Por Padre Antônio Vieira (1669)
O maior desconcerto da natureza, ou a maior circunstância de malícia que Cristo ponderou na cegueira dos escribas e fariseus, que será o triste exemplar da nossa, foi ser cegueira de homens que tinham os olhos abertos: Ut videntes caeci fiant. Os escribas e fariseus eram os sábios e letrados da lei, eram os que liam as Escrituras, eram os que interpretavam os profetas, e por isso mesmo eram mais obrigados que todos a conhecer o Messias e nunca tão obrigados como no caso presente. Isaías, no capítulo trinta e dois, falando da divindade do Messias e de sua vinda ao mundo, diz assim: (Ouçam este texto os incrédulos): Deus ipse veniet et salvabit vos. Tunc aperientur oculi caecorum (Is. 35, 4s): Virá Deus em pessoa a salvar-vos. E em sinal de sua vinda, e prova de sua divindade, dará vista a cegos. – O mesmo tinha já dito no capítulo vinte e nove: De tenebris, et caligine, oculi caecorum videbunt.2 E o mesmo tornou a dizer no capítulo quarenta e dois: Dedi te in faedus populi, in lucem gentium, ut aperires oculos caecorum.3 Por isso, quando o Batista mandou perguntar a Cristo se era ele o Messias: Tu es qui venturus es, an alium expectamus?,4 querendo o Senhor antes responder com obras que com palavras, o primeiro milagre que obrou diante dos que trouxeram a embaixada, foi dar vista a cegos. Renunciate Joanini quae audistis et vidistis: caeci vident.5 Pois se o primeiro e mais evidente sinal da vinda do Messias, se a primeira e mais evidente prova de sua divindade e onipotência, era dar vista a cegos, e se entre todos os cegos a que Cristo deu vista, nenhum era mais cego que este, e nenhuma vista mais milagrosa, por ser cego de seu nascimento, e a vista não restituída, senão criada de novo, como se alucinaram tanto os escribas e fariseus, que vendo o milagre, não viam nem conheciam o milagroso? Aqui vereis qual era a cegueira destes homens. A cegueira que cega cerrando os olhos não é a maior cegueira; a que cega deixando os olhos abertos, essa é a mais cega de todas. E tal era a dos escribas e fariseus. Homens com olhos abertos, e cegos. Com olhos abertos, porque como letrados liam as Escrituras e entendiam os profetas; e cegos, porque vendo cumpridas as profecias, não viam nem conheciam o profetizado.
Um destes letrados cegos era Saulo, antes de ser Paulo; e vede como lhe mostrou o céu qual era a sua cegueira. Ia Saulo caminhando para Damasco armado de provisões e de ira contra os discípulos de Cristo, quando ao entrar já na cidade, eis que fulminado da mão do mesmo Senhor cai do cavalo em terra, assombrado, atônito, e subitamente cego. Mas qual foi o modo desta cegueira? Apertis oculis, diz o texto, nihil videbat (At. 9,8): Com os olhos abertos, nenhuma coisa via. – A cidade, os muros, as torres, a estrada, os campos, os companheiros à vista, e Saulo com os olhos abertos sem ver nenhuma coisa destas nem se ver a si. Aqui esteve o maravilhoso da cegueira. Se o raio lhe tirara os olhos ou lhos fechara, não era maravilha que não visse; mas não ver nada, estando com os olhos abertos: Apertís oculis nihil videbat. Tal era a cegueira de Saulo quando perseguia a Cristo; tal a dos escribas e fariseus quando a não criam, e tal a nossa, que é mais, depois de o crermos. Muito mais maravilhosa é esta nossa cegueira que a mesma vista do cegado Evangelho. Aquele cego, quando não tinha olhos, não via; nós temos olhos e não vemos. Naquele cego houve cegueira e vista, mas em diversos tempos; em nós, no mesmo tempo, está junta a vista com a cegueira, porque somos cegos com os olhos abertos, e por isso mais cegos que todos.
(continua...)
Baixar texto completo (.txt)Fonte: VIEIRA, Padre Antônio. Sermão da Sexagésima. Disponível em: http://www.ep.com.br/livros_vest/sermoes.pdf . Acesso em: 23 ago. 2026.