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#Crônicas#Literatura Brasileira

A Descoberta da Índia

Por Coelho Neto (1898)

Ainda estiveram longo tempo conversando e ouvindo o rumor das festas que em terra celebravam, porque a praia coalhara-se de povo e, de todas as partes, partiam clamores. Despedindo-se foi-se o rei levado pelos negros que andavam nas aguas como se fossem o seu elemento e o batei fez-se vagarosamente ao largo accenando aos de terra e, quando viram os conductores do regio andor ganhar a praia enxuta os bombardeiros fizeram detonar os berços que levavam.

De volta ás naus, passando junto ao ancoradouro das fustas dos indios christãos, correram todos ás amuradas, outros foram trepando pelos cabos e as suas grandes barbas e os seus compridos cabellos esvoaçavam dando-lhes uma original feição que os portuguezes não podiam ver sem certo riso e, em signal de festa, foram tambem ás suas bombardas, que as tinham em canhoneiras, e despejaram vários tiros que foram correspondidos e, á maneira de saudação, firmando-se alguns nas abotocaduras, agarrados aos cabos, bradavam:

Christe ! Christe !

A' noite, havendo conseguido permissão do rei, os indios fizeram uma grande festa nos seus navios atirando com as bombardas e lançando foguetes tudo acompanhado de grande algazarra que isso, n'elles, era a mais expressiva demonstração de alegria. A noite convidava áquelle divertimento porque, sendo o tempo de lua cheia, todo o mar rebrilhava como um vasto estendal de prata e, em terra, onde ardiam fogos, as casas, muito brancas, appareciam illuminadas; mesmo nos montes afastados como se, até lá, houvesse chegado a alegria, flammejavam fogueiras.

A maruja, com tão maravilhoso espectaculo, poz-se em jocundo alvoroço a bordo bailando e cantando mas, como sempre acontece, onde vai a alegria sempre a tristeza apparece.

Um triste, posto solitariamente no cesto de gavea, discordava daquella alacridade, e, tanto maior era o prazer dos companheiros quanto mais se lhe augmentava a melancolia áquelle doce luar.

Iam-se-lhes os olhos arrasando e o coração batia aforçurado e só, na altura, balançado docemente, o marinheiro cantava baixinho uma canção triste e as lagrimas, uma a uma, pingavam dos seus olhos.

Os indios, ou porque fossem leaes e verdadeiros ou porque, por intrigantes, quizessem indispor os das naus com os melindanos, deram-lhes aviso de que se não deixassem arrastar pelos rogos do mouro, antes perfidos que amigos.

Isso ouvindo, porque já andavam suspeitosos, mais se acautelaram os portuguezes posto que não houvesse, até então, motivo para que mal julgassem aquella gente. Mas, com essas vozes e outras atoardas e porque já ia ganhando enfarte com a pressa que tinha de se fazer ao mar no rumo que almejava vendo, n'um domingo, chegar-se á nau uma zabra com um valido do rei o Gama reteve-o prisioneiro mandando recado ao mouro: que só o entregaria quando elle lhe enviai os pilotos que promettera.

Tanto que á terra chegou o portador de tão atrevida embaixada poz-se o rei em movimento e, pouco depois, apparecia um christão conhecedor dos mares que as naus deviam affrontar desbravando o caminho mysterioso.

Vendo o Gama o piloto e querendo experimental-o mandou que viesse um astrolabio, o indiano, porém, a quem não era extranho esse instrumento, não só não fez espanto como ainda, calmamente, foi desdobrando uma carta dos mares que deviam percorrer descrevendo, com segurança, todo o golfo extenso e o que n'elle havia té as chamadas terras do Malabar.

Convencido da sua sciencia e contente mas, não querendo partir sem deixar um signal da sua demora naquelle porto feliz e de tanta hospitalidade, obteve o Gama permissão do rei para implantar na terra um padrão que ficou chamado do Espirito Santo e, depois de nove dias de constantes festas, já cançado de ver escaramuças e trebelhos, ordenou que tivessem as velas promptas para o vento e ao roxo

entardecer, com lua foram-se as naus distanciando com deuses da terra e com o vozeiro dos indios que das suas fustas amigamente desejavam abonançados mares e propícios ventos. A maruja esteve debruçada ate que de todo se perdeu no mar a hospitaleira e aprazivel terra de Melinde, e, já em mar alto ao luar, os clerigos entoaram a oração da noite, partindo, de todas as naus, no silencio, o mesmo canto religioso.

A INDIA

I

Já se viam chegados junto á terra,

Que desejada já de tantos fora,

Que entre as correntes Indicas se encerra,

E o Ganges, que no seu terreno móra.

Ora sus, gente forte, que na guerra

Quereis levar a palma vencedora,

Já sois chegados, já tendes diante

A terra de riquezas abundante.

( CAMÕES — Os Lusiadas; canto VIL.)

Alongando-se as naus foi-se, a pouco e pouco, resumindo o movimento a bordo— apenas os homens de quarto caminhavam lentamente, de um para outro lado, detendo-se, por vezes, em extasiado silencio, contemplando a lua. Estrellas cadentes, como se fossem presas por um fio luminoso, voavam e morriam, e, no rolar macio da onda, espalhavam-se micantes ardentias.

(continua...)

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