Por Raul Pompéia (1881)
Ainda estava pedindo, com voz atroadora, o sangue impuro dos tiranos, quando sentiu estacar o alazão, forçando o cavaleiro a debruçar-se-lhe sobre as crinas.
Um grupo de pessoas aparecera na estrada. Três escravos e um feitor mal encarado.
Tinham a cara espantada, e pareciam perguntar se o matutino passeador endoudecera.
- O que temos? indagou bruscamente o doutor, engolindo um resto de Marselhesa.
- Venho comunicar ao senhor, respondeu o feitor, que o Emídio fugiu...
- Terceira vez!... o cão... Há de pagar! Hum!... Desta vez eu o ensino, se o pego.
- Havemos de pegá-lo hoje mesmo, garantiu resolutamente o feitor.
- Peguem-no... peguem-no, que havemos de ver para que se inventou o viramundo...
E o alazão continuou a marchar pela estrada adiante, deixando ficar o grupo que interromperalhe os passos.
Com o sacudir da andadura, acomodaram-se no espírito do doutor as idéias momentaneamente desarranjadas pela brusca notícia da fuga do Emídio. Tendo o espirito mais calmo, observou que a orquestração da natureza, subitamente suspensa, recomeçava em surdina, e zunia-lhe ao ouvido como se longínquas fanfarras eólicas começassem a ressoar.
Recomeçava a canção de Marselha. O doutor tornava a achar tudo vermelho e belicoso. Volviam-lhe à imaginação os seus ardores republicanos.
Nessa ocasião um grito chamou-o à distância:
- Cidadão!...
O doutor não voltou-se. Era incrível! Reconhecia a voz de Danton...
- Cidadão! repetiam.
Não! Era talvez Desmoulins, Robespierre, Marat... com os diabos!... Seria sonho?...
- Cidadão!
Seguí-lo-ia porventura a coorte dos homens fantásticos do Terror?...
- Cidadão Salustiano! Doutor!
Ah! o doutor logo vira... Era o compadre... vizinho ali de algumas léguas, um companheiro fazendeiro, apatacado e gordo, e, mais que tudo, republicano.
Vinha a cavalo, em busca de Salustiano. Havia uma grande festa em casa dele. Um aniversário. Celebrava-se pomposamente a queda da Bastilha, a hecatombe das tiranias. Em vez de reis e tiranos, degolara-se para a solenidade uma infinidade de leitões e patos. Lucullo ia festejar a trucidação da realeza!...
Um banquete digno de servir-se através das páginas da Ilíada.
14 de julho!
Estava explicado o sonho harmonioso do Dr. Salustiano: esplêndida miragem acústica, que pintara-lhe aos ouvidos todo o panorama canoro de oitenta e nove!
Aquela manhã era a gloriosa manhã do grande dia.
À noite, a fazenda do compadre estava em festa.
Todos os republicanos de vinte léguas em roda concorreram entusiasmados.
Chamou-se de Campinas uma filarmônia particular, muito ensaiada em sonoridades rubras e gargalhadas de Offenbach.
Quando apareceu na estrada o Dr. Salustiano, a banda de música saudou-o com um Roger de l'Isle mais real que o da manhã e não menos ardente.
Os foguetes crepitavam no espaço, como a fuzilaria dos assaltantes da Bastilha.
A massa estúpida dos escravos alinhava-se em dois renques, ao longo da estrada, sustentando archotes na mão. Tinham a expressão besta de quem nada compreende do que vê. A luz dos archotes clareava-lhes os peitos hercúleos, onde, sobre o branco do algodão das camisas, brilhava o desenho encarnado de pequenos barretes frígidos sobrepostos ao número de cada um.
Salustiano pasmava diante daquele aparato.
Quando entrou no salão do festim, chegou mesmo a sentir no íntimo uma picada de inveja.
Porque não se lembrara primeiro de levar a cabo aquela solenidade?... Ficaria para o ano...
Para o ano o 14 de julho seria dele.
O salão estava imponente. Uma extensa mesa, coberta de iguarias custosas e abundantes, desenrolava-se luxuosamente, com a carta geral da gastronomia. Por cima, cristais e flores, luzes e inações. Ao fundo do salão, quase à cabeceira da mesa, uma grande figura da Liberdade, em gesso, alçava, garbosa, uma lâmpada sobre o banquete.
Dir-se-ia o Anfitrião daquilo tudo.
Foram chegando os convidados, e abancando-se. Só homens.
Em pouco, a mesa regurgitava. Ao doutor coube um lugar aos pés da estátua.
O assalto aos manjares foi medonho. Os trinchantes desapareciam no bojo dos assados, como se fossem punhaladas raivosas. As garrafas estouravam, como fogo nutrido de atiradores destros.
Comia-se, como se ali só houvesse guisados bofes de monarcas; bebia-se, como se houvesse engarrafado o sangue das dinastias.
Pantagruel e Gargantua esgaçavam os lábios, como sansculottes embriagados.
Os garfos eram chuços, as facas eram espadas. A demagogia do ventre arremessava-se doudamente contra a imponência régia dos acepipes.
Enquanto a comida abarrotava as bocas, ia a música abarrotando os ouvidos.
Tudo em grosso, abundantemente, desvairadamente.
Em certa ocasião começaram os brindes.
Brindou-se a este, que era um dos mais puros advogados da causa republicana; a aquele, que defendera no parlamento provincial os sagrados direitos do povo (povo era com P grande); a aquel'outro, que constituía uma das mais legítimas esperanças do partido regenerador...
Houve uma pausa solene, no meio da qual uma voz trêmula e vibrante levantou-se:
- Cidadãos!
(continua...)
Baixar texto completo (.txt)POMPÉIA, Raul. 14 de julho na roça. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=7632 . Acesso em: 6 abr. 2026.