Por Raul Pompéia (1880)
— Posso, continuou o que falava, dizer-lhe alguma cousa que explica a ausência do branco.
— Dize! Dize!
— Estes meus três parceiros, principiou ele pausadamente e estendendo a mão para os negros cabisbaixos, me disseram, muito em segredo, que, anteontem à noute, um dos brancos (os espanhóis) pediu-lhes que fossem com ele à casa do nosso rico amigo, porque, desejando pregar uma peça ao senhor, precisava de auxiliares resolutos...
Tais palavras vieram aumentar os temores do chefe, que via com medo os três negros aterrados, como se receassem o castigo de alguma grande culpa.
— Talvez os desgraçados me tenham traído, pensou ele.
— Continua, falou ao denunciante.
— Os meus parceiros anuíram ao pedido e, ontem pela manhã, foram com efeito à tal casa, e com eles o branco. Enquanto este, penetrando no cercado, se aproximava de uma das janelas da habitação, os parceiros, do lado de fora, se preparavam para prestarem-lhe socorro, caso fosse preciso. Na janela estava aquela menina que o senhor quer que se traga para aqui. O branco pretendia matála. Tal seria a peça pregada ao senhor, que tem sempre proibido que ofendamos a sua pequenita.
— E matou-a? exclamou o chefe, avançando com os punhos fechados para os três negros culpados de cumplicidade. E matou-a miserável?
— Qual! respondeu o denunciante, deixando um pouco o tom de voz humilde. Qual! Não matou-a não! Ele é que ficou com os miolos furados...
— Que dizes?...
— ... por um tiro. Sim, ele é que foi morto.
— E quem deu o tiro?
— Aí é que há um mistério. Os meus parceiros só ouviram um estrondo que os fez fugir, deixando estirado o branco.
O chefe da quadrilha, cujos receios haviam desaparecido completamente, sentiu grande júbilo sabendo que estava livre daquele incômodo companheiro, contudo ocultou o prazer e voltou-se para os três criminosos de infidelidade, fingindo-se irado.
— Infames, exclamou, o maior culpado já foi punido como merecia, vocês ainda não. Eu devia matá-los agora mesmo, porém quero perdoá-los. Perdôo, mas à primeira falta que cometerem faço-os em migalhas!
O bandido perdoava porque não julgava muito prudente dizimar o seu bando.
Apesar de haver concedido perdão aos três negros, não moderara o seu furor fingido. O astucioso espanhol conhecia que os malfeitores estavam impressionados com a atitude do chefe, e, para tirar partido da impressão que causava, não quis mostrar-se indiferente à falta de lealdade dos três negros.
Preparava a sua gente para receber ordens despóticas com estrondosas repreensões e espantosas ameaças. Espanhóis e negros se curvaram trêmulos diante do chefe.
Este falou:
— Amanhã, como já esta determinado, tentaremos a ação decisiva contra o amigo que, há tanto tempo, nos traz atarefados. É verdade que o meu miserável patrício, que o diabo tenha, necessariamente despertou a vigilância do homem, mas este fato, que devera me fazer adiar o assalto para outra ocasião, vindo contrariarnos, não vem senão favorecer um plano que concebi. Realmente: o nosso amigo não é tão corajoso que, vendo-se ameaçado, não trate logo de tomar precauções. Dessas precauções uma será por certo o engajamento de defensores, serviço de que deve ser encarregado o padreco da povoação, como já o foi uma ou duas vezes. Pois bem, se vocês...
O chefe indicou os seus compatriotas.
— ... forem, disfarçados em trabalhadores, oferecer serviços ao padre, acredito que ele os engajará para defensores de seu medroso amigo.
"Introduzidos na casa do homem, vocês não farão mais do que esperar pelo meu assobio, que conhecem, para começarem a luta, distraindo o ricaço, enquanto eu e os negros, invadindo a habitação, fizermos a colheita. É esse o meu plano. E, como, sem dúvida, o nosso amigo está assustado por causa da tentativa feita contra a pequenita, julgo que é este o mais acertado e de mais provável bom êxito. Amanhã pois, vocês entrarão de madrugada no povoado para depois se apresentarem ao padre. Se ele os não aceitar, voltarão a ter comigo, no caso contrário, cuidarão somente em representar bem o seu papel. Por conseguinte, se vocês não aparecerem, estarei certo de haver vencido a primeira e única dificuldade."
O espanhol estava convencido de que os seus patrícios tinham interesse em ser guiados por ele e por essa razão, não receando que o traíssem, terminou dizendo apenas:
— É inútil acrescentar que serei desapiedado para com os covardes. Nunca se esqueçam disto:
"Aquele que não cumprir o seu dever... queimá-lo-ei vivo!"
Esta ameaça pavorosa foi abafar a última centelha de liberdade que porventura restava nos ânimos escravos de todos que a ouviram. Esses miseráveis podiam juntos esmagar o infame que os dominava; mas cada um deles, não contando com o apoio dos companheiros, não tinha coragem de ser o primeiro a resistir. Os espanhóis, a quem o chefe confiara a parte mais perigosa da empresa, não ousaram fazer a menor observação às ordens do superior. Os negros só tiveram palavras de aplauso.
O chefe conhecia bem a sua gente.
(continua...)
Baixar texto completo (.txt)POMPÉIA, Raul. Uma tragédia no Amazonas. Rio de Janeiro: Typ. Cosmopolita, 1880. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=17442 . Acesso em: 6 abr. 2026.