Por Coelho Neto (1924)
Que encontro tê-lo-á abalado assim, ao pobre coração tão quieto, para que dele tanto se ressinta? Que rajada passou por ele toldando-lhe a alegria, perturbando-lhe a tranqüilidade, como esses improvisos ventos das montanhas frias que, inopinadamente, se levantam, sopram ríspidos carreando nuvens que escurentam o sol, retorcem angustiadamente as árvores e tomam um céu claro acumulado bulcão de cúmulos tempestuosos?
Rajada de saudade, vinda não se sabe de onde nem por que. De onde? senão da morte; por que, senão por ciúme, desconfiança, talvez, de que haja sido esquecido para surpreender a alma, apanhá-la distraída e ver se nela o lugar que era, outrora, seu foi ocupado ou esquecido, enchendo-se de nova alegria ou deixando em indiferença como os terrenos que, por abandono, desaparecem em maninho agreste. Como te enganas, espírito amoroso!
Vem! E sempre que apareças, baixando de onde assistes, acharás o teu lugar florido de saudades, flores que não morrem nunca porque, para regá-las, há no coração uma fonte que não cessa de correr e cada vez em maior cópia.
Vem na vigília ou no sono, vem! e acharás o teu lugar tal como o deixaste, e verificarás que és nele dono e único senhor; que nada do que te pertencia, e te pertence, foi ali tocado que continuas a ser nele quem dantes foste e agora és mais que nunca e vives e sobre o que de ti ficou não tem poder a morte, porque é a mesma Vida, que não perece, Vida como a da Eternidade, por ter a sua origem em Deus: a alma.
Vem ou como quando atendes carinhosamente ao apelo da minha a saudade ou surgindo, em meio da minha alegria ou do afã do trabalho, como costumas aparecer inesperadamente, sempre bem-vindo, para consolo e martírio da minha saudade.
MEMENTO
Como se há de esquecer toda uma vida, que se prendia a nossa, se o operado, a quem amputam um membro, durante muito tempo guarda a impressão de ainda o possuir?
Se as dores ficam assim vivas, como se alguma das suas raízes não houvesse sido extirpada, se o sofrimento persiste em reminiscências, ainda depois de curado, como se não há de perpetuar, mesmo que a morte a leve?
Geme o enfermo dores que o não pungem só pelo hábito, em que estava, de as sofrer; e não há de chorar o que não se conforma com a desdita de haver perdido um ser amado?
Se de um membro apenas fica tão viva recordação no corpo como não há de subsistir em saudade na alma a lembrança de um ente estremecido?
O que se levanta do leito e dá pela ausência do que lhe foi amputado custa a convencer-se do que vê, porque continua a sentir, posto que em ilusão, o que, dantes, o atormentava. E o que perde um amor há de esquecê-lo? Não!
Sinto-te como se estivesses comigo. Levaram-te de mim, a todo o instante, porém, tenho-te presente.
E a ti não são dores que te recordam a minha alma, mas venturas, pelo que sofro ainda mais o bem perdido.
Se o operado não esquece o que o fazia gemer, como me não hei de eu lembrar do que me fazia sorrir?
A LUZ DA SAUDADE
Tanto se me fixou na mente o episódio lúgubre daquele imenso instante que, todas as noites, mal apago a lâmpada à minha cabeceira, a escuridão acende-se em luz lívida e nessa claridade fátua, instantaneamente, a cena reproduz-se vem projeção fantástica.
Triste ressurreição da morte!
Vejo-o no leito, tal como o tive ante a minha impotência desgraçada, extinguindo-se pouco a pouco, flébil: de olhos abertos, fitos, lábios hiantes, mudos.
Tão grande era o silêncio no aposento como só mesmo pode ser nos túmulos. Era a morte que entrava com ele, como a noite entra com a treva e a madrugada com a luz.
Abraçado com o moribundo eu sentia-o ir pouco a pouco esfriando. O silêncio já o havia penetrado parando-lhe o coração.
Pois assim havia de cessar aquela vida em flor?
Como prendê-la a mim? Como defender aquele ser querido que me era arrebatado dos braços sem que toda a minha força, toda a minha fé, que explodia em clamores a Deus, e o espanto em que se petrificara a pobre mãe surpresa, o pudessem reter?
Quem há capaz de suster a luz ou a sombra, deter o dia ou a noite?
Pobre filho! De que lhe valia a mocidade? Vinte e quatro anos! Plena juventude! E ali jazia, mais frágil do que quando eu o vira, recém-nascido, naquele mesmo leito, entre os braços daquela mesma criatura que o encarava extática sem compreender que ele, seu filho, sempre tão meigo, nem sequer se voltasse para olhá-la, a ela, sua mãe, que o chamava em desvairo, docemente, baixinho, com uma voz que lhe saia trêmula, débil, chorando, do mais fundo do coração.
E tudo, em volta, parecia sentir: as próprias paredes, os móveis, a mesma luz que tremia, como se soluçasse.
Sobre o peito robusto do jovem atleta, como em calvário, alguém pousara um crucifixo de bronze.
Soluços faziam a pulsação do silêncio,
A vida, entanto, prosseguia fora no seu afã ruidoso e, indiferente, contínuo, acompanhando o tempo, o relógio picava os segundos como se desfiasse um rosário, conta a conta.
(continua...)
Baixar texto completo (.txt)COELHO NETO, Henrique Maximiano. Mano. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=7528 . Acesso em: 7 abr. 2026.