Por Coelho Neto (1890)
Ia penetrar esse ádito em que habitava o escritor que ele seguia de longe, enamoradamente, quando o via passar na multidão com grandes olhos femininos, de longas, sedosas e curvas pestanas, sempre enevoados de sonhos, cofiando o bigode negro, num andar rápido como se sempre fosse à pressa anotar uma idéias, registrar uma observação, rematar uma página, esboçar um romance, consultar uma nota. E tinha revoltas violentas vendo a indiferença da multidão que nem sequer abria alas ao autor de tantas e tão soberbas páginas humanas.
Seguia e, se fosse a uma apetitosa aventura de amor, discreta e arriscada, sorver extasiadamente o primeiro beijo criminoso, enlaçar, com ânsia, o corpo branco e fragrante, molemente lânguido, da mulher amada, não levaria o coração tão sobressaltado. Quando passou o portão deteve-se um momento ao sol, hesitante. "Mas àquela hora o romancista devia estar almoçando..."
Uma corneta soou gravemente, em notas prolongadas e o dobre de um sino passou rolando nos ares lúcidos. Meio-dia!
Atravessou a rua e, de olhos altos, consultando as placas, parou diante de um largo portão que, abrindo sobre um pátio ladrilhado, dava ingresso à casa, de dois altíssimos andares.
Um homem barbado, em mangas de camisa e descalço, varria preguiçosamente a entrada, com a cabeça derreada, um olho fechado para evitar a fumaça do cigarro que lhe rolava, úmido, nos beiços. Anselmo abordou-o:
— Não mora aqui o senhor Ruy Vaz? O homem cuspiu para um lado a ponta do cigarro e, levantando a cabeça hirsuta e ruça de poeira, encarou o estudante com indiferença:
— Quer falar ao senhor Ruy Vaz?
— Sim.
— É por aqui, a terceira porta. E, enristando a vassoura, indicou uma passagem estreita ao lado da escada que levava aos pavimentos superiores. Com a direção indicada, Anselmo dirigiu-se a um corredor cimentado onde amareleciam pontas de cigarros, ao longo do qual corria uma banqueta de tinhorões que o calor escaldante da hora amolecia. Seguindo, metia os olhos indiscretos por todas as janelas, surpreendendo interiores modestos: camas desfeitas, mesas abarrotadas de livros, malas aos cantos. Em um deles um estudante, em camisa, com as pernas nuas, curvado diante de um lavatório de ferro, fazia o laço da gravata ao espelho, enquanto outro, moreno, de óculos, ia e vinha alarmando o silêncio com um vozeirão tormentoso à medida que escovava, com fúria, o casaco que sustentava nas mãos suspenso pela gola:
A vindima eis terminada É beber, toca a beber!
Mentalmente Anselmo concluiu a copla da opereta:
Boa pinga preparada
Vai provada agora ser.
Justamente chegava diante da janela que arejava e iluminava o retiro espiritual do romancista. Deteve-se e o sangue, violentamente sacudido pelo choque duma grande surpresa, estuou-lhe no coração.
Ó sonho! Ruy Vaz ali estava, não como um deus no santuário venerável, mas homem, simples homem, modesto e pobre, entre móveis reles, de calças de brim, camisa de cetineta aberta no peito, curvado sobre a bacia do seu lavatório de vinhático escovando os dentes com fúria.
Ao centro da sala a mesa acumulada de livros e de papéis, duas estantes de ferro, a cama ao fundo e as paredes nuas, tristemente nuas como as da cela de um monge.
O estudante, passada a primeira impressão, sentiu-se mais à vontade. Aquela singeleza ascética tornava o homem mais acessível, humanizava o deus e, repentinamente, como nesse relâmpago cerebral dos moribundos que revêem a vida inteira no transe extremo da agonia, Anselmo lembrou-se dos grandes escritores: Camões, seguindo lentamente as ruas de Lisboa na fria, nevada tristeza das manhãs de inverno, estendendo a mão gloriosa e forte da pena e da espada à caridade; Cervantes, encolhido num cárcere, com um cantil e um pão; Shakespeare, sofreando os cavalos das seges à porta dos teatros e, mais próximo, o dulcíssimo Lamartine acabrunhado e esquecido; Balzac decompondo o cérebro para abrandar os credores que o perseguiam implacavelmente; Murger acabando na triste sala dum hospital e.
— Oh!
— Bom-dia!
— Entra. Vendo-o, Ruy Vaz precipitou-se para a porta arrastando chinelas e convidou-o descerimoniosamente: Entra... Então? Ofereceu-lhe uma cadeira. Anselmo, porém, repousando o chapéu sobre a mesa, ia sentar-se em outra, mas o romancista opôs-se:
— Essa, não! Joga muito, é o meu navio. E a cadeira das sensações de aventura e um edificante exemplo dos funestos resultados do vício. Serve para darme a ilusão das grandes viagens pelos mares fortes e, ao mesmo tempo, previneme contra as bancas. Joga tanto que até perdeu os fundos. Que há de novo? Está um dia magnífico para um passeio ao campo. Atulhou de fumo um cachimbo, repoltreou-se na sua cadeira de trabalho, esticou as pernas, cruzou os pés e ficouse baforando.
(continua...)
Baixar texto completo (.txt)POMPÉIA, Raul. A conquista. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=16594 . Acesso em: 6 abr. 2026.