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#Sermões#Retórica

Sermão no Sábado Quarto da Quaresma

Por Padre Antônio Vieira (1652)

Hoc autem dicebant tentantes eum. Que os homens sejam maiores inimigos que os demônios, é verdade que eu tenho muito averiguada. Busque cada um os exemplos em si, e achá-los-á: por agora, baste-nos a todos o de Cristo. Depois de trinta anos de retiro, houve Cristo de sair a tratar com os homens, ou a lidar com eles. E porque não basta ciência sem experiência, nem há vitória sem batalha, nem se peleja bem sem exercício, antes de entrar nesta tão perigosa campanha, quis-se exercitar primeiro com outros inimigos. Parte-se o Senhor, depois de batizado, ao desterro, e diz S. Marcos que estava e vivia ali com as feras: Eratque cum bestiis (Mc. 1,13). Passados assim quarenta dias, seguiram-se as tentações do demônio: Et accedens tentator (Mt. 4,3); tentado Cristo no mesmo deserto, tentado no templo, tentado no monte. E depois destas duas experiências, então finalmente saiu e apareceu no mundo, e começou a tratar com os homens: Exinde caepit praedicare (Ibid. 17). Não sei se reparastes na ordem destes ensaios. Parece que primeiro se havia de exercitar o Senhor com os homens, como racionais e humanos; depois com as feras, como irracionais e indômitas; e ultimamente com os demônios, como tão desumanos, tão cruéis e tão horrendos. Mas não foi assim, senão ao contrário. Primeiro com as feras, depois com o demônio, e ultimamente com os homens. E por quê? Porque o exercício e ensaio há de ser do menor inimigo para o maior, e os homens não só são inimigos mais feros que as feras, senão mais diabólicos que os mesmos demônios. Vede-o na experiência. Que aconteceu a Cristo com as feras, com o demônio, e com os homens? As feras nem lhe quiseram fazer mal, nem lho fizeram; o demônio quis-lhe fazer mal, mas não lho fez; os homens quiseram-lhe fazer mal, e fizeram-lho. Olhai para aquela cruz. As feras não o comeram, o demônio não o despenhou; os que lhe tiraram a vida foram os homens. Julgai se são piores inimigos que o demônio! Do demônio defendeis-vos com a cruz; os homens põem-vos nela.

De maneira que não há dúvida que os homens são piores inimigos que os demônios. A minha dúvida hoje é se são piores tentadores: Hoc autem dicebant tentantes eum. Os demônios tentam, os homens tentam; o demônio tentou a Cristo, os homens tentaram a Cristo; quais são os maiores e piores tentadores: os homens ou os demônios? A questão é muito alta e muito útil; e para que não gastemos o tempo em esperar pela conclusão, digo que comparada (como se deve comparar) astúcia com astúcia, pertinácia com pertinácia, e tentação com tentação, piores tentadores são os homens que os demônios. Comecemos pelo Evangelho, com o qual também havemos de continuar e acabar.

§III

Os homens, piores inimigos que os demônios. As tentações do demônio, vencem-se com um sim ou um não; as tentações dos homens são como os laços de que fala Isaías, escondidos debaixo de pedras. Sutileza de Pedro ao responder aos cobradores do tributo.

Hoc autem dicebant tentates eum. Vieram os escribas e fariseus, como dizíamos, ao Templo, que contra o ódio e a inveja humana não lhe vale sagrado à inocência. Presentaram diante de Cristo a adúltera tomada em flagrante delito, e alegaram o texto, que é do capítulo vinte do Levítico, em que a lei mandava que fosse apedrejada: Moyses mandavit nobis hujusmodi lapidare.2 Pois se a lei era expressa, e o delito notório, se no caso não havia dúvida de feito, nem de direito, por que não executam eles a lei? Se é delinqüente, castiguem-na; se a pena é de morte, tirem-lhe a vida; se o gênero da pena são pedras, apedrejem-na, levem-na ao campo, e não ao Templo. E se aguardam a sentença, requeiram-na aos juízes, e não a Cristo. Isto era o que pedia a justiça, o zelo e a razão. Mas não o fizeram assim, diz o evangelista, porque o seu intento não era castigar a acusada, senão acusar a Cristo: Ut possent accusare eum. Traziam uma acusação, para levar outra. Vede a maldade mais que infernal, e a astúcia mais que diabólica. O demônio, no juízo universal e no particular; há-me de acusar a toim, para me condenar a mim, e há-vos de acusar a vós, para vos condenar a vós: porém estes tentadores não só acusavam um para condenar outro, mas acusavam a pecadora, para condenar o justo; acusavam a delinqüente para condenar o inocente.

(continua...)

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