Por Padre Antônio Vieira (1673)
Pulvis es, et in pulverem reverteris. Homem cristão, com quem fala a Igreja, és pó e hás de ser pó. Que remédio? Fazer que um pó seja corretivo do outro. Sê desde logo o pó que és, e não temerás depois ser o pó que hás de ser. Sabeis, senhores, por que tememos o pó que havemos de ser? É porque não quereinos ser o pó que somos. Sou pó, e hei de ser pó; pois antes de ser o pó que hei de ser, quero ser o pó que sou. Já que hei de ser pó por força, quero ser pó por vontade. Não é melhor que faça desde já a razão, o que depois há de fazer a natureza? Se a natureza me há de resolver em pó, eu quero-me resolver a ser pó, e faça a razão por remédio, o que há de fazer a natureza sem remédio. Não sei se entendestes toda a metáfora. Quer dizer mais claramente que o remédio único contra a morte, é acabar a vida antes de morrer. Este é o meu pensamento, e envergonho-me, sendo pensamento tão cristão, que o dissesse primeiro um gentio. Considera quam pulchra res sit consummare vitam ante mortem: deinde expectare securum reliquam temporís sui partem.3 Lucílio meu, diz Sêneca, escrevendo de Roma à Sicília. O pensamento saiu de Roma, e fora melhor que não saísse. – Lucílio meu, considera com atenção o que agora te direi, e toma um conselho que te dou como mestre e como amigo. Se queres morrer seguro, e viver o que te resta sem temor, acaba á vida antes da morte. – Ó grande e profundo conselho, merecedor verdadeiramente de melhor autor; e digno de ser abraçado de todos os que tiverem fé e entendimento!. Consumare vitam ante mortem: Acabar á vida antes de morrer; e ser pó por eleição, antes de ser pó por necessidade. Isto disse e ensinou um homem gentio, porque para conhecer esta verdade não é necessário ser cristão; basta ser homem: Memento homo.
Suba agora a fé sobre a razão, venha a autoridade divina sobre a humana, e ouçamos o que diz o céu à terra. Audivi vocem de caelo dicentem mihi: Scribe: Beati mortui qui in domino moriuntur (Apc. 14,13): Ouvi, diz S. João, uma voz do céu que me dizia e me mandava escrever esta sentença: Bem-aventurados os mortos que morrem em o Senhor. – Celestial oráculo, mas dificultoso! Quis mortuus mori potest? – argüi a pergunta S. Ambrósio. – Que morto há que possa morrer? Nullus procul dubio – Nenhum. – Tudo acaba a morte, e tudo se acaba com a morte, até a mesma morte. Quem morreu, já não pode morrer. Só os mortos têm este privilégio contra a jurisdição e império universal da morte. São sujeitos à morte os príncipes, os reis, os monarcas; só os mortos, depois que uma vez lhe pagaram tributo, ficarão isentos de sua jurisdição. Por isso Tertuliano chamou judiciosamente a sepultura mortis asylum: asilo, e sagrado, da morte. Contra a alçada da morte, nem o Vaticano é sagrado, mas a sepultura sim, porque os mortos já não podem morrer. Como diz logo a voz do céu a S. João: Bem-aventurados os mortos que morrem em o Senhor? Mortos que morrem? Que mortos são estes? São aqueles mortos que acabam a vida antes de morrer. Os que acabam a vida com a morte, são vivos que morrem, porque os tomou a morte vivos; os que acabam a vida antes de morrer; são mortos que morrem, porque os achou a morte já mortos. Illi sunt beati, et illi in Domino moriuntur, qui prius moriuntur mundo, postea carne, – responde o mesmo S. Ambrósio. Sabeis quais são os mortos que morrem? São aqueles que acabaram a vida antes de morrer; aqueles que morreram ao mundo antes que a morte os tire do mundo: Qui prius moriuntur mundo, postea carne. Estes são os mortos que morrem; estes são os que morrem em o Senhor; estes são os que a voz do céu canoniza por bem-aventurados: Beati mortui.
(continua...)
Baixar texto completo (.txt)Fonte: VIEIRA, Padre Antônio. Sermão da Sexagésima. Disponível em: http://www.ep.com.br/livros_vest/sermoes.pdf . Acesso em: 30 ago. 2026.