Por Padre Antônio Vieira (1672)
O herege, como inimigo doméstico, argumenta com o Evangelho, e das palavras de Cristo forma armas contra o mesmo Cristo. Crê e pretende provar que o que está debaixo das espécies sacramentais é verdadeira substância de pão, e argüi desta maneira: Cristo no Evangelho chama muitas vezes pão a este mistério: Hic est panis, qui de caelo descendit. Qui manducat hunc panem, vivet in aeternum19 Cristo chama-lhe pão? Logo é pão. Provo a conseqüência, diz o herege. Porque a razão por que os católicos cremos que na hóstia está a substância do corpo de Cristo, é porque Cristo disse: Hoc est corpus meum: Este é meu corpo (Mt. 26,26). Pois se na hóstia está a substância do corpo, porque Cristo disse: Hoc est corpus meum, também na hóstia está a substância de pão, porque Cristo disse: Hic est panis.
Responde a razão facilmente. Chama Cristo pão à hóstia consagrada sem ser pão, porque ainda que não é pão, foi pão, ainda que não é pão, parece pão, e para ter o nome não é necessário ser, basta haver sido; não é necessário ser, basta parecer. Prova a razão com o mesmo Evangelho. Panis quem dabo, caro mea est (Jo. 6,52): O pão que eu vos hei de dar, diz Cristo, é meu corpo. – Pois; se é corpo, por que lhe chama pão? E se lhe chama pão, por que lhe chama corpo? Chama-lhe corpo pelo que é, e chama-lhe pão, pelo que foi? Chama-lhe corpo pelo que é, e chama-lhe pão pelo que parece. Aquela hóstia não é pão, mas foi pão e parece pão, e basta o parecer e o haver sido, para se chamar assim. E por que não possa dizer o herege que isto é explicação humana e nossa, veja ele, e vejam todos, como esta é a frase e o modo de falar de Deus e de suas Escrituras. Convertida a vara de Moisés (que também se chama de Arão) em serpente, convertidas também em serpentes as varas dos magos de Faraó, investiu a serpente de Moisés as outras, e diz assim o texto: Virga Aaron devoravit virgas eorum: a vara de Moisés comeu as varas dos egípcios (Êx. 7,12). Parece que não havia de dizer assim. As serpentes dos egípcios não as comeu a vara de Moisés, senão a serpente de Moisés, porque a vara não podia comer; senão a serpente. Pois se a serpente foi a que comeu, por que se diz que comeu a vara? Porque a serpente de Moisés tinha sido vara de Moisés, e para a serpente se chamar vara, basta que tenha sido vara, ainda que seja serpente. O mesmo passa neste mistério. A hóstia consagrada, que agora é corpo de Cristo, tinha sido pão; e para a hóstia, que é corpo de Cristo, se chamar pão, basta que tenha sido pão, ainda que seja corpo de Cristo. De sorte que, sem ser pão, se pode chamar pão, não porque o é, senão porque o foi. Da mesma maneira se chama pão, não porque o é, senão porque o parece. Refere o texto sagrado a criação dos planetas e astros celestes, e diz que fez Deus duas luzes, ou lumieiras, como lhes chama o texto, maiores que todas, que são o sol e a lua: Fecit duo luminaria magna (Gên. 1,16). Se consultarmos a astrologia, havemos de achar que a maior de todas as luzes celestes é o sol, e a menor de todas é a lua. Pois se a lua é o menor de todos os astros, por que se chama maior? Que se chame maior o sol, é devido esse nome à sua grandeza; mas chamar-se maior a lua? Sim. O sol chama-se maior, porque o é; a lua chama-se maior porque o parece. Todos os astros são maiores que a lua, mas a lua parece maior que todos, e basta que pareça maior, ainda que o não seja, para que se chame maior. Assim, nem mais nem menos, aquela sagrada hóstia não é pão, mas parece pão, porque ficaram nela os acidentes de pão em que topam os nossos sentidos; e basta que pareça pão, ainda que o não seja, para que se chame pão: Hic est panis.
(continua...)
Baixar texto completo (.txt)Fonte: VIEIRA, Padre Antônio. Sermão da Sexagésima. Disponível em: http://www.ep.com.br/livros_vest/sermoes.pdf . Acesso em: 13 ago. 2026.