parece. De um de três modos se pode chamar a hóstia corpo de Cristo: ou porque o é, ou porque o foi, ou porque o parece. Porque o parece, não, porque aquela hóstia, depois de consagrada, não parece corpo de Cristo. Porque o foi, não, porque aquela hóstia, antes de consagrada, não foi corpo de Cristo. Logo se se chama corpo de Cristo, é porque verdadeiramente o é, e porque não fica outro verdadeiro sentido em que as palavras de Cristo se possam verificar.
Contra-replica ainda o herege obstinadamente. Cristo na Escritura chama-se pedra, chama-se cordeiro, chama-se vide. Chama-se pedra, porque assim o disse S. Paulo: Bibebant de consequente eos petra, petra outem erat Christus21. Chama-se cordeiro, porque assim o disse S. João Batista: Ecce Agnus Dei, ecce qui tollit peccata mundi22. Chama-se vide, porque o mesmo Cristo o disse falando de si: Ego sum vitis, vos palmites23. E contudo, nem Cristo foi pedra, nem parece pedra, nem é pedra; nem foi cordeiro, nem parece cordeiro, nem é cordeiro; nem foi vide, nem parece vide, nem é vide; logo, ainda que o Sacramento se chame pão, porque foi pão e parece pão, bem se pode chamar corpo de Cristo sem ser Corpo de Cristo, assim como se chama pedra, cordeiro e vide, sem ser vide, cordeiro, nem pedra. Bendita seja, Senhor, a vossa sabedoria e providência, que contra toda a pertinácia e astúcia de tão obstinados inimigos de nossa fé, deixastes armada vossa Igreja, e defendida a verdade desse soberano mistério com uma só palavra: Vere. Entre o sentido verdadeiro e o metafórico há esta diferença: que o sentido metafórico significa somente semelhança; o verdadeiro significa realidade. E para tirar toda esta equivocação e qualquer outra dúvida, o mesmo instituidor do Sacramento, Cristo, declarou e repetiu uma e outra vez que o sentido em que falava, assim de seu corpo como de seu sangue, não era metafórico senão verdadeiro.
Verdadeiro na significação do corpo: Caro mea vere est cibus, e verdadeiro na significação do sangue: Et sanguis meus vere est potus.
(continua...)
Baixar texto completo (.txt)Fonte: VIEIRA, Padre Antônio. Sermão da Sexagésima. Disponível em: http://www.ep.com.br/livros_vest/sermoes.pdf . Acesso em: 13 ago. 2026.