Por Padre Antônio Vieira (1655)
Três horas requereu Cristo no horto. Nestas três horas fez três petições sobre a mesma proposta: a nenhuma delas foi respondido. E como o sentiu, ou que lhe sucedeu? Foi tal a sua dor, a sua aflição, a sua agonia, que chegou a suar sangue por todas as veias: Factus est sudor ejus sicut guttae sanguinis decurrentis in terram.30 Toda a vida de Cristo em trinta e três anos foi um contínuo exercício de heróica paciência, mas nenhum trabalho lhe fez suar gotas de sangue, senão este de requerer uma, outra e três vezes, sem ser respondido. Se três horas de requerimento sem resposta fazem suar sangue a um Homem-Deus, tantos anos de requerimentos e de repulsas, que efeitos causarão em um homem-homem, e tanto mais quanto for mais homem? O requerimento de Cristo: Pater; si possibile est,31 suposto o decreto do Padre e a presciência do mesmo Cristo, era de matéria não possível. E se não ser respondido a um impossível custa tanto, não ser respondido no que talvez se faz a todos, quanto lastimará? O que mais se deve sentir nestas desatenções dos que têm ofício de responder, são os danos públicos que delas se seguem. Não estivera melhor a república, que o sangue que se sua no requerimento, se derramara na campanha? Pois isso mesmo sucedeu neste caso. Se Cristo não suara sangue no Horto, havia de derramar mais sangue no Calvário, porque havia de derramar o sangue que derramou, e mais o que tinha suado. Se no requerimento se esgotarem as veias, a quem há de ficar sangue para a batalha? Nem fica sangue, nem fica frio, nem fica gosto, nem fica vontade: tudo aqui se perde. Começou Cristo a orar ou a requerer no Horto, e começou juntamente a quê? A enfastiar-se, a temer, a entristecer-se: Coepit pavere, et taedere, constristari, et maestus esse (Mc. 14,33; Mt. 26, 37). O mesmo acontece na corte ao mais valoroso capitão, ao mais brioso soldado. Vai um soldado servir na guerra, e levs três coisas: leva vontade, leva ânimo, leva alegria. Torna da guerra a requerer, e todas estas três coisas se lhe trocam. A vontade troca-se em fastio: taedere; o ânimo troca-se em temor: pavere, a alegria troca-se em tristeza: et maestus esse. E que tem a culpa de toda esta mudança tão danosa ao bem público? As dilações, as suspensões, as irresoluções, o hoje, o amanhã, o outro dia, o nunca dos vossos quandos. E faz consciência destes danos algum dos causadores deles? Pois saibam, ainda que o não queiram saber, e desenganarem-se, ainda que se queiram enganar, que a restituição que devem, não é só uma, senão dobrada. Uma restituição ao particular, e outra restituição à república. Ao particular porque serviu, à república porque não terá quem a sirva. Dir-me-eis que não há com que despachar e com que premiar a tantos. Por esta escusa esperava. Primeiramente eles dizem que há para quem quereis, e não há para quem não quereis. Eu não digo isso porque o não creio, mas se não há com que, por que lhe não dizeis que não há? Por que os trazeis suspensos? Por que os trazeis consumidos, e consumindo-se? Esta pergunta não tem resposta, porque ainda que pareça meio de não desconsolar os pretendentes, muito mais os desconsola a dilação e a suspensão, do que os havia de desconsolar o desengano. No mesmo passo o temos.
(continua...)
Baixar texto completo (.txt)Fonte: VIEIRA, Padre Antônio. Sermão da Sexagésima. Disponível em: http://www.ep.com.br/livros_vest/sermoes.pdf . Acesso em: 15 ago. 2026.