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#Romances#Literatura Brasileira

O Ateneu

Por Raul Pompéia (1888)

Iniciou da mesma forma um curso pitoresco de dicionário. O dicionário é o universo. Baba-se de esclarecimentos, mas atordoa, à primeira vista, como a agitação das grandes cidades desconhecidas. Encarreirados nas páginas consideráveis, os nomes seguem estranhamente com a numerosa prole dos derivados, ou sós, petits-maîtres faceiros, os galicismos; vaidosos dandies os de proveniência albiônica. Molestam-nos com a maneira desdenhosa, porque os não conhecemos. As dignificações prolongam-se intérminas, entrecruzam-se em confusa rede topográfica. O inexperiente não conquista um passo na imensa capital das palavras. Sanches estava afeito. Penetrou comigo até aos últimos albergues da metrópole, até à cloaca máxima dos termos chulos. Descarnou-me em caricatura de esqueleto a circunspeção magistral do Lexicon, como poluíra a elevação parnasiana do poema.

Eu me sentia amesquinhado sob o peso das revelações. Causava terror aquela sabedoria de coisas nunca sonhadas. O honrado diretor espiritual percebeu que havia agora um ascendente de domínio que me curvava. Olhava-me então de frente e tinha ousados risos de malícia. Depois dos dias de reserva, chegou-se de novo com uma segurança de possuidor forte. Eu andava num deplorável desmantelo de energia. Rebelo, de vez em quando, acabrunhava-me, através dos óculos azuis, com um olhar de desprezo ou condolência ainda mais aviltante. Meu pai vinha verme todas as semanas; eu mostrava os prêmios de aplicação, conversava de casa; o resto calava. Sempre desconfiado e receoso dos outros, o meu companheiro era quase exclusivamente Sanches. Sempre juntos eu e ele. Sabia-se no Ateneu que ele era meu explicador, supunham até que pago. Não causavam estranheza as nossas relações.

Contudo Sanches, como os mal-intencionados, fugia dos lugares concorridos. Gostava de vaguear comigo, à noite, antes da ceia, cruzando cem vezes o pátio de pouca luz, cingindo-me nervosamente, estreitamente até levantar-me do chão. Eu aturava, imaginando em resignado silêncio o sexo artificial da fraqueza que definira Rebelo.

Estimulado pelo abandono, que lhe parecia assentimento tácito, Sanches precipitou um desenlace. Por uma tarde de aguaceiro errávamos pelo saguão das bacias, escuro, úmido, recendendo ao cheiro das toalhas mofadas e dos

ingredientes dentifrícios, solidão favorável, multiplicada pelos obstáculos à vista que ofereciam enormes pilares quadrados em ordem a sustentar o edifício, — quando, sem transição, o companheiro chegou-me a boca ao rosto e falou baixinho.

Só a voz, o simples som covarde da voz, rastejante, colante, como se fosse cada sílaba uma lesma, horripilou-me, feito o contato de um suplício imundo. Fingi não ter ouvido; mas houve intimamente a explosão de todo o meu asco por semelhante indivíduo e muito calmo, desviando apenas a vista, pretextei a falta de um lenço, que me endefluxara a friagem e... fui buscá-lo.

Fora da zona magnética em que me cativava o bom amigo, concertaram-se os meus instintos sopitados de revolta e Sanches passou a ser um desconhecido. Sacrificava-se de golpe o amigo, o explicador e o vigilante: um rasgo de heroicidade. Ao primeiro encontro depois do rompimento, o homem viu que estava tudo acabado.

Andou a rondar-me, temperando o olhar com um brilho de facadas.

A ocasião é que não era a melhor para o conflito. Conveniências do ensino tinham feito dividir-se em duas turmas a aula do Professor Mânlio, e eu fora incluído na seção confiada ao Sanches, como auxiliar idôneo. A conseqüência foi o que devia ser. Maltratado e condenado pelo ajudante, provando mal em razão do sobressalto no exame de verificação a que me sujeitou o professor, desmoralizado em repreensão solene com grande regozijo do Sanches, jurei vingança. Escandalizaria o mundo com uma vadiação sem exemplo! Percorrera a matéria toda em rápida antecipação de estudo. Isto, porém, não bastava. Bastasse! foi o meu lema. E toca a desandar. Fiquei abaixo do Barbalho, aliás fora de classificação decente; fiquei abaixo do Álvares. Fui o último da aula! Resultado razoável, para emprego de uma energiazinha que despontava.

Ao mesmo tempo, como os filósofos atribulados, busquei a doce consolação dos astros.

Aristarco iniciara um curso noturno de cosmografia.

Estrelas era com ele. O nobre ensino! Nenhum professor, sob pena de expulsão, abalançava-se a intrometer-se nas onze varas da camisola de astrólogo. E vissem-no, à janela, indicando as constelações, impelindo-as através da noite com o pontudo dedo! Nós discípulos, não víamos nada; mas admirávamos. Bastava ele delinear sabiamente um agrupamento estelino às alturas, para cada um de nós por seu lado ficar mais a quo. E voava, fugindo, a poeira fosforescente.

Quanto a mim, o que sobretudo me maravilhava era a coragem com que Aristarco fisgava os astros, quando todos sabem que apontar estrelas faz criar verrugas.

(continua...)

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