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#Sermões#Retórica

Sermão do Mandato

Por Padre Antônio Vieira (1670)

Começando pelo amor. O amor essencialmente é união, e naturalmente a busca; para ali pesa, para ali caminha, e só ali pára. Tudo são palavras de Platão e de Santo Agostinho. Pois se a natureza do amor é unir, como pode ser efeito do amor o aportar? Assim é, quando o amor não é extremado e excessivo. As causas excessivamente intensas produzem efeitos contrários. A dor faz gritar, mas se é excessiva, faz emudecer; a luz faz ver, mas se é excessiva, cega; a alegria alenta e vivifica, mas se é excessiva mata. Assim o amor: naturalmente une, mas se é excessivo, divide. Fortis est ut mors dilectio (Cânt. 8,6): O amor, diz Salomão, é como a morte. – Como a morte, rei sábio? Como a vida. dissera eu. O amor é união de almas: a morte é separação da alma; pois se o efeito do amor é unir, e o efeito da morte é separar, como pode ser o amor semelhante à morte? O mesmo Salomão se explicou. Não fala Salomão de qualquer amor, senão do amor forte: Fortis est ut mors dilectio;2 e o amor forte, o amor intenso, o amor excessivo produz efeitos contrários. É união, e produz aportamentos. Sabe-se o amor atar, e sabe-se desatar como Sansão: afetuoso, deixa-se atar; forte, rompe as ataduras. O amor sempre é amoroso, mas umas vezes é amoroso e unitivo, outras vezes amoroso e forte. Enquanto amoroso e unitivo, ajunta os extremos mais distantes: enquanto amoroso e forte, divide os extremos mais unidos. Quais são os extremos mais distantes e mais unidos que há no mundo? O nosso corpo e a nossa alma. São os extremos mais distantes, porque um é carne, outro espírito; são os extremos mais unidos, porque nunca jamais se aportam. Juntos nascem, juntos crescem, juntos vivem; juntos caminham, juntos páram, juntos trabalham, juntos descansam; de noite e de dia, dormindo e velando, em todo o tempo, em toda a idade, em toda a fortuna; sempre amigos, sempre companheiros, sempre abraçados, sempre unidos. E esta união tão natural, esta união tão estreita, quem a divide? A morte. Tal é o amor: Fortis est ut mors dilectio. O amor, enquanto unitivo, é como a vida; enquanto forte, é como a morte. Enquanto unitivo, por mais distantes que sejam os extremos, ajunta-os; enquanto forte, por mais unidos que estejam, aporta-os.

Antes da Encarnação do Verbo, quais eram os extremos mais distantes? Deus e o homem. E que fez o amor unitivo? Trouxe a Deus do céu à terra, e uniu a Deus com os homens. Depois da Encarnação, quais eram os extremos mais unidos? Cristo e os homens. E que fez o amor forte? Leva hoje a Cristo da terra ao céu: Ut transeat ex hoc mundo ad Patrem3, e aportou a Cristo dos homens. Exivi a Patre, et veni in mundum: eis ai o amor unitivo; Iterum relinquo mundum, et vado ad Patrem:4 eis aí o amor forte. É o que diz o evangelista: Cum dilexisset, dilexit. Houve diferença nos tempos, mas não houve mudança no amor. Cristo unido com os homens, amor: Cum dilexisset; Cristo aportado dos homens, também amor, e maior amor: In finem dilexit eos.

(continua...)

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