Por Coelho Neto (1897)
O patriarca, acolhendo a esposa meiga, cujas faces pareciam de neve, apertou com força o cajado e levantou os olhos.
Maria, sentindo o perigo, tartamudeou, tímida e trêmula, uma oração ao Senhor. O receio de um ataque em sítio tão desolado, longe de toda habitação, onde nem choça de pegureiro havia, deteve o homem.
Os corações batiam. Nela era o pavor do desconhecido, o grande medo trágico das sombras do Scheol, que erram, à noite, pelos descampados; nele era o temor por ela.
Não falavam, de olhos muito abertos, quietos, imóveis como os rochedos que os emparedavam.
De repente um clarão fulgurou. A passagem iluminou-se, as pedras cintilaram e as palmouras dos cardos ficaram como de prata. E eles viram uma grande luz à flor da terra e clareando as rochas. Aves despertando galreavam festivamente o canto da madrugada.
Levantando o olhar, viram os dois a fonte do esplendor. Era um anjo que os precedia, ora trilhando os caminhos, ora voando acima das rochas, pousando nos alcandores(1) quando o lento e fatigado andar de Maria retardava a marcha.
A virgem sorria de enlevo e José, tolhido de emoção, não se atrevia a encarar o guia resplandecente, cujo reflexo abria na terra um clarão de luar. E as asas aflavam docemente no silêncio.
A virgem reconheceu no anjo o mancebo que a saudara com as palavras misteriosas, cuja promessa cumpria-se e José reviu o divino emissário que lhe aparecera em sonho, sob a figueira do horto, defendendo a inocência de Maria, em cujo seio, como em corola de flor, a Graça perpassava em gênese imareável, fecundando-o como o sol fecunda a leiva, eternamente pura.
LÍRIOS
Clareava.
Manhã opaca, envolta em bruma que algodoava a terra, flutuando com um lento ondular, fluindo em frouxéis alvíssimos como penugem, esgarçando-se, diluindo-se em fumo tênue que se esvaía no ar silencioso.
A espaços frondes boiavam, ramarias excídias(1) irrompiam.
Ouvia-se o lentejo lacrimoso das folhas orvalhadas. Ouvia-se o lentejo lacrimoso das folhas orvalhadas.
A terra dava-se avaramente, a trechos curtos, à medida que os viajantes avançavam e o caminho percorrido, como os da vida, eram logo fechados em branco pelos nevoeiros.
Branco também era o céu e triste, pesando sobre a terra, tão baixo que as nuvens, por vezes, envolviam os peregrinos.
Pássaros piavam nas taliscas, ocultos; vozes de gado, longínquas, evocativas, anunciavam casais. Maria tiritava.
A túnica pesava-lhe nos ombros, úmida, e as faces, rorejadas, tingiam-se em duas rosas como se as flores, transidas, houvessem procurado abrigo ao calor carinhoso daquela mocidade pura. José distraia a companheira falando-lhe dos lugares que iam atravessando.
Todos aqueles atalhos tortuosos, aqueles carreiros ínvios haviam sido, em tempos remotos, trilhados por patriarcas.
Ali haviam-se travado batalhas sangrentas; ali alvejara a tenda, crescera, em louro estendal, o trigo, retorcera-se a vinha, pastara o armento, correra o azeite, fundira-se o ferro, britara-se a pedra, cosera-se o barro sob as vistas de Iahve onipotente.
Por ali andara Elias trovejando oráculos. Judite afiara o gládio libertador nas arestas daquelas penhas.
Em poeira de ouro foi-se mudando a névoa: era o sol.
Já aparecia uma nesga de azul; árvores, moitas destacavam-se. A mortalha rasgava-se para a ressurreição.
Alegremente as aves, em claras vozes, cantaram a vitória da Luz. E Maria, contente, d’olhos em êxtase, esperava o astro anunciado pela fulguração das nuvens.
Num recanto, entre mirradas árvores de troncos retorcidos, uma água escura e quieta reluzia. Pedras negras, cobertas de limo, escondiam-se sob ramos acenosos.
Maria, sentindo a dobrez da fadiga, os olhos pesados de sono, sentou-se tão perto d’água que ela toda refletiu-se na superfície espelhenta.
Viu-se, sem vaidade, com a mesma inocência com que revê o pássaro e, num momento, infantilmente, mergulhou, até o punho, as mãos ambas no paul.
Quis José repreendê-la, vendo-a, porém, sorrir, sorriu também. Gotejando saíram as pequeninas mãos da água que tremia.
Olhavam os dois os círculos que se abriam quando viram dias flores subirem à tona, brancas, abertas em cinco pétalas, eretas em finas hastes, como se o reflexo das mãos da Imaculada se houvesse materializado em memória da ablução ligeira.
Eram lírios e trescalavam.
Virtude, brilho das almas, que importa que desças à vasa? És impermeável como a luz, purificadora como o raio de sol.
Não perdes a límpida pureza e, se entras no vício, fazes desabrochar a graça; se afundas no crime, tiras o arrependimento.
O pântano era lôbrego, coberto de folhas mortas e as mãos de Maria, só com o aflorarem, tanto o purificaram que dele nasceu o lírio sem mácula, símbolo formoso e cândido da inocência.
A REFEIÇÃO
Suave som de flauta pastoril deu a Maria o encanto de um égloga. Voltou a cabeça dourada e viu o rebanho que se aproximava em vagaroso passo.
(continua...)
Baixar texto completo (.txt)COELHO NETO, Henrique Maximiano. A partida. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=7527 . Acesso em: 7 abr. 2026.