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#Sermões#Retórica

Sermão das Lágrimas de São Pedro

Por Padre Antônio Vieira (1669)

Os olhos, único sentido que tem dois ofícios: ver e chorar. Por que a natureza e a providência ajuntou nos mesmos olhos dois efeitos tão contrários? Origem das lágrimas de Davi, de Siquém, de Jacó e de Sansão. A vista de Eva, princípio de todas as lágrimas. O elogio das lágrimas. Queixa do Espírito Santo contra os nossos olhos.

Egressus foras Petrus flevit amare.

Notável criatura são os olhos! Admirável instrumento da natureza! Prodigioso artifício da Providência! Eles são a primeira origem da culpa, eles a primeira fonte da graça. São os olhos duas víboras metidas em duas covas, em que a tentação pôs o veneno, e a contrição a triaga. São duas setas com que o demônio se arma para nos ferir e perder, e são dois escudos com que Deus, depois de feridos; nos repara para nos salvar. Todos os sentidos do homem têm um só ofício; só os olhos têm dois. O ouvido ouve, o gosto gosta, o olfato cheira, o tato apalpa, só os olhos têm dois ofícios: ver e chorar. Estes serão os dois pólos do nosso discurso.

Ninguém haverá, se tem entendimento, que não deseje saber por que ajuntou a natureza no mesmo instrumento as lágrimas e a vista, e por que uniu na mesma potência o ofício de chorar e o de ver? O ver é a ação mais alegre; o chorar a mais triste. Sem ver, como dizia Tobias, não há gosto, porque o sabor de todos os gostos é o ver (Tob. 5,12); pelo contrário, o chorar é o estilado da dor, o sangue da alma, a tinta do coração, o fel da vida, o líquido do sentimento. Por que ajuntou logo a natureza nos mesmos olhos dois efeitos tão contrários: ver e chorar? A razão e a experiência é esta: ajuntou a natureza a vista e as lágrimas, porque as lágrimas são conseqüência da vista; ajuntou a Providência o chorar com o ver, porque o ver é a causa do chorar. Sabeis por que choram os olhos? Porque vêem. Chorou Davi toda a vida, e chorou tão continuamente, que com as lágrimas sustentava a mesma vida: Fuerunt mihi lacrymae meae panes.3 E por que chorou tanto Davi? Porque viu: Vidit mulierem.4 Chorou Siquém, chorou Jacó, chorou Sansão, um príncipe, outro pastor, outro soldado, e por que pagaram este tributo tão igual às lágrimas os que tinham tão desigual fortuna? Porque viram: Siquém a Dina, Jacó a Raquel, Sansão a Dalila. Choraram os que com suas lágrimas acrescentaram as águas do dilúvio; e por que choraram? Porque tendo o nome de filhos de Deus, viram as que se chamavam filhas dos homens: Videntes filii Dei filias hominum (Gên. 6,2). Mas para que são exemplos porticulares, em uma causa tão comum e tão universal de todos os olhos? Todas as lágrimas que se choram, todas as que se têm chorado, todas as que se hão de chorar até o fim do mundo, onde tiveram seu princípio? Em uma vista: Vidit muliei; quod bonum esset lignum ad vescendiim.5 Viu Eva o pomo vedado, e assim como aquela vista foi a origem do pecado original, assim foi o princípio de todas as lágrimas que choramos os que também então começamos a ser mortais. Digam-me agora os teólogos: se os homens se conservaram na justiça original, em que foram criados os primeiros pais, havia de haver lágrimas no mundo? Nem lágrimas, nem uma só lágrima. Nem havíamos de entrar neste mundo chorando, nem havíamos de chorar enquanto nele vivêssemos, nem havíamos de ser chorados quando dele portíssemos. Aquela vista foi a que converteu o paraíso de deleites em vale de lágrimas; por aquela vista choramos todos. Mas, que diriam sobre esta ponderação os que neste dia fazem panegiricos às lágrimas? Diriam que estima Deus tanto as lágrimas choradas por pecados, que permitiu Deus o pecado de Adão, só por ver chorar pecadores. Diriam que permitiu Deus o pecado, da sua porte, para que os homens vissem a Deus derramar sangue; da nossa porte, para que Deus visse aos homens derramar lágrimas. Não é o meu intento dizer estas coisas. Que importa em semelhantes dias que as lágrimas fiquem louvadas, se os olhos ficam enxutos? O melhor elogio das lágrimas é chorá-las.

(continua...)

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