Por Raul Pompéia (1883)
- Então acharam a Vevinha? Quem furtou?...
- Quem furtou?... Eh.... Sr. Matias... disse Juliana a modo de ironia.
- Por que fala assim, D. Juliana?... Quem a ouvisse diria que fui eu o gatuno. Venha ver amenina aqui no meu bolso...
- Não graceje, Sr. Matias! não me obrigue a soltar a língua...
O senhor mostra o bolso, mas não mostra a... bolsa...
O trocadilho impressionou ao carpinteiro. No seu canto escuro, Matias empalideceu e, para disfarçar, tomou de novo o serrote e pôs-se a trabalhar, sorrindo sem vontade.
Juliana dirigiu o olhar para o sócio do sobrinho, piscando muito, visivelmente enraivecida com o sujeito. Matias não ousava levantar a cara. Sentia o olhar da velha como o dardo de um maçarico, faiscante, ardente, incomodativo.
- Como diabo, dizia de si para si, pôde esta coruja saber?...
E serrava, serrava, para não dar a conhecer o que lhe ia pelo espírito.
Eduardo veio-lhe em socorro. Dirigiu a palavra à tia:
- ... Mas, tia Juliana, disse, eles partiram há três dias...
- Ah, Sr. Matias!... não sei, falava a velha ao carpinteiro, não sei como o Eduardo o atura!... Olhe que o senhor!...
- Há três dias... repetia o Eduardo, meditando, com a mão sobre o braço da tia, para chamarlhe a atenção..
- Como?... perguntou-lhe esta.
- Não sei como é possível... Eles não estão aqui há... uns três dias já...
- O moleque viu, já ....... reconheceu-os... Eram dons: o Manuel e aquele negro o... Pedro... Omoleque os conhece muito... O tratante não saia do circo... ensaios, espetáculos...
- Ah! exclamou o Matias, os gatunos são da companhia do Rosas!.. Ah! ah!...
- Olhe, Sr. Matias, o senhor... Já não me contenho... ameaçou Juliana...
- Tenha paciência, minha cara, há de concordar... ah! ah! Ora uma companhia de ginásticosfurtando uma criança, fraca, imprestável!...
Eduardo refletia, sem dar ouvidos à discussão dos outros.
- Ahn!... Duvida, não é? Pois, ouça!: O meu moleque viu ontem pela meia-noite dois sujeitosreceberem um embrulho aqui... aqui nesta porta!... Era um embrulho grande, de panos enleados... O que foi isso? Pela manhã, falta a menina... Então? o que diz? está aí com uma cara de idiota a fingir...
- Veja que a senhora vai se excedendo... observou o carpinteiro mudando repentinamente demodos.
O que está dizendo é um insulto.
- Insulto! Hipócrita, não admite-se que se possa desconfiar do senhor?
Pois olhe! eu desconfio; e, se não vou mais adiante, é porque não tenho outras testemunhas além do moleque...
- Então, cale a boca... Se o seu moleque...
- ... Mas ainda se há de saber de tudo... O Eduardo vai partir, amanhã mesmo, para ***, ondea companhia está agora dando espetáculos... Ele há de achar a Vevinha...
- Parto! parto! gritou Eduardo, interrompendo a tirada de Juliana. Não vou amanhã... Voupartir agora, neste instante!...
Não me demoro nem uma hora!...
Matias fazia coro à parte com sua risada tossida, mordaz, irônica. Eduardo notou-o. Chamou a tia e desapareceu com ela por uma porta que dava para os fundos da loja.
O carpinteiro cuspiu-lhes às costas o seu riso mofador. Passados instantes, meteu a mão no bolso das calças e tirou um maçozinho de notas do tesouro. Examinou-as e guardou-as depois.
- São minhas! murmurou.
Estas não me escapam!... Aqueles idiotas!... Hão de achar... mas há de ser...
E fez um gesto com o punho cerrado.
II
No dia seguinte perguntava-se pelo marceneiro Eduardo. Ninguém o viu na oficina como de costume; lá estava o Matias sozinho. Era uma cousa curiosa. Depois da filha, o pai...
O que teria sucedido?
Que uma criança desapareça de um dia para o outro... vá; mas um homem e que homem, um carpinteiro e que carpinteiro, o Matias!?...
Ainda uma vez surgiu a perspicácia a dar às tontas com a cabeça pelas hipóteses.
Houve alguém bastante ousado para afirmar que suicidara-se o Eduardo. Este boato romanesco não pegou. Um outro espalhado pela velha Juliana surtiu melhor efeito. Ficou estabelecido que o pobre Eduardo caíra doente.
Três dias depois, soube-se a verdade. O marceneiro Eduardo tinha partido. Para onde, não se sabia inda bem ao certo. Falava-se que fora viajar para distrair-se.
- Ele tem seu cobre... pode fazê-lo, diziam as comadres, palestrando sobre o caso.
Juliana, que fizera correr o boato da moléstia do sobrinho, tinha resolvido deixar transparecer o que havia, sem, contudo, dizer claramente os motivos da viagem de Eduardo. Queria apenas saciar a curiosidade pública, que podia comprometer, com o rumo das indagações, o segredo necessário à empresa que se propusera o sobrinho.
Não se tratava de matar a serpente Piton, nem se exigia para a tarefa a robustez dos Hércules.
Eduardo, passada aquela espécie de loucura que o inutilizara por algum tempo, formou pensadamente um plano de descobrir a Vevinha.
Tinha a certeza de que a filha fora roubada pelos saltimbancos. Empregar os recursos legais fora-lhe talvez infrutífero e com certeza dispendioso. Nem todos podem usar dos instrumentos caros. O mais útil, portanto, era entrar em campo ele próprio.
(continua...)
Baixar texto completo (.txt)POMPÉIA, Raul. Violeta. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=7633 . Acesso em: 6 abr. 2026.