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#Contos#Literatura Brasileira

As joias da Coroa

Por Raul Pompéia (1882)

Entretanto, reinava movimento no meio da noite. Os numerosos habitantes da quinta do duque, lacaios e protegidos, recolhiam-se naquela ocasião às suas habitações agrupadas em aldeia, nos fundos do palácio. Consumiam a última atividade do diário, preparando-se para o repouso confortante da noite. Na massa de habitações acumuladas ao norte do parque, que fundiam-se com a noite, começavam a aparecer pontos luminosos. Era a candeia de um sótão, o bico de gás de uma sala de jantar ou a vela de um quartinho.

Quando acabaram de acender-se as luzes também o movimento cessou.

Principiaram-se os serões.

Levemos o leitor a um deles.

Uma rua, ou melhor, um estreitíssimo beco, esmagado entre duas paredes crivadas de janelas iluminadas ou não, é o caminho que conduz ao coração desse povoado da quinta.

No extremo dessa viela úmida e escura está uma porta aberta. Entremos...

É uma sala miserável, pobremente mobiliada. Das paredes caem flâmulas de papel descolado e no meio da casa gemem míseros trastes, sobrecarregados de ninharias. Pelas mesas há vasos de fantasia arabescados de rachas e esfoladuras sobre uns tapetes de lã felpudos e muito anchos; pelas cadeiras, retalhos de pano e objetos de costura.

A um canto, conversam baixinho um velho e uma velha. Estão sentados em cadeiras, ao lado de uma pequena mesa. Sobre a mesa há uma vela que bate-lhes no rosto e clareia a toda a luz as rugas das duas fisionomias.

Trocam vivamente palavras.

O velho, com dedo médio unido ao polegar, como apertando uma pitada, faz gestos de quem sabe o que diz, e a velha encara-o através de uns grandes óculos de aros pretos, aprovando com a cabeça, e fala de vez em quando, agitando a agulha que tem na destra e a costura que sustenta na mão esquerda.

Em outro lado da sala vê-se, toda encurvada sobre si uma mocinha. Acha-se sobre um banco com os joelhos cruzados, repuxando-lhe muito o vestido que comprime-lhe as formas. Dedilha febrilmente um cabo de crochet de osso branco. De tempos a tempos levanta o rosto com os olhos semicerrados e sacode para trás a vasta cabeleira negra e esparsa, que quer escorregar-lhe para o crochet.

É uma formosa criaturinha, feições de criança, ar distraído, um tanto carnuda sob uma epiderme sem irritações. Parece não ter quatorze anos ainda e podia usar vestido curto.

Eis mais ou menos o que diziam os velhos:

— Sim, sim, — falava o marido —, é preciso garantirmos o futuro daquela menina. Se não aceitássemos os oferecimentos do Pavia cometeríamos um crime.

— Um verdadeiro crime — afirmou a velha.

— Por um tolo escrúpulo não se há de perder um bom dinheiro...

— Tão bom dinheiro... — reforçou a velha, batendo com a cabeça.

— Demais, o lucro não será só para nossa afilhada, o nosso netinho terá o seu quinhão...

— Sim senhor... Sim senhor...

— Já vê que fiz bem em responder ao Pavia que sim...

— Muito bem. A nossa afilhada assim terá um futuro garantido. A proteção do sr. Duque não é qualquer coisa... Ah! quem me dera que eu ainda fosse fresquinha como antigamente...

CAPÍTULO II

O velho não deu atenção ao honesto suspiro da digna esposa; ficou por alguns segundos remexendo o queixo escalavrado pelos anos e salpicado de raros fios de barba retorcida e branca. Os olhinhos castanhos piscavam-lhe vivamente, testemunhando o fervet opus de raciocínios que trabalhavam naquele crânio de setenta anos.

Depois, a fim de reatar a conversação, voltou-se para a velha:

— Não acha?... Demais, a gratidão nos obriga... Por nosso filho ter sido empregado do duque, não se pode dizer que este tenha o dever de nos dar casa e alimento até o fim da vida... Os favores escravizam um pouco a gente... E de que se trata? Não há nenhum sacrifício... É só vencer um escrúpulo... Isto para nós... A idiota da nora não tem energia para se opor, nem entenderá o riscado. Quanto à menina...

— Fale baixo... ela pode estar escutando e não há necessidade... Olhe que noite bonita! Veja ali pela janela...

— Como está estrelado o céu!... E está fresco...parece que o mau tempo acabou... Quanto à menina... O que vai sofrer?... As doces torturas que nós sabemos e depois levar a vida tranqüila de quem tem certeza de ser amparada em qualquer dia de necessidade... Suponho que as grandes chuvas, que tanto nos têm incomodado, cessaram de uma vez... Ela vai morar com o Pavia algum tempo, diverte-se, sai a passeio com a gente dele, vai ao teatro, coisa que ela nunca provou... Um belo dia, quando estiver sonhando alegrias nos cômodos agasalhos que lhe reserva o Manuel de Pavia, será visitada por uma sombra... Conversarão durante várias entrevistas, etc, etc. Há de ser bonito... garanto que a Conceição não chorará.

— O que é que tem a Conceição? — gritou a voz fina e esperta da mocinha que fazia crochet, sentada no banco. — Vovô agora anda só falando em mim... Eu estou aqui afastada por causa do fresco que vem da porta, mas... estou ouvindo, estou ouvindo...

— Nem há segredo, minha filha. Estou falando em você mesma... É tempo de pensar no seu futuro...

— Aposto que quer me casar!

(continua...)

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