Por Lima Barreto (1922)
— Estou sem voz: esfalfei-me muito ontem, no baile do doutor Raposo e...
Vendo que seu pai o havia convidado, Clara animou-se:
— Por que não canta "Seu" Cassi? Dizem que o senhor canta tão bem...
Esse — "tão bem" — foi alongado maciamente. Cassi concertou, com apurada pelintragem e com ambas as mãos, a pastinha oleosa; limpou, em seguida, os dedos no lenço e respondeu dengoso:
— Qual, minha senhora! São bondades dos camaradas...
Clara insistiu:
— Cante, "Seu" Cassi! Vá!
Ele, então, torcendo a cabeça para o lado esquerdo, cuja mão espalmada abria para o alto, e fingindo constrangimento, respondeu:
— Já que a senhora manda, vou cantar.
Marramaque, que tinha ouvido tudo, ficou espantado com o desembaraço da afilhada. Diabo! fez ele de si para si.
O violeiro, com todo o dengue, agarrou o violão, fez estalar as cordas e avisou:
— Vou cantar uma modinha velha, mas muito gentil e literária — "Na Roça".
Muitos circunstantes ficaram desapontados, porque já a conheciam; mas outros gostavam muito da modinha e aprovaram a escolha.
Cassi começou:
Mostraram-me um dia
Na roça dançando
Mestiça formosa
De olhar azougado...
Isto tudo era dito quase aos poucos, sem modulação alguma, enquanto o violão repinicava as mesmas notas, numa indigência musical, numa monotonia de sons, que dava sono. Quando chegava ao estribilho:
Sorria a mulata
Por quem o feitor
Diziam que andava
Perdido de amor
Por aí ele empregava o seu tic invencível de tocador de violão e cantor de modinha. Cantando, revirava os olhos e como que os deixava morrer. O cardeal de Retz diz, nas suas famosas Memórias, que Mme. de Montayon, ou uma outra qualquer duquesa, ficava mais bela quando os seus olhos morriam. Cassi talvez ficasse mais, se ele tivesse alguma beleza; entretanto, esse seu tic impressionava as damas.
Clara, que sempre a modinha transfigurava, levando-a a regiões de perpétua felicidade, de amor, de satisfação, de alegria, a ponto de quase ela suspender, quando as ouvia, a vida de relação, ficar num êxtase místico, absorvida totalmente nas palavras sonoras da trova, impressionou-se profundamente com aquele jogo de olhar, com que Cassi comentava os versos da modinha. Ele sofria, por força, senão não punha tanta expressão de mágoa, quando cantava — pensava ela.
Tão embevecida estava, tão longe pairava o seu pensamento que, quando Cassi acabou, esqueceu-se de aplaudir o troveiro que, para o seu rudimentar gosto, lhe tinha proporcionado tão forte prazer artístico.
Comentava-se ainda a execução do maestro Cassi; e ele ao lado percebia os gabos e criticas. Por esse tempo, como uma aparição em alçapão de mágica, surgiu repentinamente, no centro da sala, o "doutor" Praxedes, célebre advogado nos auditórios suburbanos, Iniciou:
— Minhas senhoras e meus senhores. Peço-lhes a devida vênia, para recitar uma mimosa poesia de um nosso patrício. É uma obra-prima de chiquismo e de moralidade. O seu autor é o Major Urbano Duarte, que morreu, se não me falha a memória, general-de-brigada, Vou recitá-la, se me permitem. Chama-se "A Lágrima".
Dizendo isto, o seu todo grotesco ainda mais grotesco ficava, com a gesticulação desordenada dos braços, que rodavam, duros e hirtos, em torno dos ombros, de cima para baixo. Pareciam asas de um antigo moinho de vento. Começou gritando a primeira estrofe e já se babando pelos cantos dos seus lábios violáceos:
Cismava à beira-mar, a linda Marieta,
Seguindo tristemente o sulco do vapor,
O qual, fugindo além, sumiu-se no horizonte, Levando a longe terra o seu primeiro amor.
O seu gritar, o seu babujar, o seu gesticular foram crescendo. Quando chegou ao primeiro terceto do soneto, quase não tinha mais voz. Da assistência, apossarase uma louca vontade de rir; muitos se contiveram; outros, porém, se retiraram para gargalhar longe. O doutor Praxedes nada via e continuava impertérrito, afinal acabou:
Depois, quando o luar banhando a natureza
Em pálidos clarões de luz misteriosa,
Eu vi no arrebentar do mar embravecido A lágrima a boiar na pétala de rosa.
Ao terminar, recebeu palmas, e, sentando-se, cansado de tão estúrdio esforço muscular, ainda disse:
— Essa lágrima é a da Marieta de que "o verso" fala no começo. É preciso que os senhores e as senhoras não se esqueçam desse pormenor.
Marramaque, que até ali, sem ser notado, seguira a insistência com que o trovador Cassi olhava Clara, resolveu pregar-lhe uma peça. Apoiado na sua bengala amiga, com a perna esquerda encolhida, devido aos ataques, e o respectivo braço fixado em ângulo reto, conseqüência também dos ataques — encaminhou-se para o centro da sala, capengando, a fim de recitar, por sua vez. A parte esquerda da boca era defeituosa também, e isso provocava-lhe muito esforço para pronunciar bem as palavras.
Não atendeu a nenhuma consideração e pôs-se em pé para recitar.
(continua...)
Baixar texto completo (.txt)BARRETO, Lima. Clara dos Anjos. Brasília, DF: Ministério da Educação, Domínio Público. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=16815 . Acesso em: 29 abr. 2026.