Letras+ | Letródromo | Letropédia | LiRA | PALCO | UnDF



Compartilhar Reportar
#Contos#Literatura Brasileira

Uma Tragédia no Amazonas

Por Raul Pompéia (1880)

O subdelegado, receoso de uma dessas correrias medonhas de selvagens, que levam a devastação às mais magnificas paragens, deixando impressos os seus passos em uma trilha de cadáveres e de cinzas e fazendo fugir diante de si centenas de famílias expostas às suas crueldades, determinou guarnecer a sua morada, assim como o povoado de uma força militar, porém não encontrou soldados em S. João do Príncipe nem nas povoações vizinhas.

Só lhe restava, pois, pedir socorros a Manaus, onde se achavam as autoridades superiores da polícia, mas este proceder avultaria acontecimentos que podiam também ser simplesmente vinganças sem valor dos muitos inimigos que possuía, como os possui, quem conscienciosamente administra a justiça, o que incutiria imotivado terror no espírito dos habitantes da vila.

Para isso evitar, Eustáquio contentou-se com aguardar as circunstâncias do futuro.

Foram-lhe elas favoráveis, chegando ao povoado dois guardas vindos de Uarivan, que foram postos a seu serviço.

Quotidianamente, ao anoitecer, avistava-se os dois soldados subindo silenciosos a picada, a fim de se postarem à porta do subdelegado cujas providências suspenderam, ao menos aparentemente, a série de malvadezas contra ele praticadas.

A vista da sua superfluidade, não duvidou Eustáquio em dispensar os serviços dos policiais, que se retiraram definitivamente para S. João do Príncipe.

CAPÍTULO II

DOIS VIAJANTES

A peça principal da casa de Eustáquio era uma sala, de boas dimensões, entre paredes de imaculada alvura, que era clareada por três janelas de caixilhos brancos.

Uma tarde, achando-se o subdelegado ausente por exigências do seu cargo, estavam Branca e Rosalina assentadas junto de uma dessas janelas, entretidas na leitura de um livro, iluminado pelo brando clarão roxeado que algumas vezes tinge as paisagens, ao crepúsculo, quando ouviram duas leves pancadas na porta.

— Eustáquio! exclamou a jovem filha de Manaus regozijando-se com a chegada do esposo.

Deixando cair o livro sobre uma pequena mesa, correu à porta. Quando, porém, começava a suspender uma tranca de ferro que a reforçava, recuou e disse vivamente, em voz baixa:

— Não, é impossível, não é ele, pois que quando partiu assegurou-me que só amanhã estaria de volta.

Rosalina olhou Branca e viu-a tornar-se lívida e tremer levemente.

— Tem medo, mamãe? perguntou ela concedendo à esposa de Eustáquio esse doce epíteto.

— Na verdade, Rosalina, sinto-me, não sei porque, atemorizada... aqueles acontecimentos... a ausência de meu marido... tenho apreensões horríveis...

Nesta ocasião, apresentou-se Silvano em uma das portas interiores, que dava entrada para um corredor, algum tanto enfumaçado pelos vapores da cozinha que ficava na sua extremidade.

Branca acenou-lhe para que fosse saber quem batera. O preto abriu mui cautelosamente a porta, depois de alguns instantes fechou-a e, rindo-se da sua extrema prudência, anunciou dois viajantes. A senhora, tranqüilizada, disse:

— Convide-os a entrarem.

Abriu-se de novo a porta, e dois indivíduos se mostraram sobre a soleira.

Um deles era um homem alto, cheio de corpo, de porte sereno mas intrépido, cuja boca desaparecia, encoberta por dois bigodes louros que formavam a base de respeitável nariz, verdadeira pirâmide do Egito. Trajava de viajante trazendo a tiracolo uma espingarda.

O outro era um rapazinho de dez ou doze anos. Tinha o rosto, de beleza pouco vulgar aos do seu sexo, aureolado de cabelos de ouro, tendo seus olhos um tom de atrevimento superior a sua idade.

Estava vestido como o companheiro, possuindo como ele uma boa espingarda.

Os recém-chegados e a dona da casa trocaram os cumprimentos. Em seguida Branca dirigindo-se ao mais velho deles perguntou:

— Em que poderei ser-lhe útil, meu senhor?

— Já vos direi, minha cara senhora, começou o viajante que pela entonação da voz parecia francês, porém depois que souberdes quem sou.

"Chamo-me Henrique Dugarbon, minha pátria é a França. Por amor de aventuras estou no Brasil, e há já dois anos que eu o percorro em todos os sentidos.

"Este menino é meu filho Otávio, que me tem seguido por toda a parte.

"Os perigos das minhas viagens têm crescido desde que sai de Manaus.

"Três semanas já se passaram, depois que deixei as margens do Rio Negro, durante elas andei errando pelas florestas, rompendo os matagais e transpondo, com dificuldade e perigo, os largos pântanos e as regiões dominadas pelos selvagens. vindo suspender a minha jornada diante das águas do Iapurá, que banha os alicerces de S. João do Príncipe, onde há de ficar esta criança.

"Os motivos que me forçam a isso são as provações que, bem o sei, me esperam nas excursões que tenciono fazer através da imensa porção do Brasil que está ao norte do Amazonas e a elas não quero sujeitar uma natureza débil como a de Otávio... Neste ponto o menino quis falar, mas, vendo o pai continuar, contevese, deixando rolar uma lágrima pela face rosada... O que espero da vossa bondade, devo agora dizer-vos, é unicamente o favor de indicar-me o caminho a tomar para a povoação."

(continua...)

« Primeiro‹ Anterior12345...Próximo ›Último »
Baixar texto completo (.txt)

← Voltar← AnteriorPróximo →