Por Raul Pompéia (1882)
Com o ouvido atilado que ela tinha e a prevenção em que andava, não lhe passaram despercebidos uns rumores suspeitos na sala, seguidos do murmúrio de uma conversação em voz baixa.
Emília estava já na cama. Levantou-se e foi, nas pontinhas dos pés, escutar o que se dizia na sala. Encostou-se a um dos portais da última porta do corredor, e escutou...
Falavam dois homens.
Um, o velho Januário, o outro...
— O miserável... — murmurou ela com os dentes cerrados.
Foi ouvindo a conversa.
Trançava-se uma infâmia.
Emília sentiu o peito inchar-se-lhe de indignação.
— Vão infamar uma inocente! — murmurou tremendo.
Cada palavra daquela conversa entrava-lhe no coração como um punhal em brasa.
Era horrível o que aqueles miseráveis combinavam. Um laço de perdição para um anjo. Vendia-se a dinheiro a pureza de uma criança. Um comprava como se fosse uma ave no mercado, e outro vendia, como se a mercadoria lhe pertencesse. Não havia ali só infâmia; havia infâmia e ladroeira. Tinha razão. O açougueiro não consulta a vitela sobre as condições de venda. Torpeza. Não! Ela não podia deixar de intervir...
A conversa acabou. Selaram-se as convenções e uma das partes contratantes retirou-se, muito à vontade e satisfeita com a transação.
Emília não se conteve um instante. Ardendo em febre e em ódio, atirou-se como uma harpia e agarrou Januário com as unhas...
Passou-se a cena violenta do nosso terceiro capítulo e Emília retirou-se para o quartinho, onde dormia, jurando que não se havia de fazer a vontade dos dois perversos.
Caiu na cama prostrada e soluçando. Um cansaço enorme acabrunhava-a, conseqüência do esforço que provocara a revolução da sua energia, por tanto tempo em letargo.
Sentiu ao mesmo tempo que o fresco da noite fizera-lhe mal.
Um calor intenso de febre escaldava-lhe o corpo. Emília estirou-se os membros por entre os grosseiros lençóis da sua marquesa e ficou a refletir na conversa que ouvira. Repassou na memória cada uma daquelas frases, e a recordação causava-lhe estremecimentos e provocava mais lágrimas.
No meio da escuridão do cubículo, ouvia-se-lhe o respirar ofegante e os soluços convulsivos...
Quando clareou o dia, ainda não conseguira dormir um só instante.
Amanheceu abatida como uma moribunda.
Fez falta ao serviço da manhã. A mulher de Januário foi ver o que ela tinha.
— Estou doente — respondeu Emília com voz cava e fraca.
A pobre mulher tinha as feições cavernosas como um rosto de caveira. Estava lívida e profundamente acabrunhada. Nos olhos, entretanto, havia uns reflexos vítreos, contrastando com o amortecimento do corpo.
A mulher de Januário não pôde conter um movimento de contrariedade.
Doente Emília, ficava-lhe o peso do serviço e ela era tão velha... Ah! Tinha Conceição... Mas Conceição estava atualmente destinada a outro serviço absolutamente indispensável... o diabo!... Era necessário tirar Emília da cama quanto antes!
Por isso é que a moléstia da nora preocupava mais a mulher de Januário que o roubo do palácio.
Conceição tinha uma simpatia especial por aquela mulher a quem o vovô e a Dindinha chamavam de nora e tratavam como escrava. Achava docemente atrativa a tristeza eterna de Emília. As almas ingênuas agradam-se facilmente das almas tristes. No meio de sua alegria gárrula, involuntária, constante, tinha sempre um sorriso especial para suavizar a tristeza dolorida de Emília.
Demais, além da simpatia, tinha motivos de gratidão.
Lembrava-se que, desde muito pequena, sempre recebera afagos daquela mulher. Notava que só era acariciada quando não havia testemunhas e que, quanto mais ela crescia, tanto mais raros eram os testemunhos de amizade que lhe dava Emília. Contudo, sentia que era a mulher triste a única que amava-a, verdadeiramente.
Quando soube que Emília havia amanhecido incomodada, correu a visitá-la.
A prostração da doente comoveu-a em extremo.
Conceição não pôde conter as lágrimas e sentou-se junto do leito a contemplar entristecida o semblante de Emília. A atitude da mocinha desgostou cruelmente a enferma.
Conceição viu-a voltar-se na cama e apertar o rosto nas dobras de um lençol.
Pareceu-lhe que Emília chorava desesperadamente.
Naquela ocasião, Emília e Conceição achavam-se sós no quarto.
A mulher de Januário, atribuindo à fraqueza o incômodo de Emília, fora preparar-lhe um caldo.
— Está chorando, mamãe?! — exclamou Conceição, debruçando-se por cima do leito de Emília e cingindo-a entre os braços. — É por minha causa que chora?...
Como que as exclamações de Conceição causaram um prazer dulcíssimo a Emília!
A nora de Januário descobriu o rosto e enlaçou com os ossos descarnados dos braços a cinturinha elegante da donzela.
— Não estou chorando, pobre criança! — disse. — Veja que estou me rindo...
No semblante cadavérico de Emília havia realmente a luz doce de um sorriso, misturando-se às mais ardentes lágrimas em iriações de uma alegria celeste...
Foi um abraço longo...
Emília sentia como um transbordamento do coração, apertando contra o peito aquela mocinha.
(continua...)
Baixar texto completo (.txt)POMPÉIA, Raul. As joias da coroa. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=17439 . Acesso em: 6 abr. 2026.