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#Contos#Literatura Brasileira

14 de Julho na roça

Por Raul Pompéia (1881)

Ainda estava pedindo, com voz atroadora, o sangue impuro dos tiranos, quando sentiu estacar o alazão, forçando o cavaleiro a debruçar-se-lhe sobre as crinas.

Um grupo de pessoas aparecera na estrada. Três escravos e um feitor mal encarado.

Tinham a cara espantada, e pareciam perguntar se o matutino passeador endoudecera.

- O que temos? indagou bruscamente o doutor, engolindo um resto de Marselhesa.

- Venho comunicar ao senhor, respondeu o feitor, que o Emídio fugiu...

- Terceira vez!... o cão... Há de pagar! Hum!... Desta vez eu o ensino, se o pego.

- Havemos de pegá-lo hoje mesmo, garantiu resolutamente o feitor.

- Peguem-no... peguem-no, que havemos de ver para que se inventou o viramundo...

E o alazão continuou a marchar pela estrada adiante, deixando ficar o grupo que interromperalhe os passos.

Com o sacudir da andadura, acomodaram-se no espírito do doutor as idéias momentaneamente desarranjadas pela brusca notícia da fuga do Emídio. Tendo o espirito mais calmo, observou que a orquestração da natureza, subitamente suspensa, recomeçava em surdina, e zunia-lhe ao ouvido como se longínquas fanfarras eólicas começassem a ressoar.

Recomeçava a canção de Marselha. O doutor tornava a achar tudo vermelho e belicoso. Volviam-lhe à imaginação os seus ardores republicanos.

Nessa ocasião um grito chamou-o à distância:

- Cidadão!...

O doutor não voltou-se. Era incrível! Reconhecia a voz de Danton...

- Cidadão! repetiam.

Não! Era talvez Desmoulins, Robespierre, Marat... com os diabos!... Seria sonho?...

- Cidadão!

Seguí-lo-ia porventura a coorte dos homens fantásticos do Terror?...

- Cidadão Salustiano! Doutor!

Ah! o doutor logo vira... Era o compadre... vizinho ali de algumas léguas, um companheiro fazendeiro, apatacado e gordo, e, mais que tudo, republicano.

Vinha a cavalo, em busca de Salustiano. Havia uma grande festa em casa dele. Um aniversário. Celebrava-se pomposamente a queda da Bastilha, a hecatombe das tiranias. Em vez de reis e tiranos, degolara-se para a solenidade uma infinidade de leitões e patos. Lucullo ia festejar a trucidação da realeza!...

Um banquete digno de servir-se através das páginas da Ilíada.

14 de julho!

Estava explicado o sonho harmonioso do Dr. Salustiano: esplêndida miragem acústica, que pintara-lhe aos ouvidos todo o panorama canoro de oitenta e nove!

Aquela manhã era a gloriosa manhã do grande dia.

À noite, a fazenda do compadre estava em festa.

Todos os republicanos de vinte léguas em roda concorreram entusiasmados.

Chamou-se de Campinas uma filarmônia particular, muito ensaiada em sonoridades rubras e gargalhadas de Offenbach.

Quando apareceu na estrada o Dr. Salustiano, a banda de música saudou-o com um Roger de l'Isle mais real que o da manhã e não menos ardente.

Os foguetes crepitavam no espaço, como a fuzilaria dos assaltantes da Bastilha.

A massa estúpida dos escravos alinhava-se em dois renques, ao longo da estrada, sustentando archotes na mão. Tinham a expressão besta de quem nada compreende do que vê. A luz dos archotes clareava-lhes os peitos hercúleos, onde, sobre o branco do algodão das camisas, brilhava o desenho encarnado de pequenos barretes frígidos sobrepostos ao número de cada um.

Salustiano pasmava diante daquele aparato.

Quando entrou no salão do festim, chegou mesmo a sentir no íntimo uma picada de inveja.

Porque não se lembrara primeiro de levar a cabo aquela solenidade?... Ficaria para o ano...

Para o ano o 14 de julho seria dele.

O salão estava imponente. Uma extensa mesa, coberta de iguarias custosas e abundantes, desenrolava-se luxuosamente, com a carta geral da gastronomia. Por cima, cristais e flores, luzes e inações. Ao fundo do salão, quase à cabeceira da mesa, uma grande figura da Liberdade, em gesso, alçava, garbosa, uma lâmpada sobre o banquete.

Dir-se-ia o Anfitrião daquilo tudo.

Foram chegando os convidados, e abancando-se. Só homens.

Em pouco, a mesa regurgitava. Ao doutor coube um lugar aos pés da estátua.

O assalto aos manjares foi medonho. Os trinchantes desapareciam no bojo dos assados, como se fossem punhaladas raivosas. As garrafas estouravam, como fogo nutrido de atiradores destros.

Comia-se, como se ali só houvesse guisados bofes de monarcas; bebia-se, como se houvesse engarrafado o sangue das dinastias.

Pantagruel e Gargantua esgaçavam os lábios, como sansculottes embriagados.

Os garfos eram chuços, as facas eram espadas. A demagogia do ventre arremessava-se doudamente contra a imponência régia dos acepipes.

Enquanto a comida abarrotava as bocas, ia a música abarrotando os ouvidos.

Tudo em grosso, abundantemente, desvairadamente.

Em certa ocasião começaram os brindes.

Brindou-se a este, que era um dos mais puros advogados da causa republicana; a aquele, que defendera no parlamento provincial os sagrados direitos do povo (povo era com P grande); a aquel'outro, que constituía uma das mais legítimas esperanças do partido regenerador...

Houve uma pausa solene, no meio da qual uma voz trêmula e vibrante levantou-se:

- Cidadãos!

(continua...)

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