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#Romances#Literatura Brasileira

Clara dos Anjos

Por Lima Barreto (1922)

Assim é que ia fazer; deu o título da poesia — "Persistência" — e começou naturalmente, como quem já soubera recitar com relativa perfeição, quando estava são. Recitando, olhava sempre para Cassi, que, calado, numa reserva de moço bem-comportado, ficara de pé, encostado ao vão da janela de frente. Marramaque atacou os versos, saltitando na sala:

Se às vezes contigo esbarro e grito, esperneio e berro,

que me traz de há muito zarro a paixão que aqui encerro, Tu foges. E a ti me agarro, cismando: (e nisto não erro)

Se eu tenho uma alma de barro, tu mostras que a tens de ferro.

E se nada mais espirro é porque, então, se não corro, a coisa já cheira a esturro.

Que queres? Eu próprio embirro com este amor por que morro,

mas é que sou muito burro.

O final causou uma franca hilaridade na assistência, e até Clara riuse a perder; mas ninguém perguntou quem era o autor; e, se lhe perguntassem, Marramaque não lhe sabia o nome. Era a poesia sem assinatura, num jornal antigo, gostara dela e a decorara.

O povo é avesso a guardar os nomes dos autores, mesmo os dos romances, folhetins que custam dias e dias de leitura. A obra é tudo, para o pequeno povo; o autor, nada.

Cassi, que, logo, antipatizara com Marramaque, percebeu que a coisa era com ele. Perceberia outro mais burro do que o gabado artista da modinha, tanto era a teimosia com que o velho aleijado o olhava. Cassi pensou, de si para si: "Este pobre-diabo me paga".

O que espantava, na ação de Marramaque, era a sua coragem. Ele, semialeijado, velho, pobre, lançava um solene desafio àquele valdevinos forte, são, habituado a rolos e rixas.

Cassi não se demorou mais por muito tempo, Pediu o chapéu, despediu-se dos donos da casa e da filha destes, fez um cumprimento em roda e, quando deu com o rosto de Marramaque, com os olhos estranhamente fixos nele, a boca semiaberta, o braço esquerdo fixado em ângulo reto, pela moléstia, arrastou-se, Parecia uma aparição... Deixara de ser o contínuo aleijado que ele antes tinha visto; era outra coisa, mais do que o simples Marramaque, que o espantava e o fazia tremer. Com a atitude desassombrada daquele velho aleijado em face dele e que havia adivinhado, não sabia ele como, os seus maus propósitos em relação à Clara, Cassi sentiu, apesar do seu quase congênito embotamento moral, que havia na vida, ou, por outra, nas relações entre os homens, um guia silencioso e secreto, que pesava os nossos atos e pedia, para darlhes apoio e encaminhar-nos para uma paz interior e um contentamento conosco mesmos, o emprego, em todas as nossas ações, do Justo, do Leal, do Verdadeiro e do Generoso; e esse guia — ele via agora com o caso de Marramaque — dava forças aos fracos, coragem aos tímidos e uma seráfica e íntima satisfação, quando cumpríamos o nosso dever com honra e dignidade. Esse guia era a Consciência.

Confusamente, ele pensou isso; mas, ao passar o terror, o pavor, que lhe causara o olhar fixo, vitrificado, sobrenatural do velho Marramaque; olhar que o fizera um instante voltar-se para dentro de si mesmo e examinar-se — tornou com pressa ao que era e, fazendo um desdenhoso — ora! —, repetiu de si para si a ameaça que já fizera: "Aquele boneco de engonço me paga".

Depois da saída de Cassi, ainda se bailou até os primeiros albores da aurora. Meneses, que tinha cochilado bastante, pôde, afinal, pela madrugada, comer um pouco de galinha assada e porco, que havia sobrado do jantar; mas não encetou discussão mais alguma com o doutor Praxedes; mesmo porque este já se havia despedido, por ter de comparecer muito cedo à audiência de um pretor, a fim de inquirir testemunhas num feito importante em que funcionava como advogado.

Quando todos se foram e Clara recolheu-se a seu quarto, que dava para a sala de jantar, Joaquim e a mulher ficaram nela, comendo ainda alguma coisa que sobrara, Foi então que Engrácia disse para o marido:

— Tudo foi muito bem. Todos se portaram decentemente, com respeito; mas uma coisa não quero mais.

— O que é?

— É que esse Cassi venha mais aqui. Dona Margarida me disse que ele é, é um devasso. Você não vê como ele canta indecentemente, revirando os olhos... Não o quero mais aqui; se ele vier...

— Não é preciso você se zangar, Engrácia; não gostei também dele e não porá mais os pés na minha casa.

Clara, que, deitada, no quarto, havia ouvido toda a conversa, pôs-se, em silêncio, a chorar.

CAPÍTULO V

(continua...)

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