Por Coelho Neto (1924)
Se não sentiste naquele angustioso instante, quando ainda te não arrancaras de todo a nossa esperança. preso à vida pelo olhar, que poderás sentir agora, silêncio cm que jazes, nessa profundidade, a maior de todas as profundidades, onde, se riso chega o nosso amor, não chegará, decerto, a raiva das tempestades!
RAJADA
Como explicar tais surtos?
A mim mesmo, surpreso, lanço esta pergunta.
Que ele venha, invocado pela saudade, quando o coração, que se não resigna, o chama, é natural. Não há túmulo que resista a tal reclamo, pesem-lhe, embora, em cima, mármores e granito, metais e terra fúnera: o prestígio do amor tudo consegue.
Se a gota de água perene abre sulcos e atravessa penhascos, que não farão as lágrimas, muito mais poderosas, por virem de fonte divina?
Assim, compreende-se que a invocação do amor consiga trazer da morte, em espírito, aqueles que desaparecem, mas que, de improviso, espontaneamente, eles nos surjam, entrem-nos pelo coração... só se neles também perdura o amor, se a saudade insiste em os prender à vida para que, por ela, tornem, como a andorinha regressa do exílio ao ninho antigo, mal se dissolve a neve que a repeliu para outro clima.
Ainda que o não esqueça instantes há, porém, em que o não sinto, tanto ele se aquieta como adormecido no fundo da memória. Basta, porém, um rumor leve de lembrança, uma subtil reminiscência para que ele desperte.
Assim, porém, como na vida quando os trabalhos nos solicitam e saímos por eles, deixando em casa os filhos, cada qual naquilo que lhe consente a idade - um, no estudo; outro, brincando e o pequenino no berço ou no aconchego do colo maternal, sem que deles nos esqueçamos, posto que os não tenhamos presentes, assim, também horas há em que nos abstraímos dos mortos e se isso importasse em esquecimento da mesma ingratidão se poderiam igualmente queixar os vivos.
Em tais momentos quem nos encontra no giro do trabalho, falando a um e outro, rindo com eles, não dirá que toda essa aparência de alegria ou indiferença assenta em melancolia.
Profundezas, quem as sonda? Penetrais, quem os alcança?
Julgue-se o oceano pela superfície que rebrilha ao sol em frisos ondulantes, riso efêmero das águas que se desfaz em espumas.
Julgue-se a brenha pelo que dela se avista, verdura matizada pela florescência dos ramos. Julgue-se o infinito pelo azul que o olhar abrange. Quem sabe lá o segredo do abismo, o mistério da selva, o arcano da altura.
O coração é a profundeza em que jazem os sentimentos, em que se ocultam as paixões: amor e ódios, saudades e remorsos, todo o bem e todo o mal.
A noite é bem a imagem da morte.
Vai-se o sol e as sombras parciais desaparecem, fundindo-se na escuridão universal, que é a Treva. Vai-se a alma, que é luz, e o corpo, sombra da terra, torna ao de que veio: a Terra. E, assim como o sol, e retorno, refaz o dia, assim a alma, depois do tramonto e da depuração, regressa à vida e ilumina outro ser, efêmero como o dia.
Mas essa luz instantânea, luz que brilha e extingue-se, relâmpago que apenas serve para mostrar-me o deserto, claridade que fulgura tão só para que eu veja toda a imensa extensão da minha desventura, quem a acende, e por que?
Como explicar tais surtos, esse ressurgimento do morto dentro da minha saudade? Quem o invoca e que chamado atende? Será Deus que o mutila para consolo da minha alma ou será ele próprio que se desprende da Eternidade e, a súbitas como para certificar-se de que não morreu no meu amor, desce em visita ao coração, que era o seu ninho? Não sei.
Na maior serenidade, tudo em calma: o céu azul! com o sol em pleno, as árvores imóveis nos ramos as aves alacres cantando. De repente, sem nuvem que a anuncie, sopra de longe, das montanhas, frias, ríspida rajada.
Curvam-se as frondes, sobe a poeira em torvelins, abrumam-se os ares, negros bulcões empastam, escurecem o céu em cariz de borrasca.
Mas o sol esgueira um raio, abre, por fim, a larga alara de ouro. Reacende-se a claridade, limpase de todo o azul, tornam os pássaros ao vôo e a vida serenamente continua.
Assim, por vezes, no meu coração.
Trabalho na quiete do meu gabinete ou cruzo a multidão nas ruas: movimento ou placidez, rumor de vida ou silêncio. Atento em dar forma a uma idéia, torturando, polindo e repolindo a frase eu sigo distraído do turbilhão tumultuário, tanto como folha morta levada ao léu da correnteza. Nele não penso. Acha-se onde o amor o recolheu quando a morte o prostrou, no mais recôndito do coração, onde a saudade conserva carinhosamente o seu tesouro.
De repente o coração me estremece, como abalroado e, no alvoroço que o agita, transbordam os seus veios sentimentais e logo se me marejam de lágrimas os olhos.
(continua...)
Baixar texto completo (.txt)COELHO NETO, Henrique Maximiano. Mano. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=7528 . Acesso em: 7 abr. 2026.